A coluna CAFÉ COM VODKA é produzida pelo Centro de Integração e Cooperação entre Rússia e América Latina no Brasil (CICRAL Brasil) em parceria com a Diálogos do Sul Global.
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Em 2024, um deslocamento alterou o mapa do poder mundial. Com a ampliação para BRICS+, o bloco passou a reunir uma fatia crescente da riqueza global, da população e dos recursos estratégicos do planeta, aproximando-se e, em alguns indicadores, já superando o G7.
Brasil, China, Índia, Rússia, África do Sul e seus novos parceiros deixaram de ser apenas um conjunto de “economias emergentes” para funcionar como um polo estruturante da ordem internacional. E, no entanto, esse reposicionamento raramente se reflete em notícias nos grandes meios de comunicação ocidentais. A pergunta que se impõe é incômoda: por quê?
A insistência em destacar o G7 a partir de métricas que o favorecem, como o PIB nominal, que ignora diferenças de custo de vida, enquanto se relativizam indicadores que revelam a ascensão das economias do Sul Global, não é neutra. Reafirma a ideia de que o “centro” continua onde sempre esteve e que o resto do mundo é, no máximo, barulho.
Há mais de uma década, a soma das economias do BRICS rivaliza com, e, em paridade de poder de compra supera, a dos países mais ricos, mas esse dado costuma aparecer diluído em relatórios técnicos, não no noticiário de grande circulação. A disputa, portanto, não é sobre quais números usar, mas sobre qual régua ganha autoridade para dizer quem conta como potência e quem permanece na condição de eterno emergente.
A passagem de BRICS a BRICS+, com a entrada do Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Indonésia, aprofunda essa fricção entre realidade material e enquadramento midiático. O bloco passou a articular cadeias energéticas, alimentares, industriais e logísticas centrais para o funcionamento da economia global, concentrando parcela expressiva da produção de petróleo, gás, minerais e bens manufaturados.
Não se trata mais de um “clube político” de contestação retórica, mas de um espaço onde se cruzam rotas comerciais, reservas estratégicas e grandes mercados consumidores. No entanto, grande parte da cobertura ocidental prefere enquadrar essa expansão como sinal de “fragmentação”, “falta de coesão” ou “retórica antiocidental”.
Isso fica evidente na forma como grandes veículos trataram as últimas cúpulas do BRICS. Reportagens ressaltam, quase sempre, divergências internas, diferenças de regime político ou a suposta incapacidade do grupo de “ameaçar” a ordem liderada pelo dólar, recorrendo a adjetivos como “ineficaz” ou “inconsistente”.
Em segundo plano ficam os fatos: a consolidação da ampliação, a aprovação de novos mecanismos financeiros, a discussão de arranjos alternativos de pagamento e a adesão de economias estratégicas como a Indonésia, que ganham peso simultaneamente no G20 e no Sul Global.
O que se disputa não é apenas o balanço de um fórum de cooperação, mas a preservação de uma hierarquia simbólica: se o BRICS+ for reconhecido como polo efetivo de poder econômico e político, o mapa mental que separa “centro desenvolvido” e “periferia emergente” começa a rachar.
O problema, contudo, não é exclusivo da mídia ocidental. No ecossistema informacional latino-americano, florescem narrativas que caminham na direção oposta, e que cometem o mesmo erro de sinal. Em português e espanhol, circulam leituras triunfalistas sobre uma moeda comum iminente e uma desdolarização acelerada, frequentemente impulsionadas por veículos estatais ou paraestatais que enxergam no BRICS a plataforma privilegiada de contestação à hegemonia ocidental.
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Essas narrativas “contra-hegemônicas” acabam espelhando aquilo que criticam: substituem o apagamento do bloco por uma mitologia que o transforma em protagonista infalível de uma mudança total de poder, como se bastasse assinar comunicados conjuntos para que as assimetrias financeiras, tecnológicas e militares desaparecessem. Nos dois extremos, o espaço para uma análise que enxergue avanços concretos e limites estruturais é comprimido.
Essa assimetria discursiva se manifesta com ainda mais força na cobertura de temas sensíveis, como a guerra na Ucrânia ou os conflitos no Oriente Médio. Estudos recentes sobre o enquadramento da guerra pela mídia de países do BRICS mostram que emissoras nacionais tendem a reproduzir a linha de seus governos, consolidando leituras alinhadas às prioridades de política externa de cada capital.
No lado ocidental, veículos que se pretendem “globais” descrevem o BRICS ora como ameaça difusa à “ordem liberal”, ora como agrupamento irrelevante, raramente como fórum legítimo de demandas históricas de reforma da governança global. O cidadão-espectador é exposto a versões concorrentes de um mesmo conflito, mas quase nunca é convidado a perceber que suas lentes de interpretação são moldadas por disputas geopolíticas que passam justamente pela definição de quem tem o direito de nomear o mundo.
A questão mais profunda não é uma obsessão por métricas, mas a pergunta sobre como medimos o poder e quem define qual medida vale. A crítica de que “não se paga dívida com indicadores alternativos” é correta no plano estrito das finanças, mas torna-se ideológica quando serve para desqualificar qualquer esforço de tornar visível o peso de economias populosas e produtivas do Sul Global.
Ignorar estrutura produtiva, mercado interno, demografia ou capacidade energética é condenar boa parte do mundo a permanecer estatisticamente menor do que é. Ao mesmo tempo, reconhecer o avanço do BRICS+ não significa fechar os olhos para suas contradições, desigualdades sociais profundas, dependência de commodities, crises ambientais e disparidades internas de poder, que dificilmente cabem em narrativas de celebração acrítica.
Para o público latino-americano, a questão talvez não seja “de que lado estamos?”, mas “como nos reposicionamos num tabuleiro em mutação?”. O fato de Brasil e outros países da região participarem do BRICS enquanto mantêm laços históricos com o G7 expõe uma condição estrutural de encruzilhada que marca a história do continente.
Se quem controla as narrativas controla o poder, a tarefa passa por disputar o sentido do BRICS+ tanto nos grandes meios que tendem a subestimá-lo quanto nos circuitos alternativos que o transformam em mito redentor. Escovar a história a contrapelo significa olhar para indicadores econômicos, fluxos comerciais, arranjos financeiros e escolhas editoriais com desconfiança crítica, perguntando sempre quem escolheu a régua, de onde se fala e o que fica fora do enquadramento.
Só assim a expansão do BRICS deixa de ser apenas mais um capítulo da guerra de narrativas entre potências e passa a ser, para nós, uma oportunidade concreta de repensar soberania, desenvolvimento e inserção internacional a partir do Sul Global.
