A aposta do presidente Nayib Bukele em transformar El Salvador em um centro mundial das criptomoedas, especificamente do bitcoin, não produziu a adoção em massa que ele esperava. Os salvadorenhos não o adotaram como seu, como ele sonhava. E ele teve que recuar, a contragosto.
No início, de fato, criou-se certa expectativa no país em torno do uso de bitcoins como moeda de curso legal, mais por curiosidade do que por qualquer outra coisa, quando a Lei Bitcoin foi aprovada em junho de 2021 e entrou em vigor em setembro daquele ano.

E a criptomoeda ganhou um pouco mais de força em lugares como El Zonte, uma comunidade costeira no sul de San Salvador, onde já vinha sendo usada anteriormente, como um pequeno laboratório de criptomoedas, depois que um personagem estranho e desconhecido investiu uma quantia significativa de dinheiro para que as pessoas usassem bitcoins.
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“Sim, aceitamos bitcoin se os clientes quiserem pagar dessa forma, não há problema com isso”, disse María del Carmen Aguirre, de 52 anos, quando a IPS visitou sua pequena pizzaria, em El Zonte, em setembro de 2022. Mais de cinco anos depois da entrada em vigor da Lei Bitcoin, o uso da criptomoeda em pagamentos e remessas continua sendo marginal.
O próprio Fundo Monetário Internacional (FMI) recomendou, dois meses depois da entrada em vigor da lei, que o bitcoin não fosse utilizado como moeda de curso legal e que o alcance da norma fosse reduzido, no âmbito de suas recomendações sobre as finanças públicas desse pequeno país centro-americano, de cerca de seis milhões de habitantes.
As restrições ao projeto bitcoin fariam parte das negociações para um acordo financeiro que prevê até 1,4 bilhão de dólares para El Salvador. O recuo da aposta estatal no bitcoin ocorre em um contexto de fortes necessidades de financiamento público.
O programa acordado com o FMI prevê desembolsos condicionados ao cumprimento das metas acordadas com o governo salvadorenho e busca fortalecer as finanças públicas e as reservas do país. Até agora, o FMI desembolsou cerca de 230 milhões de dólares. Bukele, de 45 anos, chegou ao poder em junho de 2019 e, desde então, governa com um marcado estilo autoritário.
Bukele transformou o bitcoin em moeda de curso legal
O governo apresentou a medida como uma aposta para ampliar a inclusão financeira, facilitar os pagamentos e as remessas, atrair investimentos e gerar dinamismo econômico.
Para isso, criou a Chivo Wallet, uma carteira digital estatal que permitia aos usuários realizar pagamentos e transferências em bitcoin e dólares pelo celular. Chivo é um termo local usado para se referir a algo bonito ou agradável. O ponto de partida era um país onde, segundo o FMI, apenas 30% dos adultos tinham uma conta bancária.
A ideia era que o bitcoin e a Chivo Wallet permitissem incorporar ao sistema financeiro pessoas que estavam fora do sistema bancário tradicional, incluindo trabalhadores e comerciantes da economia informal. O governo sustentava que a nova infraestrutura de pagamentos tornaria as transações mais rápidas e facilitaria as remessas, ao reduzir seus custos de intermediação.
O FMI calculava, então, que a economia potencial para os cerca de três milhões de migrantes salvadorenhos nos Estados Unidos poderia chegar a aproximadamente 54 milhões de dólares anuais, caso parte das remessas passasse dos canais tradicionais para a Chivo e o bitcoin.
A aposta também tinha como objetivo atrair capital: as autoridades esperavam transformar El Salvador em um destino para criptoempresários, investimentos e turismo ligado às criptomoedas.
Por que não correspondeu às expectativas?
A adoção do bitcoin ficou muito abaixo das expectativas oficiais.
Uma pesquisa citada pelo FMI constatou que 60% das pessoas que se cadastraram na Chivo não realizaram nenhuma outra transação depois de gastar o equivalente a 30 dólares concedidos pelo governo à população, para que fossem utilizados como bitcoins no pagamento de bens e serviços.
A maioria das pessoas os converteu em dólares por meio da própria carteira e os gastou com entusiasmo, sem voltar a utilizá-la.
Seis meses após o lançamento, apenas cerca de 40% das contas continuavam ativas, contra 88% dos clientes de instituições financeiras tradicionais.
O uso do bitcoin como meio de pagamento cotidiano também foi baixo. Nas pesquisas realizadas durante o período de maior adoção, apenas 20% das empresas aceitavam bitcoin e somente 4,9% das vendas eram pagas com a criptomoeda.
Hoje em dia, por pura obstinação, ainda são cobradas em bitcoin as consultas e os medicamentos dos usuários do hospital veterinário Chivo Pets, uma obra construída por iniciativa de Bukele, inaugurada em fevereiro de 2022. É possível pagar por esses serviços em dólares, mas o custo aumenta substancialmente.
Nas remessas dos migrantes, um dos principais argumentos do governo, o FMI constatou que apenas 1,2% era transferido por meio de uma carteira de criptomoedas. A experiência também não produziu o salto esperado no uso da Chivo como ferramenta financeira. Em outra medição citada pelo FMI, 97,75% das empresas não haviam realizado sequer uma venda em bitcoin em outubro de 2022.
O que aconteceu com o projeto de minerar bitcoins utilizando energia geotérmica?
A aposta na mineração de bitcoins com energia geotérmica chegou, de fato, a ser colocada em prática, mas em uma escala muito pequena. Em 2022, o FMI informou que a estatal Comissão Executiva Hidrelétrica do Rio Lempa tinha um projeto-piloto de mineração com uma capacidade inicial de um megawatt, que estava previsto para ser ampliado para 15.
A mineração de bitcoins consiste em utilizar computadores de grande capacidade, que consomem muita eletricidade, para resolver cálculos complexos. Quando um desses computadores consegue resolver um deles, recebe como recompensa novos bitcoins, como se os tivesse extraído da terra; daí o termo “mineração”.
Em maio de 2024, o governo afirmou que El Salvador havia minerado 473,5 bitcoins desde setembro de 2021, utilizando 1,5 megawatts de energia geotérmica e cerca de 300 equipamentos.
Mas uma investigação jornalística local questionou essa atribuição, ao apontar que os dados utilizados pelo Escritório Nacional de Bitcoin correspondiam à produção global de mining pools, as redes de “mineradores” localizados em vários países que unem seus equipamentos e capacidade computacional para minerar bitcoins conjuntamente e dividir as recompensas obtidas.
Por isso, argumentou-se, esses dados não demonstravam que esses bitcoins tivessem sido minerados fisicamente em El Salvador.
O FMI confirma a existência de um pequeno programa estatal, mas também não respalda esse número.
A mineração também ficou vinculada a uma aposta privada em energias renováveis. A Volcano Energy projeta gerar eletricidade solar e eólica para abastecer suas operações de mineração de bitcoins: a primeira fase contempla 241 megawatts de capacidade, seguida de uma segunda etapa geotérmica.
A Volcano Energy é uma empresa privada com um vínculo formal com o Estado salvadorenho e, em junho de 2023, estabeleceu que o governo teria uma participação preferencial equivalente a 23% das receitas. Mas o projeto não cumpriu o cronograma anunciado naquela ocasião.
A instalação de infraestrutura na fazenda Santa Adelaida, no município de Izalco, gerou denúncias de moradores por derrubada de árvores e possíveis efeitos sobre a água e os ecossistemas.
“As pessoas contratadas pela empresa para derrubar as árvores chegaram dizendo que derrubariam algumas árvores para plantar café e árvores frutíferas, mas isso era mentira, porque depois revelaram que era para instalar painéis solares”, afirmou Damián Córdoba quando a IPS visitou a fazenda, em novembro de 2024.
Córdoba é natural do cantão Chorro Arriba, no oeste de El Salvador.
Em agosto de 2026, organizações ambientais voltaram a denunciar possíveis impactos provocados pelo projeto fotovoltaico.
O que resta hoje da aposta no bitcoin?
A aposta de Bukele deixou de ter o alcance com que foi lançada em 2021. Em janeiro de 2025, uma reforma da Lei Bitcoin eliminou a obrigação de aceitar a criptomoeda e retirou da lei suas principais características como moeda de curso legal.
Desde então, sua aceitação pelas empresas é voluntária. O governo também se comprometeu com o FMI a limitar sua participação em atividades relacionadas ao bitcoin e a não realizar novas acumulações voluntárias da criptomoeda.
Isso não significa que o Estado tenha abandonado seus ativos. Em fevereiro de 2025, o FMI registrou 6.081 bitcoins sob custódia do governo, armazenados em uma carteira digital fora da internet e avaliados, naquele momento, em cerca de 600 milhões de dólares.
Sob o acordo com o FMI, além disso, as autoridades salvadorenhas se comprometeram a não acumular novos bitcoins por meio de compras ou mineração com recursos públicos.
Em setembro de 2026, o Fundo informou que as acumulações posteriores documentadas correspondiam a doações privadas, e não a recursos públicos. O governo salvadorenho não revelou quem são esses doadores privados.
A outra grande mudança está na Chivo. A carteira, que foi o principal instrumento por meio do qual o Estado tentou impulsionar o uso cotidiano do bitcoin, deixou de ser um projeto sob controle público.
Em setembro de 2026, o FMI informou que a propriedade e o controle operacional da Chivo haviam sido transferidos para um operador privado, enquanto o governo mantinha uma participação minoritária e a custódia dos ativos dos clientes.
O Fundo descreveu a participação pública na carteira como substancialmente desmantelada.
Assim, o que resta é uma situação muito diferente daquela de euforia apresentada por Bukele em 2021.

