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Entrevista | Gerardo Hernández: EUA usam fome, desespero e ameaça militar para destruir Revolução Cubana

Entre memórias da Revolução Cubana, denúncias contra o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos e apelos pela mobilização internacional em defesa da soberania da ilha, o herói da República de Cuba e coordenador nacional dos Comitês de Defesa da Revolução (CDR), Gerardo Hernández, traça um retrato contundente do momento vivido pelo país. Em sua análise, a juventude ocupa papel estratégico na continuidade do projeto revolucionário, especialmente diante da intensificação da guerra econômica, midiática e política contra Cuba. 

Ao abordar os efeitos do bloqueio, Gerardo afirma que as sanções deixaram de ser mascaradas como medidas “contra o governo” e passaram a revelar explicitamente seu objetivo: provocar fome, desespero e ruptura social. Segundo ele, o agravamento das dificuldades econômicas fez crescer, inclusive entre os jovens cubanos, a consciência de que o bloqueio não é uma abstração diplomática, mas uma política concreta de asfixia contra a população. 

“É todo um povo — homens, mulheres e crianças — que está em perigo”, alerta o dirigente cubano ao defender que este é um momento decisivo para ampliar a solidariedade internacional com a ilha. Entre referências à resistência histórica da Revolução, à organização comunitária dos CDR e à necessidade de incorporar novas gerações ao trabalho político de base, Gerardo Hernández sustenta que Cuba enfrenta não apenas uma crise econômica, mas uma ofensiva imperialista que busca quebrar a soberania do país pela exaustão. 

Confira a entrevista:

Resumen: Como o senhor avalia a recente caravana de solidariedade “Nossa América” a Cuba?

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Gerardo Hernández Nordelo – wikipedia

Gerardo Hernández: Antes de tudo, nós, cubanos, nos sentimos muito agradecidos e orgulhosos, considerando o momento que estamos vivendo, um momento de enorme importância para o nosso país. Ver quantos amigos, sem muita preparação nem grandes preâmbulos, vieram ao nosso país para expressar sua solidariedade aos cubanos é verdadeiramente motivo de satisfação e orgulho.

Gostaria de pensar que isso não foi algo casual, porque vimos muitos jovens nessa caravana, junto com pessoas experientes, conhecidas por sua solidariedade ao nosso país, e até mesmo pessoas que demonstraram apoio durante a campanha pela libertação dos Cinco. Mas também havia muitas pessoas que não conhecíamos, gente que nunca tínhamos visto antes, além de muitos jovens. Acontece que, mesmo entre os amigos, chegou um momento em que falar do bloqueio parecia um pouco exagerado; diziam: “Não é um bloqueio, é um embargo”.

Na realidade, os efeitos são tão graves quanto Cuba costuma afirmar. O que vem acontecendo demonstrou a muitas pessoas no mundo, em primeiro lugar, que tínhamos razão, que estivemos certos durante todos esses anos em que denunciamos os efeitos do bloqueio, a imensa dor e o sofrimento que ele causa ao nosso povo. Além disso, o uso da palavra “bloqueio” não é um exagero; agora, mais do que nunca, isso ficou evidente. Creio que há muita gente no mundo tomando consciência dessas realidades.

O bloqueio existe, foi intensificado e causa muito sofrimento ao povo cubano. Durante muito tempo, os inimigos da Revolução tentaram ocultar que o bloqueio afeta o nosso povo, dizendo: “Não é contra o povo, é contra os dirigentes, é contra o regime”. Agora, retiraram a máscara e reconhecem que sim, é contra o povo e, mais ainda, reconhecem que seu objetivo é sufocar o povo, desesperá-lo e provocar distúrbios sociais. Já não escondem que dizem: “Sim, existe um bloqueio; sim, queremos sufocar o povo; sim, queremos dobrá-lo”, algo que Cuba denuncia há décadas.

Por que ajudar Cuba? O testemunho de tripulantes do barco solidário Granma 2.0

O bloqueio afeta o povo; não é contra o governo, mas busca fazer nossa gente sofrer, e agora isso está mais do que demonstrado. Muitas pessoas perceberam essa situação, e acredito que a solidariedade está se fortalecendo, não apenas no exterior, mas também dentro do nosso país. Para aqueles de nós que nascemos sob o bloqueio há gerações, às vezes a forma de condená-lo tornava-se um pouco repetitiva, e alguns até começaram a duvidar de sua história. No entanto, agora, diante do que está acontecendo, muito mais gente em Cuba está consciente de que o bloqueio pretende nos dobrar, nos subjugar por meio da fome e da necessidade, e provocar que este povo se volte contra seu próprio governo.

Que relação os CDR mantêm com a solidariedade internacional a Cuba?

Nós, dos Comitês de Defesa da Revolução (CDR), buscamos fortalecer nossas relações internacionais. Mantemos excelentes relações, com o devido respeito, com organizações de outros países, bem como uma ampla rede de solidariedade. Sendo a maior organização de massas de Cuba, com presença em cada bairro e em cada canto do país, somos uma organização que facilita que pessoas solidárias cheguem aos cubanos que necessitam de ajuda.

Por isso, temos trabalhado para fortalecer nossos laços com companheiros solidários em todo o mundo e com cubanos residentes em muitos países. Como é amplamente conhecido, fazemos parte do projeto “A Cuba hay que quererla” (“É preciso amar Cuba”), que há vários anos trabalha, desde sua fundação, na questão dos medicamentos. Ao final do “Debate do Bairro”, centenas de membros do CDR do bairro La Güinera, em Arroyo Naranjo, assinaram uma declaração de apoio à pátria, enquanto os pioneiros homenagearam os combatentes do Exército Rebelde e de Playa Girón por sua dedicação em momentos cruciais da história do país. Adán Morel, um canal de notícias cubano, informou sobre o bloqueio dos Estados Unidos contra Cuba, a falta de medicamentos para crianças e o genocídio contra o povo palestino, e exigiu…

Portanto, existem diversos projetos que apoiamos, diversas iniciativas de nossos compatriotas que vivem em outros países, atuando de forma não estatal. Nossa mensagem de solidariedade a Cuba nestes tempos tão difíceis, quando é hora de levantar a voz e unir esforços em apoio ao nosso povo, é que podem contar com os Comitês de Defesa da Revolução para ajudar a viabilizar qualquer projeto que beneficie o nosso povo.

Quais atividades os CDR realizam atualmente e quais deixaram de lado?

Como sabem, os Comitês de Defesa da Revolução foram fundados por Fidel em 28 de setembro de 1960. Durante muito tempo, nos últimos anos, eu mesmo costumava dizer, ao me referir a essa data: “Os tempos mudaram muito, as circunstâncias não são as mesmas”. No entanto, preciso me corrigir, porque agora existem circunstâncias muito semelhantes às daquela época.

Nestes tempos recentes, sob a ameaça inclusive de agressão militar, com infiltrações e tentativas de atos terroristas, as circunstâncias se assemelham muito às que existiam na fundação dos Comitês de Defesa da Revolução. Portanto, embora algumas das tarefas fundacionais tenham mudado com a evolução do país e do mundo, nossa missão fundamental continua sendo a defesa da Revolução a partir de nossos bairros, a defesa de nossos princípios e de nosso processo revolucionário dentro das comunidades e por meio de nossos próprios vizinhos.

Ao longo dos anos, outras tarefas foram incorporadas. Nossa organização participa, por exemplo, das campanhas de doação de sangue para ajudar voluntariamente as pessoas necessitadas. Tivemos uma participação muito importante no que antes era conhecido como “coleta de matérias-primas”, hoje chamado de “recuperação de valor”.

O bloqueio em imagens: registros do cotidiano sob asfixia em Cuba

Nossa forma de atuação mudou um pouco. Atualmente mantemos excelentes relações com o grupo empresarial de recuperação conhecido como Hermoso.

Apoiamos esse trabalho de recuperação de matérias-primas. Embora essas tarefas tenham caracterizado a organização durante muitos anos, elas foram adaptadas e modificadas de acordo com as novas circunstâncias. Há tarefas que nunca mudaram nem mudarão: a defesa da nossa Revolução, a proteção de nossos bairros, a vigilância revolucionária. Este é um aspecto duramente criticado pelos inimigos da Revolução e, especificamente, pelos inimigos dos Comitês de Defesa da Revolução.

Eles dizem que os comitês de bairro são organizações de vizinhos que espionam uns aos outros, etc., e ignoram hipocritamente que em lugares como os Estados Unidos existe uma organização chamada Vigilância de Bairro (Neighborhood Watch), onde, em qualquer bairro, especialmente nos mais ricos, onde não é comum ver afro-americanos, existe essa organização composta precisamente por vizinhos que vigiam sua comunidade e, quando veem um estranho, chamam a polícia. Nossa vigilância não se concentra em pessoas do bairro que supostamente não deveriam estar ali, mas naqueles que roubam depósitos onde são armazenados produtos de primeira necessidade, naqueles que roubam para furtar telefones celulares, naqueles que distribuem drogas. Esse tipo de proteção, que nós, os vizinhos, devemos oferecer uns aos outros, é o que constitui nossa vigilância.

Naturalmente, se houver pessoas que desejam sabotar, cometer um ato terrorista ou agir contra a Revolução, isso também faz parte da nossa vigilância, porque se trata de defender um projeto cuja construção exigiu um enorme sacrifício, e não o entregaremos facilmente; continuaremos protegendo-o. Você perguntou o que deixamos para trás: os princípios fundamentais continuam os mesmos; o que pode ter mudado é a forma como desenvolvemos nossas estratégias de acordo com os tempos, que mudaram. Os códigos para transmitir nossos interesses, para convocar o cumprimento das missões da organização, mudaram.

Tentamos nos adaptar aos novos tempos, mas as tarefas fundamentais permanecem as mesmas; não abandonamos nenhuma que seja essencial. Também posso dizer que, ao longo de mais de sessenta anos, em uma organização que é a maior de Cuba, com presença em cada bairro, e considerando todas as acusações e críticas dirigidas aos CDR e a seus membros, sou o primeiro a reconhecer que, em uma organização tão grande, com aproximadamente 38 mil CDR diferentes em todo o país, é possível que em algum lugar tenha ocorrido algum excesso, alguma injustiça, que alguma pessoa tenha ultrapassado os limites de suas funções. Isso pode ter acontecido, como pode acontecer em qualquer organização em qualquer parte do mundo, mas de forma alguma é isso que caracteriza nossa organização nem o que deveria definir uma organização comunitária como a nossa.

O que vocês estão fazendo para incorporar mais jovens?

Esta é uma de nossas missões mais importantes, um dos maiores desafios para os Comitês de Defesa da Revolução: a incorporação de jovens. Isso se deve a vários fatores, entre eles o fato de que muitos fundadores dos CDR, que dedicaram suas vidas à organização, que a amam e que assumiram responsabilidades em algum momento, desejaram permanecer nela enquanto tivessem forças. Por isso, ainda contamos com fundadores em nossas fileiras, pessoas que ao longo de suas vidas dedicaram seus esforços ao trabalho comunitário por meio da nossa organização.

Mas também enfrentamos o fato de que existem pessoas muito revolucionárias, com um desempenho excepcional em seus empregos; trabalham oito horas ou mais e, ao chegar em casa, dizem: “Já cumpri minha parte hoje, agora preciso descansar”.

Basicamente, elas não têm tempo para começar as tarefas comunitárias naquele horário. O mesmo acontece com os jovens estudantes que dizem: “Passo o dia inteiro estudando na universidade ou onde quer que seja, e quando volto para casa preciso participar de algum seminário, estudar”, e também afirmam que não têm tempo para se envolver nas tarefas comunitárias. Então, quem assume essa responsabilidade? Quem é a pessoa da família que dispõe de tempo suficiente? Bem, o avô ou a avó, que em determinado momento dizem: “Tudo bem, assumirei a responsabilidade no CDR e no trabalho comunitário”.

Isso levou, e é um dos fatores que levou, ao fato de que nossas lideranças nos blocos e bairros sejam compostas, em geral, por pessoas mais velhas ou, pelo menos, por pessoas em uma fase mais avançada da vida. Queremos incorporar sangue novo à organização. Sentimos um enorme orgulho das pessoas mais velhas que, como já disse, dedicaram toda a sua vida ao trabalho na organização e são extremamente valiosas; por isso, defendemos a incorporação de jovens para que possam compartilhar toda essa experiência junto com essas pessoas.

É fundamental para os Comitês de Defesa da Revolução que os jovens identifiquem a organização como uma plataforma a partir da qual possam contribuir para o país, para seu bairro, para seus vizinhos e desenvolver suas capacidades organizativas e de liderança. O trabalho comunitário que podem realizar por meio da nossa organização é ilimitado e, felizmente, cada vez mais jovens o reconhecem dessa forma e se juntam à organização.

Posso dizer que temos jovens que são presidentes de CDR e até coordenadores de zona, contribuindo ativamente para nossa organização. Vou dar um exemplo: a questão das redes sociais. Quando os CDR foram fundados, elas não existiam; até pouco tempo atrás, há apenas alguns anos, eram algo completamente desconhecido.

Hoje em dia, os jovens são aqueles que melhor dominam esse tema. Atualmente, as reuniões são organizadas por meio de grupos de WhatsApp, mas, para que isso funcione, é necessário ensinar aos demais o que é um grupo de WhatsApp e como utilizar as redes sociais.

Contamos com ativistas das redes sociais em muitos CDR que estão ajudando a organização nessa tarefa. Este é apenas um exemplo.

Temos ouvido dizer que “o bloqueio contra Cuba” não existe.

Nunca nos perdoaram, aos cubanos, por termos feito uma revolução bem diante do nariz do império, e foi daí que surgiu essa tremenda perseguição, que se prolonga há décadas. Um bloqueio tão criminoso como este, tão prolongado, é, na minha opinião, algo único na história da humanidade. Durante muitos anos, como já dissemos, afirmaram que o bloqueio não tinha nada a ver com o povo, que não era dirigido contra o povo, mas contra o regime. Porém, já se desmascararam; essa mentira não tinha fundamento.

Agora tiveram de reconhecer, em parte e entre aspas, graças ao presidente dos Estados Unidos, que não costuma fazer rodeios ao falar de suas intenções, não é nada diplomático nem procura escondê-las. Aquelas pessoas, inclusive as de origem cubana, que sentiam certa vergonha e não queriam admitir que se aliavam a interesses estrangeiros para agir contra seu próprio povo, que não queriam reconhecer que tentavam matar seu povo de fome e privá-lo de recursos, que não queriam admitir que a falta de medicamentos para sua gente se devia em grande medida à sua própria postura, essas pessoas, seguindo a linha traçada por seus patrões, reconheceram hoje que sim, o bloqueio serve para estrangulá-los, sufocá-los e obrigá-los a agir e sair às ruas contra seu governo.

Agora dizem isso abertamente. É muito triste que pessoas de origem cubana ataquem seu país dessa maneira e tenham a audácia descarada de até pedir uma agressão militar contra ele, sabendo que isso custará vidas, possivelmente inclusive vidas de crianças.

Como você lida com os insultos e as mentiras nas redes sociais?

É curioso porque, nesse sentido, eles têm um trabalho um pouco complicado comigo. Sou comediante desde os 17 anos; entrei no mundo do humor muito jovem, e os comediantes precisam ter muita paciência para, como dizemos em Cuba, “aguentar as provocações”. Portanto, as provocações não me afetam pessoalmente, sobretudo quando são tão tolas a ponto de zombar de algo que todo mundo conhece.

A questão da minha paternidade está documentada em documentários, em documentos do FBI e em declarações da sua querida Ileana Ross. Em resumo, é de conhecimento público. Qualquer pessoa que queira saber como aconteceu só precisa verificar. A forma como isso ocorreu foi um verdadeiro golpe para eles, para aqueles que queriam que eu continuasse na prisão, para aqueles que constantemente buscam criar discórdia entre os governos de Cuba e dos Estados Unidos, que negociaram pelas costas deles, e isso lhes dói profundamente; por isso aproveitaram esse assunto para fazer piadas.

Mas quem acaba ficando em ridículo ao utilizar isso são justamente eles, porque a maioria das pessoas sabe como os acontecimentos se desenrolaram. Quanto à organização, ela também é alvo de campanhas de zombaria e desinformação.

O que você diria aos tantos amigos de Cuba neste momento?

Eu diria que, em Cuba, levamos muito a sério os perigos destes tempos. Os cubanos nunca deixamos de nos preparar. Até mesmo os inimigos da Revolução, tão servis e submissos, zombam de seu próprio povo quando uma reportagem televisiva mostra como ele se prepara para defender a pátria. O que se pode esperar de pessoas que se autodenominam seguidoras de Martí e afirmam seguir suas ideias, mas atuam contra seu próprio povo em benefício de um império como o dos Estados Unidos?

Nada se pode esperar delas. Aos nossos amigos, diríamos: é hora de apoiar Cuba, é hora de levantar a voz. Os perigos destes tempos não podem ser subestimados. É todo um povo, a segurança de todo um povo — homens, mulheres e crianças — que está em risco. Trata-se de um povo que suportou muitos problemas, muitas dificuldades, e que, em sua maioria, está disposto a defender a Revolução.

Porque os cubanos sabem que temos problemas, sabemos que existem coisas que precisam ser mudadas, mas queremos fazê-lo à nossa maneira, da forma como nós mesmos decidirmos, e não porque alguém de fora venha nos impor um sistema de governo ou determinadas condições. As pessoas percebem que muitos daqueles que, nos Estados Unidos, prometem que, quando chegarem ao poder em Cuba, construirão casas para todos e tornarão Cuba próspera…

Por que não começam construindo casas para os cubanos que vivem debaixo das pontes de Miami? Por que não começam resolvendo os problemas de tantas pessoas que passam por dificuldades ali e que também são cubanas?

Parece-me uma grande hipocrisia prometer ao nosso povo aldeias e castelos quando sabem que são promessas impossíveis de cumprir e que, tão logo alcancem seus objetivos, o que farão será explorar, como estão acostumados a fazer, e submeter o país aos interesses dos Estados Unidos.

Em resumo, gostaria de dizer aos nossos irmãos e irmãs que é hora de levantar a voz por Cuba, que os cubanos somos gratos pela solidariedade com que sempre nos acompanharam e que este é um momento perigoso, mas que também podem contar com a preparação do nosso povo e com a determinação dos cubanos livres para defender nossa Revolução.

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