A Bolívia atravessa uma nova onda de mobilizações sociais que expõe o aprofundamento da crise econômica e a rápida deterioração da legitimidade do presidente Rodrigo Paz. Menos de um ano após assumir o governo prometendo estabilidade, diálogo e recuperação econômica, Paz enfrenta marchas multitudinárias, bloqueios de estradas, paralisações sindicais e confrontos violentos em La Paz. Mineiros, camponeses, sindicatos, organizações indígenas e trabalhadores urbanos voltaram às ruas contra medidas consideradas neoliberais e favoráveis ao capital estrangeiro.
Enquanto Rodrigo Paz prometia estabilidade e diálogo durante a campanha, a Bolívia explode em protestos contra o aumento do custo de vida, a retirada de subsídios e o favorecimento ao capital estrangeiro. As ruas agora cobram o que as urnas ouviram.
Mineiros, indígenas, camponeses e trabalhadores voltaram a bloquear estradas e ocupar La Paz diante de medidas que muitos classificam como traição eleitoral. A crise boliviana revela o choque entre promessas populares e políticas de austeridade.
Crise na Bolívia
A vitória eleitoral de Paz, em 2025, ocorreu em meio ao desgaste do ciclo político do Movimento ao Socialismo (MAS) e à crise econômica herdada do governo de Luis Arce. A escassez de dólares, a queda das reservas internacionais, a inflação crescente e a crise dos combustíveis abriram espaço para um discurso de “modernização” econômica e eficiência administrativa. Paz apresentou-se como um candidato moderado, prometendo reorganizar o Estado sem destruir direitos sociais históricos conquistados nas últimas décadas. Porém, suas primeiras medidas caminharam em direção oposta ao discurso de campanha.
O governo passou a justificar o ajuste afirmando que recebeu “um país quebrado”. Rodrigo Paz chegou a utilizar dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) para sustentar o diagnóstico de crise profunda, citando projeções de recessão, inflação acima de 20% e colapso das contas públicas. Ao mesmo tempo, defendeu mudanças estruturais nos setores de mineração e hidrocarbonetos, aproximando ainda mais seu governo das exigências do mercado internacional e de organismos financeiros multilaterais.
O chamado Decreto Supremo 5503 tornou-se símbolo dessa ruptura. O pacote eliminou subsídios aos combustíveis, acelerou mecanismos de aprovação para investimentos estrangeiros em mineração, energia e infraestrutura e flexibilizou controles ambientais e comunitários. O impacto foi imediato: aumentos bruscos no preço da gasolina e do diesel elevaram os custos do transporte, dos alimentos e dos produtos básicos. Para amplos setores populares, o governo passou a transferir o peso da crise aos trabalhadores enquanto abria vantagens fiscais ao grande capital.

As mobilizações não surgiram apenas como reação econômica. Elas expressam também uma crítica profunda ao modelo político adotado pelo novo governo. Organizações indígenas denunciam que o governo facilita projetos privados em territórios comunitários sem consulta prévia, rompendo princípios históricos do Estado plurinacional boliviano. Sindicatos acusam Paz de desmontar mecanismos de proteção social construídos ao longo de duas décadas. Mineiros cooperativistas e trabalhadores rurais afirmam que o governo negocia diretamente com grandes investidores enquanto ignora demandas populares urgentes relacionadas a combustível, inflação e abastecimento.
Um dos focos centrais da revolta foi a chamada Lei 1720, considerada por movimentos camponeses e indígenas uma ameaça direta à propriedade comunitária da terra. A legislação permitia converter pequenas propriedades rurais em ativos financeiros utilizáveis como garantia bancária, abrindo espaço para endividamento, perda de terras e expansão do agronegócio. Marchas de quase mil quilômetros partiram da Amazônia boliviana rumo a La Paz, enquanto bloqueios cercavam a capital administrativa do país. Diante da pressão social, o Senado foi obrigado a revogar a lei para tentar conter a crise.
A crise deixou claro que os protestos vão muito além de um único setor. Professores urbanos iniciaram marchas nacionais exigindo recomposição salarial. A Central Obrera Boliviana passou a pressionar por reajustes de 20% diante do aumento da cesta básica. Transportistas, mototaxistas e caminhoneiros denunciaram escassez e má qualidade do combustível. Hospitais públicos enfrentam falta de medicamentos e insumos básicos, enquanto cooperativas mineiras denunciam paralisação de atividades por falta de diesel. O país vive um quadro de desorganização econômica que atinge praticamente todos os setores populares.
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A situação de Evo Morales adiciona outra camada explosiva à crise boliviana. O ex-presidente (2006-2019) enfrenta atualmente ordens de prisão e um processo judicial por suposto tráfico de menor, acusações que ele denuncia como perseguição política e “lawfare” promovido pelo governo e por setores do Judiciário. Morales permanece protegido por seus apoiadores na região do Chapare, principal bastião cocalero do país, enquanto milhares de simpatizantes denunciam uma tentativa de eliminar sua influência política às vésperas de um novo ciclo de reorganização da esquerda boliviana.
Mesmo afastado institucionalmente e impedido de disputar eleições após decisões do Tribunal Constitucional, Evo continua sendo uma figura central nas mobilizações. O governo de Rodrigo Paz e setores conservadores o acusam de incentivar os protestos e alimentar a instabilidade nacional, enquanto movimentos populares enxergam nas ações judiciais uma tentativa de neutralizar um dos principais líderes indígenas e populares da América Latina.
A resposta do governo agravou ainda mais a tensão. Setores oficiais passaram a responsabilizar opositores e aliados de Evo Morales pelos protestos. Embora exista uma disputa política real dentro do campo popular boliviano, reduzir as manifestações a uma suposta manipulação política ignora o fato central: milhares de pessoas foram às ruas porque o custo de vida explodiu e o país mergulhou em uma deterioração acelerada das condições materiais de existência.
O governo recuou parcialmente diante da pressão social e anulou parte do pacote econômico após dias de bloqueios e negociações com sindicatos. Ainda assim, o conflito permanece aberto. As ruas demonstraram que a estabilidade prometida por Rodrigo Paz depende, na prática, de um ajuste econômico que sacrifica setores populares e aprofunda desigualdades. O cenário atual revela uma contradição típica de governos liberais em tempos de crise: vencer eleições prometendo equilíbrio e governar impondo austeridade.
O caso boliviano também possui significado continental. A crise mostra os limites de projetos centristas que se apresentam como alternativa tanto à esquerda tradicional quanto à extrema-direita, mas acabam subordinados às exigências do mercado financeiro e dos investidores internacionais. A narrativa da “modernização” econômica reaparece acompanhada da redução do papel do Estado, da flexibilização ambiental e da abertura acelerada ao capital transnacional. As mobilizações bolivianas, portanto, não são apenas protestos conjunturais: representam uma disputa sobre o futuro do modelo econômico, da soberania nacional e do caráter popular do Estado plurinacional.

