“a-vida-muda,-mas-seguimos-em-frente”:-como-cubanos-resistem-as-sancoes-dos-eua-dialogos-do-sul-global

“A vida muda, mas seguimos em frente”: como cubanos resistem às sanções dos EUA Diálogos do Sul Global

Em meio a apagões prolongados, escassez de gás e dificuldades no transporte e na alimentação, famílias cubanas adaptam a rotina com velas, carvão, painéis solares e lâmpadas recarregáveis para seguir vivendo sob as sanções dos EUA

Havana, capital de Cuba, experimenta há vários meses uma realidade que era mais comum nas demais províncias: apagões de quase 30 horas, eletricidade por apenas uma ou duas horas por dia e dificuldade de acesso a outros serviços básicos, como consequência das medidas de Washington contra a nação caribenha.

A situação, cada vez mais complexa e com uma incidência preocupante em setores considerados pilares do programa social da ilha, como educação e saúde, repercute em todas as esferas e afeta o cotidiano das famílias, além da incerteza gerada pelas tensões provocadas por Washington.

Além disso, diante da falta de eletricidade ou de gás para cozinhar, os cubanos recorreram a métodos tradicionais, entre eles o uso de carvão e lenha, recursos já utilizados em outros momentos da história recente, como no chamado período especial, crise econômica iniciada na década de 1990.

Nesse sentido, são cada vez mais numerosos os triciclos elétricos com painéis solares que percorrem as ruas da cidade, uma das soluções mais engenhosas encontradas para o transporte.

Em algumas casas, optou-se pela compra de estações de carga, painéis solares, inversores, baterias e ventiladores recarregáveis para amenizar o impacto das longas e intermináveis horas sem energia elétrica. Algumas dessas iniciativas também foram adotadas em instituições estatais, como ambulatórios, hospitais, escolas e empresas.

A jornada cotidiana

Para o professor universitário e doutor em Ciências Históricas Fabio Fernández, um dos aspectos mais visíveis das dificuldades enfrentadas por quem vive em Havana é o agravamento dos apagões, já que “sempre superam 15 horas e, com muita facilidade, ultrapassam as 24, cifras absolutamente impensáveis na capital há alguns meses”.

Outro problema está associado às comunicações, já que a falta de eletricidade “afeta os centros de retransmissão do sinal e, portanto, a telefonia celular e a cobertura de internet, aspectos que vêm se deteriorando de maneira notável”, afirmou à Sputnik.

No entanto, em relação a janeiro e fevereiro, quando foi anunciado o recrudescimento das sanções de Washington, “nota-se estabilidade no que se refere ao transporte privado”, ainda que com tarifas ajustadas ao aumento do preço dos combustíveis e do custo de vida em geral, disse o especialista.

“Os cubanos continuam vivendo e tentando seguir em frente em todos os aspectos da vida. As mães cubanas buscam fazer com que seus filhos tenham um bom desempenho nas tarefas escolares, e as famílias que precisam enfrentar tratamentos médicos fazem o possível para que isso aconteça da melhor forma possível em um contexto de dificuldades e escassez”, observou.

Apagões programados, resistência criativa: a vida sob cerco energético em Cuba

Nesse sentido, o professor afirmou que “as pessoas se adaptaram e encontraram mecanismos de subsistência, como cozinhar (…). O povo cubano é resiliente porque tem capacidade para isso e, além disso, não tem outra alternativa”.

Em conversa com este veículo, o economista Omar Everleny Pérez, assessor acadêmico do Centro Cristão de Reflexão e Diálogo e ex-professor da Universidade de Havana, assegurou que a saída ou redução das operações das cadeias hoteleiras estrangeiras não representou mudanças significativas no turismo, um dos principais setores da economia da ilha.

Para o especialista, a situação na maior das Antilhas é muito difícil. “As sanções afetam as pessoas mais carentes, que vivem, no bairro em que moro, em uma situação de sobrevivência (…)”, comentou, acrescentando que, possivelmente, isso se reflita no Produto Interno Bruto (PIB) ao final do ano.

Adaptar-se aos novos cenários

Nenhuma descrição de foto disponível.
Naima Trujillo – Facebook

O agravamento da crise energética determinou a adoção de estratégias como a antecipação do encerramento do ano letivo, processo previsto para ocorrer gradualmente entre 15 e 30 de junho, segundo explicou recentemente a ministra da Educação de Cuba, Naima Trujillo.

A jovem Yanae Naredo, licenciada em Biblioteconomia e Ciências da Informação e mãe de dois meninos de 9 anos, declarou à Sputnik que, embora a medida seja necessária, ela obriga os estudantes a concluir abruptamente o ano letivo. Além disso, eles realizaram suas tarefas em um contexto de “muitas horas sem energia, o que impacta negativamente o rendimento escolar das crianças.

Seus horários de descanso transcorreram em condições ruins e a maioria teve de fazer as tarefas e estudar à luz de uma vela ou de uma lâmpada recarregável”.

Como mãe, acrescentou, aumenta sua preocupação em relação à segurança alimentar dos filhos, em casa e na escola, porque “a comida não recebe refrigeração suficiente durante as escassas horas de fornecimento de energia elétrica (…)”.

No entanto, para a mãe cubana Vilma, a medida foi bem recebida: “o garoto teve boas notas em suas provas finais e trabalhos práticos”. Sobre sua rotina, afirmou a este veículo que mantém uma vida normal, “aguentando os apagões, trabalhando e lutando. A vida muda você, mas a gente vai em frente”.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *