De postos de controle, tanques e funerais aos escombros, deslocamentos e hospitais de Gaza, uma geração palestina atravessou guerras, bloqueios e divisões internas e agora enfrenta o desafio de transformar memória, resistência e sacrifício em projeto político
Vinte e seis anos após a eclosão da Intifada (revolta) palestina de Al-Aqsa, esse evento não é mais apenas um marco histórico para os palestinos; tornou-se parte integrante da memória e da consciência política de toda uma geração. Desde setembro de 2000, os palestinos enfrentaram uma sucessão de crises — bloqueios, divisão interna, guerras e a expansão dos assentamentos — culminando na guerra devastadora que atualmente assola Gaza.

Após todos esses anos, a questão não é simplesmente “O que aconteceu durante a Intifada de Al-Aqsa?”, mas sim: “O que resta dela na consciência palestina? E o que aprendemos?”
Um dos impactos mais significativos da Intifada foi desfazer a ilusão de que a mera existência de um processo político levaria necessariamente ao fim da ocupação.
Ao longo dos anos de Oslo e posteriormente, os palestinos viveram uma realidade definida pela expansão persistente dos assentamentos, postos de controle militares, prisões, incursões e restrições de movimento.
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Consequentemente, o foco mudou gradualmente de como gerir essa realidade para como acabar com a ocupação e alcançar a liberdade e a independência.
A Intifada também reafirmou a centralidade de Jerusalém e da Mesquita de Al-Aqsa para a consciência nacional, estabelecendo um vínculo mais claro entre Jerusalém e as questões de terra, assentamentos, refugiados, prisioneiros e o direito à autodeterminação.
Para amplos segmentos da sociedade, a causa palestina evoluiu para uma luta abrangente pelos direitos nacionais, em vez de ser apenas um item de negociação.
No entanto, talvez seu impacto mais profundo tenha sido sobre toda uma geração. As crianças e os adolescentes do ano 2000 estão agora na casa dos trinta e quarenta anos, carregando memórias de postos de controle, tanques, incursões militares e funerais, tendo vivido, posteriormente, bloqueios, guerras e divisões internas.
Em Gaza, hoje, a imagem da resiliência mudou. Se antes a imagem da Intifada era definida por postos de controle, tanques e confrontos diretos, a realidade de tendas, escombros, deslocamentos, hospitais e a luta por água e alimentos passou a fazer parte do cotidiano.
A firmeza na resistência passou a abranger a proteção da família, a educação dos filhos, a preservação da memória e a reconstrução de vidas em meio à destruição.
No entanto, a memória, por si só, não basta.
Uma análise crítica da Intifada de Al-Aqsa levanta uma questão difícil: por que todos esses sacrifícios não se traduziram em uma conquista política capaz de encerrar a ocupação e concretizar os direitos nacionais palestinos?
Essa pergunta não diminui o valor dos sacrifícios; pelo contrário, situa-os em seu contexto histórico. Sacrifícios exigem um projeto político; um projeto exige instituições; e instituições exigem legitimidade popular e unidade nacional.
Aqui reside, talvez, uma das lições mais importantes dos últimos 26 anos: não basta que um povo tenha uma causa justa e capacidade de resistência; é preciso também uma estrutura nacional inclusiva, capaz de transformar essa resistência em ação política.
Em Gaza, essa tarefa parece ainda mais urgente. Embora a reconstrução de casas, escolas e hospitais seja essencial, reconstruir a vida também exige reconstruir instituições e a representação política, bem como renovar a legitimidade popular.
Após 26 anos, Jerusalém, a terra, a memória e o direito à autodeterminação permanecem — assim como a capacidade palestina de resistência.
Contudo, a pergunta permanece: podemos transformar toda essa memória e esse sacrifício em um projeto que molde o futuro?
A Intifada tornou-se parte da história, mas a responsabilidade das gerações atuais é aprender com essa história, e não repetir suas tragédias.

