Mais presença militar e operações policiais reduziram parte dos indicadores, mas homicídios, explosões e medo cotidiano mostram que a política de segurança de Daniel Noboa ainda não devolveu paz ao Equador
Nas ruas, praças e zonas comerciais da capital do Equador, o termômetro da segurança não se mede unicamente pelos informes oficiais, mas pela profunda transformação do cotidiano de seus habitantes. Na metade de 2026, a percepção de risco alterou os horários comerciais e o livre trânsito.
Apesar de que o Governo propôs e aplicou dois toques de queda, operativos em nível nacional, acompanhados de vários estados de exceção para fazer frente à crise de segurança, fatos recentes de violência e a proliferação de modalidades delituosas mantêm em alerta uma população que não vê melhoras estruturais.
As estatísticas oficiais
A vulnerabilidade da capital ficou evidente uma vez mais em 29 de junho, quando o norte de Quito despertou com duas explosões dirigidas às instalações da Agência de Regulamentação e Controle Minerário (Arcom). O atentado, que segundo as investigações preliminares da Polícia Nacional estaria relacionado a um veículo incinerado encontrado em um túnel viário próximo, volta a acender os alarmes sobre o alcance das estruturas criminosas em zonas urbanas de alta densidade.
Entre janeiro e maio de 2026, os dados macro estatísticos mostram uma tendência à baixa na incidência de crimes em cidades historicamente conflituosa, como as costeiras. No entanto, o panorama geral continua alarmante: um informe oficial do Ministério do Interior revela que, entre janeiro e abril deste ano, foram cometidos 2.778 crimes em escala nacional, o que representa uma redução de 11,8% diante dos 3.150 assassinatos registrados em 2025.
Em Quito, 2026 começou com uma tendência ao aumento de homicídios, marcado pela intensificação da luta pelo território.
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No primeiro trimestre, foram contabilizados 67 homicídios intencionais, o que representa um aumento de mais de 20% em relação a 2025, quando foram contabilizados 55 casos. Este incremento foi atribuído pela Polícia Nacional a disputas entre grupos de delinquência organizada, que buscam controlar espaços para a venda de droga em setores específicos da cidade.
O declive das “zonas seguras”

Na capital, embora o roubo de pessoas se mantenha como o delito de maior incidência, as estatísticas mostram um decréscimo numérico. Dos 2.418 casos registrados no ano passado no mesmo período, atualmente somam-se 2.016 eventos, o que representa uma redução de 402 denúncias.
Não obstante, esta dinâmica com o aumento da violência letal e modalidades delituosas causam mais terror psicológico e físico, como os roubos com submissão química mediante o uso de escopolamina.
Este fenômeno é sentido de forma direta, tanto por comerciantes como por trabalhadores autônomos. Elizabeth Plazarte, estilista da zona, expressa com preocupação a perda de espaços seguros:
“Vejo que a coisa piorou. Há muita delinquência, há muita insegurança por todo lado, agora onde você vá é inseguro, a gente já não pode se sentir tranquilo em nenhum lugar. O filho de meu esposo foi escopolaminado (drogado) enquanto estava em um restaurante e obviamente, isso é o que está acontecendo com frequência”, explica para Sputnik.
Esta percepção de desamparo e a recorrência de delitos complexos coincide com a opinião de Eduardo Ramírez, proprietário de um negócio e comerciante do setor, que assegura que a operatividade se viu forçada a retroceder ante a falta de garantias:
“Toca a fechar mais cedo, não há nenhuma melhora. Lamentavelmente não se dão conta de que as famílias estão sofrendo de assédio, diferentes situações (…) e ninguém dá nenhuma solução”, enfatiza.
A modificação dos hábitos não só implica em perdas econômicas para locais comerciais que tiveram que reduzir suas jornadas de atenção ao público. A estrutura interna das famílias de Quito adaptou-se por meio de protocolos estritos de comunicação e monitoramento constante para mitigar o risco de desaparecimentos ou de assaltos noturnos.
“Não se pode sair tranquila. A gente tem que sempre deixar um aviso de onde vai estar, a que hora vai voltar para que as famílias estejam atentas”, detalha para Sputnik María Isabel Ortiz, moradora.
Esta necessidade de controle preventivo caseiro responde em grande medida ao temor das famílias gerado pela imprevisibilidade do delito em áreas residenciais e comerciais, que antes eram consideradas zonas seguras.
O contraste entre a redução estatística do roubo comum e a percepção de mais segurança expõe uma fissura considerável. A população de Quito entende que a aparente redução de porcentagens de atividades delituosas pode ser animadora, mas espera que isto se traduza logo em paz ou segurança na cidade e no país.
