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Folha de S.Paulo manipula manchetes para transformar crescimento do PIB em sinal de crise Diálogos do Sul Global

O que um discurso pode dizer, “não dizendo”? Você, que lê este texto, já se perguntou acerca disso? Antes de responder, é importante pensar que os discursos são construções que consideram a articulação entre língua, sujeito, história e ideologia, como nos ensina a professora Eni Orlandi, por meio de diversas obras que publicou ao longo de sua carreira acadêmica.

JORNAL DA UNICAMP ::
Eni Orlandi – JORNAL DA UNICAMP

Para ela, todo discurso participa ativamente da produção de sentidos. Ao considerar essa questão, gostaria de realizar uma reflexão tomando como base uma manchete publicada na edição desta terça-feira, 1º de setembro de 2026, pelo jornal Folha de S.Paulo, em sua edição online.

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Primeiramente, é importante saber que, antes mesmo de termos acesso ao conjunto das informações, a primeira página de um jornal já realizou um processo de seleção — alguns acontecimentos foram elevados à condição de notícia principal, outros foram deslocados para posições secundárias e muitos sequer chegaram à capa.

Precisamos compreender que a capa não é simplesmente um espelho do mundo, do país, da cidade, mas uma forma muito particular de organizar a realidade (ou realidades, no plural) para que seja(m) vista(s), interpretada(s) e significada(s), obviamente de acordo com a linha editorial do jornal.

Por volta das 10 da manhã, acessei a edição da Folha de S.Paulo desta terça-feira, 1º de setembro de 2026, onde se encontrava em evidência a seguinte manchete relacionada ao governo federal: “PIB do Brasil desacelera e cresce 0,5% no segundo trimestre; consumo recua sob juros altos”. Em um momento no qual o presidente da República é, simultaneamente, chefe do Poder Executivo nacional e candidato à reeleição, é preciso que observemos com muita acuidade essa manchete. Porque não se trata de um cenário comum.

Condução interpretativa

Precisamos entender que, nesse cenário às portas das eleições, notícias sobre economia, política fiscal, juros, Congresso, popularidade e políticas sociais adquirem, inevitavelmente, uma dimensão eleitoral, elevando a notícia a uma categoria muito mais política do que informativa. Ela deixa de ser informação sobre determinadas temáticas e passa a participar, também, da construção da imagem pública do governo e de seu candidato, que, neste caso, são a mesma coisa. Nesse sentido, apresento alguns questionamentos, considerando a Análise de Discurso (AD), um recorte epistemológico muito importante para compreendermos muitas coisas no mundo, inclusive o papel dos meios de comunicação hegemônicos:

Que efeitos de sentido são produzidos pelas escolhas linguísticas e editoriais do jornal Folha de S.Paulo? Que posição é atribuída ao governo? Que relações são estabelecidas entre Lula, economia, mercado e eleição? O que aparece como problema e o que é deslocado para o silêncio?

A perspectiva analítica de Eni Orlandi nos é indispensável para responder a essas perguntas, porque, para ela, considerando que o sentido dos discursos não reside unicamente nas palavras, precisamos enxergar essas manchetes da Folha como um gesto de interpretação.

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Reprodução: Folha de S.Paulo

Antes de dizer o que aconteceu, o jornal decide o que merece ser apresentado como aquilo que aconteceu. Por exemplo, com o título — “PIB do Brasil desacelera e cresce 0,5% no segundo trimestre; consumo recua sob juros altos” —, a Folha fornece um exemplo emblemático de como o discurso jornalístico, mesmo quando sustentado por dados objetivos, pode produzir determinados efeitos de sentido sobre um governo e, em especial, sobre um presidente que disputa a reeleição.

O dado econômico apresentado é positivo — o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 0,5% no segundo trimestre. Contudo, a formulação escolhida para apresentar esse resultado desvia imediatamente o foco do crescimento para a desaceleração e, em seguida, para o recuo do consumo e os juros altos.

O acontecimento econômico, portanto, não chega a quem lê prioritariamente como crescimento, mas como crescimento acompanhado de sinais de enfraquecimento. Que estratégia discursiva interessante!

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Considerando a perspectiva de Orlandi (2007, p. 72), “entre o dito e o não-dito é irremediável que haja um espaço de interpretação que não se fecha. Lugar de equívocos, de deslocamentos, de debates[…]”.

Vemos, nesse título da Folha, os sentidos que podem surgir da relação entre o que é dito e aquilo que, embora possível, não é colocado em primeiro plano. O jornal não precisa afirmar que o governo Lula apresenta um desempenho econômico negativo para que essa interpretação se torne possível.

Basta organizar os elementos do acontecimento de modo que quem leia seja conduzido a essa interpretação. É que, embora o crescimento esteja presente no “dito”, o modo como é articulado com os demais elementos favorece uma leitura marcada pela perda de dinamismo econômico.

Quem lê a manchete não recebe simplesmente a informação de que a economia cresceu; recebe uma economia que cresce, mas que está imersa em um cenário problemático.

Essa “condução” interpretativa é replicada pelas chamadas que acompanham a manchete, como esta: “Dívida a 82,5% do PIB acende sinal de alerta para correção de rota após as eleições, dizem economistas”.

Semanticamente, é possível notar um deslocamento de “desaceleração” para “alerta” e “correção de rota”. Esta última expressão (“correção de rota”) merece uma atenção especial — porque uma rota pressupõe uma direção. Desse modo, corrigir a rota significa, discursivamente, reconhecer que o caminho atual apresenta problema; ou que existe necessidade de mudança.

Interesses empresariais e hierarquias

Por isso, a construção não diz diretamente que o governo está errado, mas sugere a possibilidade de quem leia o material interpretar a situação dessa maneira. Novamente recorremos a Orlandi (2007, p. 10) quando ela diz que “O homem não pode, assim, evitar a interpretação, ou ser indiferente a ela. Mesmo que ele nem perceba que está interpretando — e como está interpretando — é esse um trabalho contínuo na sua relação com o simbólico”.

Como é possível ver, Orlandi nos diz que a leitura nunca é totalmente livre de subjetividades, simplesmente porque envolve memórias, valores e posições ideológicas. O sentido é construído pelo sujeito em sua relação com o simbólico e com as condições históricas em que está inserido. Mesmo sem percebermos, atribuímos sentidos às palavras, aos acontecimentos e aos discursos, considerando as nossas experiências, as nossas memórias e, sobretudo, as nossas posições ideológicas — mesmo que, a respeito destas últimas, nem tenhamos consciência.

Ainda sobre a chamada da Folha, a expressão “após as eleições” insinua a quem lê a possibilidade de que uma eventual correção seja necessária depois do processo eleitoral. E, logicamente, o jornal está produzindo uma associação entre o quadro econômico, a condução do governo e o calendário eleitoral. Não tem como negar isso! Além disso, a afirmação “acende sinal de alerta” produz um clima de “perigo”, ou de preocupação, visto que o número deixa de ser um simples número e passa a funcionar como sinal de risco. Ou seja, como leitora, eu poderia pensar que reconduzir Luiz Inácio da Silva à Presidência significaria um perigo iminente.

Essa reflexão nos leva a um outro conceito, que é o de enquadramento ou framing. Na literatura acadêmica de Comunicação, a Teoria do Framing parte da concepção de que quem produz jornalismo narra os acontecimentos com um enfoque particular, que considera interesses pessoais e/ou profissionais.

Essa teoria leva em conta, sobretudo, dimensões estruturais, ou seja, que há particularidades dos meios de comunicação em relação à realidade, entre as quais se encontram o fato de serem organizações com objetivos empresariais, com hierarquias, entre outros, que afetam as mensagens por eles produzidas/disseminadas.

Dito isso, e de volta aos discursos produzidos pela Folha em 1º de setembro de 2026, agora me debruço sobre outra chamada que acompanha a matéria principal: “Investimentos produtivos desaceleram e registram alta de 1,2% no período”.

Esta formulação discursiva também produz um efeito de sentido ambíguo — eu diria tendencialmente desfavorável ao presidente da República e candidato à reeleição. Embora o dado apresentado seja positivo — os investimentos cresceram 1,2% —, a escolha do verbo “desaceleram” antecedendo a informação sobre a alta orienta a atenção de quem lê para a perda do ritmo dos investimentos no país, e não para o crescimento efetivamente registrado.

Quando analisamos novamente sob a perspectiva de Orlandi, observamos que o sentido não está contido no número “1,2%”, mas na relação que esse número estabelece com os demais elementos do texto. Quem lê tem a informação de que os investimentos “registram alta de 1,2%”, produzindo uma percepção inicial positiva. No entanto, quando o texto afirma que eles “desaceleram”, o discurso introduz, antecipadamente, uma marca de preocupação, já que o crescimento permanece no dito, mas é atravessado por um sentido de insuficiência. Dessa forma, mesmo sem afirmar que os investimentos estão em queda (ou que a política econômica do governo é inadequada), a chamada pode favorecer uma leitura segundo a qual a economia apresenta sinais de enfraquecimento.

Ambiguidade

De acordo com Orlandi (2007, p. 43), “os sentidos sempre são determinados ideologicamente. Não há sentido que não o seja. Tudo que dizemos tem, pois, um traço ideológico em relação a outros traços ideológicos”. Isso significa, entre outras questões, que a escolha das palavras mobiliza sentidos sociais (e ideologicamente construídos). E, analisando o discurso da Folha nessa chamada, embora “alta de 1,2%” represente um resultado positivo, sua associação imediata ao verbo “desaceleram” desloca a atenção do crescimento para a ideia de perda de ritmo, criando um efeito de sentido de fragilidade ou insuficiência da atividade econômica.

Há outras chamadas, mas não quero ser prolixa. Considero que o meu intuito já está objetivado com os exemplos citados. Agora, vem a pergunta mais importante:

Podemos dizer que essa forma de construir discurso sobre o governo federal (e consequentemente sobre o presidente da República) vai impactar negativamente na performance de Lula como candidato?

A resposta também é ambígua. Sim e não.

Como dito antes, a partir da perspectiva de Orlandi, todo discurso carrega consigo história, memória, língua, ideologia. E, se adicionamos, ainda, nesta reflexão, o fato de que a mídia não é onipotente, isso nos sinaliza para o fato de que esse impacto negativo não é determinado pelo que foi formulado pela Folha de S.Paulo na edição desta terça-feira, 1º de setembro de 2026.

Entretanto, quando consideramos o que nos diz J. B. Thompson em seu livro A Mídia e a Modernidade: uma teoria social da mídia (2012), que os meios de comunicação não determinam mecanicamente o pensamento das pessoas, mas, em vez disso, fornecem as ferramentas simbólicas que moldam e estruturam nossas visões de mundo, não podemos descartar que, com essa abordagem sobre o governo federal, o jornal Folha de S.Paulo esteja fornecendo essa base simbólica e, portanto, ajudando muitas pessoas a moldar sua visão acerca do Executivo Federal e de seu chefe, que é candidato à reeleição.

Como é possível ver, não se trata de afirmar que o jornal Folha de S.Paulo — por meio de suas escolhas discursivas — seja capaz de determinar o comportamento do eleitorado que o acompanha diariamente ou, de maneira mais ampla, da sociedade. Simplesmente porque um mesmo discurso pode gerar diferentes efeitos em diferentes sujeitos.

Mas também não podemos deixar de ponderar que o fato de a mídia não possuir um poder absoluto de determinação não significa desconsiderar sua importância na disputa pela construção dos sentidos que circulam socialmente. Quando seleciona determinados acontecimentos, quando confere a eles destaque e os organiza por meio de escolhas linguísticas específicas, o discurso jornalístico participa da constituição de determinadas formas de inteligibilidade da realidade.

No caso aqui analisado — o enquadramento discursivo da Folha em relação ao governo federal —, a recorrência de formulações que enfatizam desaceleração, dificuldades ou insuficiências no setor econômico pode contribuir para a construção de uma memória discursiva na qual o desempenho do governo federal e seu chefe sejam associados a problemas econômicos e perda de dinamismo.

Esse processo não permite afirmar que tais discursos produzirão necessariamente um impacto negativo sobre a candidatura de Lula, mas, sem dúvida, permite sustentar a hipótese de que eles integram uma arena simbólica na qual diferentes sentidos sobre o governo, sobre o presidente e sobre sua capacidade de permanecer no poder são continuamente produzidos, disputados e ressignificados.

Para quem quiser compreender mais sobre o tema, recomendo:

Portanto, não se trata de afirmar que o jornal Folha de S.Paulo, por meio de suas escolhas discursivas, seja capaz de determinar o comportamento do eleitorado que o acompanha diariamente ou, de maneira mais ampla, da sociedade. Simplesmente porque um mesmo discurso pode gerar diferentes efeitos em diferentes sujeitos.

Ainda assim, reconhecer que a mídia não possui um poder absoluto de determinação não significa desconsiderar sua importância na disputa pela construção dos sentidos que circulam socialmente. Quando seleciona determinados acontecimentos, quando confere a eles destaque e os organiza por meio de escolhas linguísticas específicas, o discurso jornalístico participa da constituição de determinadas formas de inteligibilidade da realidade.

No nosso exemplo, a recorrência de formulações que enfatizam desaceleração, dificuldades ou insuficiências pode contribuir para a construção de uma memória discursiva na qual o desempenho do governo federal seja associado a problemas econômicos e perda de dinamismo.

Repito: esse processo não permite afirmar que tais discursos produzirão necessariamente um impacto negativo sobre a candidatura de Lula. No entanto, permite sustentar a hipótese de que eles integram uma arena simbólica na qual diferentes sentidos sobre o governo, sobre o presidente e sobre sua capacidade de permanecer no poder são continuamente produzidos, disputados e ressignificados.

E, para quem se interessar por este tema, sugiro algumas leituras.

Citadas neste texto:

Eni Orlandi — Análise de discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes, 2002.

Interpretação — Autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico. 2007.

J. B. Thompson — A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Tradução de Leonardo Avritzer. Petrópolis: Vozes, 2012.

Não citadas neste texto:

Wilson Gomes — Transformações da política na era da comunicação de massa. São Paulo: Paulus, 2004.

Clóvis de Barros Filho (Org.) — Comunicação na Pólis: ensaios sobre mídia e política. São Paulo: Vozes, 2002.

Mauro Porto — Mídia, Opinião Pública e Eleições. São Paulo: Loyola, 2007.

Carlos Dornelles — Deus e inocente, a imprensa não. Rio de Janeiro: Globo, 2002.

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