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Chile: 2 meses de Kast no poder aprofundam crise social e econômica

Em apenas dois meses, o governo de Kast acumula inflação, cortes sociais, uma reforma tributária feita sob medida para o grande empresariado e um Ministério da Segurança sem plano claro. A promessa de ordem econômica já começa a cobrar seu preço da população

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Gabriel Boric Font, recebe o presidente eleito, José Antonio Kast, no Palácio La Moneda – wikimedia

Dois meses de “Kastigo” no Chile e estamos pior do que pensávamos. Em março, a inflação foi de 1% e, em abril, de 1,3%. Em apenas dois meses, José Antonio Kast acumulou mais do que Gabriel Boric em dez meses. Supunha-se que a economia era um ponto forte, mas demonstrou ser sua principal debilidade. O impacto do preço do petróleo atingiu diretamente o bolso das famílias de nosso país, gerando um aumento de preços que começou pelo transporte, mas já virou um efeito dominó.

A reforma tributária apresentada ao Congresso por José Antonio Kast foi elaborada sob medida para o grande empresariado: redução de impostos para as grandes empresas; permissão para que grandes fortunas planejem suas heranças em vida mediante a redução do imposto sobre doações; concessão de invariabilidade tributária por 30 anos às grandes empresas; estabelecimento de um subsídio ao emprego por meio das empresas, caríssimo; e eliminação das franquias do Serviço Nacional de Capacitação e Emprego (Sence). E, no Ministério de Obras Públicas, a prioridade é permitir que empresas de familiares de pessoas que trabalham nesse ministério possam obter contratos e concessões. Nenhuma medida para a classe média ou para os trabalhadores.

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Evelyn Matthei, Economista e ex-ministra do Trabalho e Previdência Social do Chile – wikipedia

A reforma tributária é tão ruim que até o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Conselho Fiscal Autônomo e a Corte Suprema disseram que ela apresenta graves problemas. Mais dura foi Evelyn Matthei, que qualificou a reforma como “inútil, hiper super ruim e ineficiente”. Mais claro, impossível.

Os anúncios de investimentos tampouco chegam. O principal investimento destravado até o momento foi o do Grupo Errázuriz — para o qual trabalhava o ministro da Fazenda Quiroz. Esse projeto no Salar de Atacama foi rejeitado em quatro governos — incluindo os de Sebastián Piñera — por não cumprir condições ambientais mínimas.

E, na segurança, não fez melhor. A ministra Steinert está sendo questionada por extrapolação de funções pela Controladoria e pela Corte de Apelações de Valdivia. Já não se perguntam como chegou a ser ministra, mas como chegou a ser promotora. Enquanto desmonta o ministério, não conta com nenhum plano de segurança e os homicídios continuam aumentando.

Após dois meses de governo, já não se fala do fosso, que acabou sendo uma péssima cortina de fumaça. A migração irregular não foi controlada e, em tom de piada, diz-se que já saíram mais secretários regionais ministeriais do que migrantes irregulares.

Na área da moradia, foram reduzidos US$ 421 bilhões do orçamento, o que significará ampliar o tempo de espera pela casa própria para mais de 8 mil famílias em todo o país. O corte fiscal no orçamento da saúde aumentará as filas de espera e dificultará o atendimento nos centros públicos de saúde. Na educação, um ofício do ministro da Fazenda informava que o “Programa de Alimentação Escolar (PAE)” deveria ser descontinuado; no entanto, depois disseram que descontinuar significava “reformular”. O que é consistente com a posição do presidente, que despreza a ciência e a educação. Tanto dinheiro para ser tão ignorante.

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Todos os ministérios estão reduzindo gastos, muitas vezes às custas dos trabalhadores. As taxas de desemprego continuam aumentando, assim como as tarifas do transporte, embora a frequência dos ônibus tenha diminuído.

E agora entramos na trama da Hungria: a campanha do presidente Kast foi financiada com recursos provenientes do governo de Viktor Orbán? A pergunta é relevante porque, enquanto se acumulam as dúvidas, faltam explicações. Já quase não ouvimos a porta-voz do governo e o Palácio de La Moneda parece mais ocupado em apagar incêndios do que em dar respostas.

E sim, senhoras e senhores, ainda que pareça incrível: passaram-se apenas dois meses de Kastigo.

As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

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