A guerra no Irã avança com todos os olhares voltados para o estreito de Ormuz, em meio a um deslocamento naval inédito desde a Guerra do Iraque. O bloqueio dessa passagem obrigatória para cerca de 20% do petróleo mundial gerou uma espiral inflacionária nos combustíveis que ameaça se espalhar por toda a economia, inclusive a dos Estados Unidos.
Em 11 de março, o deslocamento de 40% da frota dos EUA não conseguiu impedir que três cargueiros fossem atingidos por projéteis iranianos nas proximidades do estreito de Ormuz. Segundo o Pentágono, 16 embarcações iranianas com capacidade para disseminar minas foram afundadas nas últimas 24 horas.
Embora o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tenha afirmado ainda em 11 de março que “praticamente não há mais nada para atacar” no Irã, o fim das hostilidades e a liberação do estreito de Ormuz não parecem próximos. Sem que ninguém lhe perguntasse, o ex-presidente espanhol José María Aznar resumiu a visão neoconservadora que defendeu há duas décadas: “As operações precisam ser concluídas.”
A batalha do estreito de Ormuz
Em 10 de março, o Irã começou a colocar minas explosivas no estreito de Ormuz, apesar da ameaça de Trump de que atacaria “20 vezes mais forte” caso fosse impedida a passagem de navios por esse canal. Segundo a CNN, até agora foram instaladas apenas algumas dezenas dessas minas, embora o Irã ainda conte com embarcações suficientes para transformar o estreito — já apelidado de “vale da morte” — em uma zona impraticável.
O presidente Donald Trump deixou clara sua impotência em uma publicação no Truth Social em 10 de março, em que pediu colaboração a Teerã: “Se o Irã colocou alguma mina no estreito de Ormuz, e não temos informações de que o tenha feito, queremos que as retirem, IMEDIATAMENTE!”. Segundo o presidente republicano, a retirada de minas por parte do Irã seria interpretada como um “passo na direção correta” rumo a uma negociação — uma possibilidade que Trump passou a considerar após ter exigido, no início da operação militar, uma “rendição incondicional”.
Longe dos desejos de Trump, as condições para uma negociação foram apresentadas na tarde de 11 de março pelo presidente iraniano, Masoud Pezeshkian: “A única forma de pôr fim à guerra iniciada por Israel e Estados Unidos é a aceitação dos direitos do Irã, o pagamento de indenizações e um compromisso internacional firme de não agressão.”
O problema não se limita a assegurar o fornecimento de petróleo bruto aos mercados globais. Também estão em risco as infraestruturas nos países do Golfo, com graves consequências a longo prazo
A resposta do Irã foi ampliar a ameaça a todos os petroleiros dos Estados Unidos, de Israel e de seus aliados na região — isto é, praticamente todos os navios que atravessam a passagem — considerados “alvos legítimos”. A liderança do exército iraniano reiterou que “não deixará passar um único litro de petróleo pelo estreito”. O porta-voz do comando central iraniano, Ebrahim Zolfagar, recomendou “preparar-se para um barril a 200 dólares”.
Para evitar esse cenário ou, ao menos, adiá-lo, a Agência Internacional de Energia anunciou em 11 de março um acordo para inundar o mercado com 400 milhões de barris de petróleo, na maior liberação de reservas estratégicas da história. Cerca de 30 países participam da operação, entre eles a Espanha, que liberará 11,5 milhões de barris.
As reservas liberadas equivalem a quatro dias de consumo global de petróleo. No caso espanhol, o volume comprometido corresponde a 12 dias de consumo dentro do território nacional, cerca de 13% do total de suas reservas. A operação já havia sido anunciada dias antes e provocou uma forte queda no preço do recurso, que recuou do pico de 120 dólares por barril para cerca de 90 dólares.
Os Estados Unidos também aderiram à iniciativa e anunciaram que colocariam no mercado milhões de barris provenientes de suas reservas estratégicas, que atualmente estão pela metade após terem sido utilizadas na crise provocada pela guerra na Ucrânia, sem que a administração Trump as tenha recomposto.
Na noite de 12 de março, novos ataques iranianos contra dois petroleiros atracados no porto iraquiano de Basra e contra tanques de combustível no Bahrein fizeram com que a euforia nos mercados durasse pouco: no mesmo dia, o barril voltou a superar a barreira dos 100 dólares.
Mas o problema não se limita a garantir o fornecimento de petróleo bruto, sobretudo para os mercados europeus e asiáticos. Também estão em risco as infraestruturas de extração e processamento de petróleo nos países do Golfo, com consequências de longo prazo.
Na terça-feira, um ataque com drones iranianos provocou um incêndio na refinaria de Ruwais, nos Emirados Árabes Unidos, uma planta que produz 900 mil barris por dia. Também foi atingida a grande instalação petrolífera de Al Ma’ameer, no Bahrein, o que provocou um incêndio e danos materiais, segundo informou a mídia estatal. Após o ataque, a principal empresa energética do país, a Bapco, declarou força maior em suas operações — isto é, a impossibilidade de cumprir obrigações e contratos por razões alheias à sua vontade.
Em 11 de março, vários drones colidiram com tanques de armazenamento de petróleo no porto de Salalah, no sul de Omã, provocando um incêndio de grandes proporções.
A opção de colocar um líder alinhado aos interesses dos Estados Unidos no governo — como Washington fez na Venezuela ou tenta fazer em Cuba — enfrenta resistência no Irã, tão distante de seu “quintal”.
Segundo a Bloomberg, os principais produtores do Golfo estão reduzindo a produção à medida que os depósitos se enchem e se esgotam os navios vazios disponíveis para carregar petróleo. Como novos petroleiros não conseguem entrar pelo estreito de Ormuz, os depósitos em terra podem começar a transbordar em pouco tempo, alerta a agência. E os poços de petróleo não podem simplesmente ser fechados: a suspensão do bombeamento pode provocar gravíssimos problemas nas infraestruturas e atrasos de meses para recuperar os níveis anteriores de extração.
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A cada dia que passa, aumenta o risco para as infraestruturas petrolíferas do Golfo, assim como a possibilidade de que a crise energética se prolongue mesmo que os ataques cessem. Em 10 de março, o maior exportador de petróleo do mundo, a estatal Saudi Aramco, com sede na Arábia Saudita, alertou para as “consequências catastróficas” da guerra caso os fluxos de petróleo não sejam restabelecidos com urgência.
A “guerra eterna” que ninguém queria
O nervosismo no governo de Donald Trump ficou evidente na avalanche de entrevistas e declarações de diversos integrantes do Executivo, com versões radicalmente distintas e contraditórias sobre o calendário para o fim da guerra. Um tuíte do secretário de Energia e ex-empresário do setor petrolífero, Chris Wright, chegou a afirmar que os Estados Unidos haviam conseguido romper o bloqueio de Ormuz — informação desmentida pouco depois pela Casa Branca. Embora a publicação tenha sido apagada em poucos minutos, houve tempo suficiente para movimentos especulativos que renderam milhões de euros em ganhos.
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A opção de instalar no governo iraniano um líder alinhado aos interesses dos Estados Unidos — como Washington fez na Venezuela ou tenta fazer em Cuba — enfrenta resistência no Irã, tão distante de seu “quintal”. Ainda que pouco coerentes, as declarações de Trump revelam uma crescente impaciência para encerrar a guerra, desde que possa apresentar algum resultado do qual se orgulhar. Especialmente num momento em que já morreram sete soldados americanos, mais de 150 ficaram feridos e as consequências econômicas começam a ser sentidas nas ruas dos Estados Unidos.
Em média, o preço dos combustíveis aumentou 17% nos postos de gasolina estadunidenses — cerca de 60 centavos de dólar a mais por galão (3,78 litros). Em alguns estados, como Califórnia e Flórida, o aumento foi ainda maior, chegando perto de 80 centavos, segundo o contador disponibilizado pela CNN em sua página inicial. Para Trump, porém, o aumento no valor da gasolina “é um preço muito pequeno a pagar”. Em publicação em sua plataforma, Truth Social, afirmou que “apenas os tolos pensariam diferente.”
Os próximos passos de uma guerra que começou por um “pressentimento” voltam a depender do humor do presidente, como reconheceu o secretário de Defesa, Pete Hegseth. Segundo ele, cabe a Trump dizer “se este é o começo, a metade ou o fim” do conflito.
A falta de estratégia parece cada vez mais evidente. Segundo declarou o senador democrata pelo Arizona, Mark Kelly, o governo “não tinha um plano, não tem um calendário e, por isso, não tem uma estratégia de saída”.
59% dos votantes consideram que Trump deveria ter contado com a aprovação do Congresso, enquanto 62% consideram que a administração Trump não deu uma explicação clara
Após basear boa parte de sua campanha eleitoral na oposição às “guerras eternas” conduzidas por governos democratas — em contraste com a promessa de priorizar os problemas internos —, a aliança com Israel para tentar dobrar o Irã pode piorar os índices de popularidade do governo e suas expectativas nas eleições de meio de mandato. Segundo uma pesquisa publicada pela CNN em 10 de março, a guerra contra o Irã, com 41% de apoio, é a intervenção armada menos popular desde a Segunda Guerra Mundial — levantamento que não inclui a Guerra do Vietnã na comparação.
Em outra pesquisa, realizada recentemente pela Universidade Quinnipiac, 53% dos eleitores registrados se opõem à ação militar dos Estados Unidos contra o Irã. Caso a operação envolva o envio de tropas — algo que Trump não descartou —, três em cada quatro americanos se declarariam contrários à guerra.
O estudo também revela que 59% dos eleitores consideram que Trump deveria ter buscado a aprovação do Congresso para lançar os ataques, enquanto 62% afirmam que a administração Trump não forneceu uma explicação clara sobre as razões da ação militar contra o Irã. A ampla maioria, segundo a pesquisa, acredita que a guerra no Oriente Médio “vai durar meses”.

