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Argentina: Mercado Crédito lucra com urgência de mulheres pobres e multiplica dívidas com juros e multas leoninos Diálogos do Sul Global

Domésticas, ambulantes e feirantes relatam empréstimos tomados para transporte, trabalho e necessidades familiares que explodem com juros e multas por atraso; quando o pagamento falha, cobranças avançam sobre contatos pessoais e ameaças de judicialização

Na Argentina, assim como Javier Milei, o sistema financeiro montado pelo empresário Marcos Galperín, titular de Mercado Livre, Mercado Pago e Mercado Crédito, é cruel especialmente com as mulheres.

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Javier Milei – wikipedia

No marco de uma manifestação nos escritórios do gigante no Parque Saavedra com os tambores batendo e os cantos “olé, olé, olá, Mercado Livre, a vergonha nacional” como tela de fundo, Buenos Aires/12 conversou com algumas vítimas da usura.

Ainda que o catálogo seja heterogêneo, a maioria das que pegaram estes créditos leoninos com essa casa de credito são mulheres que trabalham na informalidade, limpando casas ou na venda ambulante, em muitos casos único sustento da família.

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É o caso de Noelia, que vive na periferia, trabalha como empregada doméstica, paga aluguel e é mãe solteira de cinco filhos. Um deles tem uma deficiência, o que a obriga a ir periodicamente ao Hospital Garrahan para receber tratamento.

No ano passado, em determinado momento viu-se sem dinheiro para pôr gasolina – o carro ocupa uma porcentagem importante de seu orçamento. Então aceitou um empréstimo de quarenta mil pesos que lhe oferecia o Mercado Crédito. Foi o começo de um autêntico pesadelo.

“No princípio eu podia pagar, mas com cada atraso as multas iam me afundando mais e mais. Em determinado momento, como não tinha forma de pagar, desinstalei o aplicativo”, conta. Trata-se de uma reação habitual dos devedores, um mecanismo fruto do desespero.

Uns meses depois de solicitado o empréstimo, e apesar dos sucessivos pagamentos, Noelia devia três vezes o capital inicial. Começaram a chamá-la, de maneira cada vez mais insistente, de números privados, em diferentes horários.

Depois fizeram o mesmo com seus contatos mais próximos. O temor de Noelia é que telefonem para alguma das casas que a empregam por hora. Sua angústia se evidencia no tom de sua voz e na expressão de seu rosto. Agora também ameaçam judicializar a reclamação: se não consegue pagar que pelo menos alguém pague por ela.

Bibi é de Jujuy e ganha a vida vendendo empanadas nas imediações das estações de trem da linha Roca. Há cerca de um ano, foi visitar seus pais em sua província natal.

Ya ni duermo por culpa de Mercado” – Página|12
Mercado Libre, Mercado Pago y Mercado – Crédito Arquivo Página|12

“Achei-os com a geladeira quebrada e sem dinheiro para comprar outra ou para consertar esta. De modo que peguei um empréstimo com o aplicativo”, lembra. Por um capital de 200 mil pesos, pediam seis cotas de 80 mil. Aceitou porque não via outra solução para o problema de seus pais.

“Uma vez atrasei só um dia e a cota subiu 10 mil pesos, de 80 mil para 90 mil. Além do mais, cada vez se vende menos porque as pessoas não têm dinheiro. Até uns dois meses atrás, meus filhos me ajudavam, mas agora eles também estão sem trabalho”, diz.

“Devem estar fazendo um negócio fabuloso”, reflete, em relação às empresas. “E conheço mulheres que estão passando muito pior do que eu”, conclui.

Carmen é a primeira de sua família, de origem boliviana, nascida na Argentina. Tem um lugar na feira de Villa Celina e sua experiência é similar às anteriores.

“Fiz uma compra de tecidos pelo telefone e peguei o empréstimo sem querer. Eu tinha dinheiro naquele momento, mas aparecia como primeira opção e apertei. E não há botão de arrependimento. Agora trabalho para essa gente”, lamenta-se.

Carmen se filiou recentemente ao Sindicato de Feirantes, que lhe dá assistência legal e desenvolveu sua própria carteira, para evitar que os sindicalizados caiam nesta armadilha.

Durante anos, Ayelén fez todos os cursos de cabelereira, depilação e estética que pôde, no tempo que lhe deixavam livre seu trabalho de caixa de supermercado e seus três filhos.

Quando o local de Lanús onde trabalhava fechou e ficou na rua, decidiu que era o momento de arriscar. “Peguei um empréstimo para equipar-me e começar a trabalhar em domicílio, para ver se mais adiante podia ter meu local”, lembra, triste.

“Mas em meu bairro ninguém tem um peso para gastar com essas coisas. Agora tenho as máquinas quase sem uso e uma dívida que está se tornando uma bola de neve. Trabalharia em qualquer coisa para resolver, mas não consigo nada. E esta gente me enlouquece. Já nem durmo por culpa deles.”

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