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Cannabrava | Evangélicos e poder: a disputa pela alma política do Brasil

O crescimento das igrejas evangélicas no Brasil deixou de ser apenas um fenômeno religioso para se tornar um fator central na disputa política. Em ano eleitoral, essa presença ganha ainda mais peso e levanta uma preocupação evidente: estamos diante de um projeto organizado de poder.

Hoje, os evangélicos já se aproximam de algo em torno de um terço da população brasileira, com projeções indicando avanço contínuo. Esse crescimento se expressa em números robustos. A Assembleia de Deus reúne cerca de 12 milhões de fiéis; a Congregação Cristã no Brasil, mais de 2 milhões; a Igreja Universal do Reino de Deus, 1,9 milhão; a Quadrangular, 1,8 milhão; Deus é Amor, 845 mil; além de diversas outras denominações que, somadas, alcançam milhões de brasileiros. Entre as igrejas tradicionais, destacam-se os batistas, com cerca de 3,7 milhões, e os adventistas do sétimo dia, com 1,5 milhão, além de luteranos, presbiterianos e metodistas.

Esse contingente não está disperso. Ele vem sendo sistematicamente trabalhado politicamente. O Partido Liberal (PL), por exemplo, mapeia essas igrejas com o objetivo de transformá-las em base eleitoral organizada. Lideranças religiosas assumem papel direto na política, orientando votos e mobilizando fiéis. Um caso emblemático é o da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, do pastor Silas Malafaia, que já declarou apoio ao senador Flávio Bolsonaro, projetado como candidato à Presidência da República, levando essa influência diretamente para dentro da disputa eleitoral.

Mas esse movimento não pode ser analisado apenas no plano doméstico. Em A Nova Roma, mostro como os Estados Unidos se consolidaram como uma potência imperial também através da instrumentalização da fé. Grande parte dessas denominações tem origem nos Estados Unidos e carrega consigo uma visão teológica que não é neutra: trata-se da teologia da prosperidade e, em muitos casos, da chamada teologia do domínio, que desloca o foco da justiça social para a legitimação do poder e da riqueza.

Esse avanço contrasta com o papel histórico da teologia da libertação, que aproximava a Igreja Católica das camadas populares e colocava a fé a serviço da transformação social. O que vemos agora é uma inversão: a religião sendo utilizada como instrumento de conformação e controle.

Há ainda um componente geopolítico que não pode ser ignorado. Em estudo recente, o jornalista Leonardo Wexel Severo demonstra como determinadas seitas religiosas atuam articuladas a interesses externos, funcionando como extensão de estratégias políticas, inclusive vinculadas ao Estado de Israel. Em países como a Guatemala, esse processo se deu sob um clima de terror e repressão, frequentemente silenciado pela mídia hegemônica.

Cannabrava | A captura do orçamento e o colapso da representação democrática

No Brasil, sinais desse alinhamento aparecem no uso recorrente de símbolos de Israel em cultos e atividades religiosas, apresentados como referência espiritual incontestável. No entanto, esse discurso pode operar como instrumento de despolitização e desvio de foco, enquanto se constrói, na prática, um projeto de ocupação de espaços de poder.

A situação é crítica. Mais do que nunca, o desafio é levar à população a verdade dos fatos, romper o véu da manipulação e do uso político da fé. Em ano eleitoral, cabe exigir do candidato das forças democráticas não apenas resistência, mas um projeto claro de salvação nacional — capaz de recuperar a soberania, reafirmar o caráter laico do Estado e devolver à política seu compromisso com o interesse público.

As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

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