O propósito deste artigo consiste em caracterizar as novas direitas a partir de três tipos ideais ou puros, construídos com base na experiência recente dos Estados Unidos, tendo como referências figuras como Donald Trump e Elon Musk. Quando aludimos a tipos ideais ou puros, nos referimos a caracterizações gerais que não possuem um correlato empírico direto, mas que nos permitem compreender as transformações contemporâneas e orientar-nos frente a elas.

Nossa hipótese é que atualmente podem distinguir-se três tipos ideais no que diz respeito às novas direitas: uma elite progressista, uma elite neoconservadora e uma elite emergente que poderia ser caracterizada como neorreacionária ou mesmo, neofascista. O que nos interessa não é simplesmente descrevê-las, mas compreender a relação que mantêm entre si.
Portanto, consideramos que a elite progressista, ainda que vigente, ficou para trás frente à aliança que hoje se constrói entre a elite neoconservadora e a elite neorreacionária. Esta aliança constitui, a nosso ver, um dos elementos mais preocupantes das transformações políticas recentes.
A elite progressista
A elite progressista está profundamente ligada à última fase da globalização capitalista e, portanto, muito associada à deslocalização das atividades produtivas, à abertura econômica e aos tratados de livre comércio. Do mesmo modo, promoveu o chamado poder brando dos Estados Unidos mediante organismos internacionais, organizações não governamentais e distintos mecanismos de cooperação.
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No plano cultural, impulsionou formas de multiculturalismo compatíveis com as lógicas do mercado. Também promoveu agendas relacionadas a gênero, etnicidade e diversidade sexual, ainda que com uma ênfase muito acentuada nas políticas de reconhecimento e nas reivindicações identitárias, sem questionar de maneira substancial as estruturas de poder sobre as quais descansa a ordem existente.
A isto se soma a defesa do desenvolvimento sustentável entendido como a compatibilidade entre o desenvolvimento capitalista e a sustentabilidade ambiental. A expansão das redes digitais como instrumento de interconexão global e a promoção de determinados processos migratórios, sempre dentro de limites bem definidos, fazem igualmente parte deste horizonte.
No plano político esta elite impulsionou modelos de governança mais do que de governo. Favoreceu a participação conjunta de atores públicos, privados, organizações não governamentais e distintos setores da sociedade civil. Ao mesmo tempo, defendeu a democracia representativa, mas complementada com alguns componentes participativos e deliberativos. Nas relações internacionais privilegiou a cooperação, ainda que sempre dentro de um quadro de abertura econômica.
Esta caracterização constitui o ponto de partida da análise. O deslocamento relativo da elite progressista abriu passagem para uma aliança entre as elites neoconservadora e neorreacionária. Compreender esta aliança exige caracterizar cada um destes tipos ideais e, posteriormente, examinar as distintas formas como as elites concebem as relações entre os Estados Unidos e a América Latina e o Caribe.
A elite neoconservadora
A elite neoconservadora tem como principal referência Donald Trump e o movimento Maga (Make America Great Again), embora se trate de um movimento heterogêneo que incorpora elementos provenientes de distintas tradições. Também se identifica com a consigna America First. Esta elite expressa uma forma particular de compreender tanto a política interna como as relações internacionais e encontra uma de suas formulações mais claras na atual Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos (“doutrina Donroe”).
Seu ponto de partida é uma concepção realista das relações internacionais. O cenário internacional aparece integrado por Estados soberanos que defendem interesses nacionais permanentes e competem entre si pela proeminência.
A soberania ocupa um lugar central e o equilíbrio entre as potências constitui sempre um equilíbrio instável. Daí que as relações internacionais sejam concebidas fundamentalmente em termos de concorrência.
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Esta concepção da ordem internacional é acompanhada de uma ênfase muito grande na unidade nacional. A nação requer uma cabeça capaz de representá-la e, por esta razão, a figura do presidente adquire um lugar central.
O presidente não só dirige o poder executivo, como também representa o corpo político em seu conjunto e seus interesses vitais.
Aqui reaparece, por conseguinte, uma tradição muito mais antiga, vinculada à teoria dos dois corpos do rei, segundo a qual o monarca possui simultaneamente sua existência individual e representa o corpo político em sua totalidade.
Outro elemento essencial consiste na defesa constante da civilização ocidental. A Europa é apresentada como o berço desta civilização, enquanto os Estados Unidos ocupam o lugar do sucessor. A América Latina e o Caribe fazem parte do mesmo horizonte civilizatório, ainda que de uma posição subordinada que justifica uma relação de tutelagem. Se os povos europeus são os avós, os Estados Unidos são o pai e América Latina e Caribe os filhos menores de idade.
Quanto ao regime político, esta elite defende uma concepção elitista e competitiva da democracia. A democracia não é compreendida como o governo dos “muitos”, mas como o governo de “uns poucos” que competem periodicamente pelo poder mediante eleições. Trata-se, portanto, de uma defesa da democracia liberal representativa entendida como um mecanismo de seleção de classes dirigentes. Em última instância, a democracia se aproxima mais das velhas formas da monarquia e da aristocracia do que de qualquer outro regime.
Em todo caso, também é possível constatar uma apelação constante ao povo. No entanto, este povo é concebido como uma comunidade cultural relativamente homogênea, integrada por indivíduos titulares de direitos e liberdades cujo principal âmbito de realização é o mercado e as eleições periódicas, que adotam a mesma aparência espetacular-mercantil. A liberdade aparece estreitamente vinculada à competência, enquanto a coesão nacional constitui a condição para preservar a força do Estado.
Por esta mesma razão a produção industrial ocupa um lugar privilegiado. A força de uma nação se mede por sua capacidade industrial e pela possibilidade de garantir o acesso a fontes de energia baratas. O controle do hemisfério adquire então uma importância estratégica, tanto por razões econômicas como geopolíticas. A isto se acrescenta o lugar que ocupa o exército. A indústria militar representa um dos principais setores da economia estadunidense e, ao mesmo tempo, o poder militar expressa a capacidade dos Estados Unidos de conservar sua posição hegemônica no cenário internacional.
A elite neorreacionária ou neofascista
A elite neorreacionária constitui seguramente, o fenômeno mais importante dentro das novas direitas. Trata-se de uma elite ainda em formação, mas que já ocupa uma posição considerável nos Estados Unidos. Basta pensar em figuras como Elon Musk, Alex Karp ou Peter Thiel, assim como nos demais empresários e “intelectuais” associados ao movimento denominado Ilustração Obscura. Autores como Curtis Yarvin e Nick Land fazem parte deste universo intelectual, embora cumpram sobretudo uma função de legitimação do novo projeto.
Chamamos esta elite de “neorreacionária”, ou mesmo de “neofascista”, apelando ao conceito clássico de reação. Os reacionários são, em sentido estrito, revolucionários invertidos. Conservam a ideia de uma transformação acelerada da sociedade, mas orientam esta transformação para a conservação e o aprofundamento da ordem existente, além de atacar violentamente qualquer conato realmente revolucionário. O reacionário supõe uma apelação permanente à mudança e à aceleração, mas sem questionar os fundamentos da ordem vigente. Nesse sentido, consideramos pertinente falar de uma elite neorreacionária ou neofascista.
Os integrantes desta elite compartilham uma premissa essencial. Consideram que a aceleração tecnológica não é ainda suficientemente intensa e que as sociedades atuais carecem de capacidade para planejar o desenvolvimento a longo prazo. Esta premissa se encontra estreitamente ligada a sua concepção de liberdade. A liberdade se identifica com a criatividade, o empreendimento, o ensaio, o erro e a capacidade de corrigir rapidamente as “falhas do sistema” para continuar acelerando o desenvolvimento tecnológico. Tudo o que dificulte este movimento aparece como uma restrição de liberdade.
Daí surge uma crítica permanente à burocracia, à deliberação, à proliferação de diferenças e à expansão contínua de regulamentações. Desta perspectiva, todos estes elementos retardam a aceleração tecnológica e impedem de planejar o futuro. O problema consiste em que estes mesmos elementos fazem parte das democracias contemporâneas.
Os aparatos administrativos encarregados de levar a cabo políticas públicas, os procedimentos deliberativos, o pluralismo e as regulamentações são aspectos característicos dos regimes democráticos, com todas as limitações que possam possuir. Assim, esta nova elite conclui que a liberdade deve ser defendida da democracia, porque a democracia constitui o principal obstáculo para a aceleração tecnológica e o planejamento a longo prazo. Aqui pode inclusive ocorrer uma eventual ruptura com a elite neoconservadora e, com maior razão, com a elite progressista. A elite neorreacionária é abertamente antidemocrática.
As propostas que se deduzem deste diagnóstico permitem compreender melhor o alcance deste projeto político. Em primeiro lugar, trata-se de uma elite que pretende superar o Estado-nação em sua forma republicana e avançar para novos corpos políticos organizados de acordo com um princípio monárquico. Como propôs Curtis Yarvin, em vez de um presidente eleito periodicamente, a cabeça do corpo político deveria ser um diretor executivo (CEO empresarial), capaz de planejar o desenvolvimento tecnológico a longo prazo e de acelerar ao máximo os processos de inovação. A empresa tecnológica aparece assim como o modelo de organização política.
Em segundo lugar, esta elite afirma que atualmente se está configurando uma espécie de superinteligência pós-humana. As referências constantes à inteligência artificial geral (IAG) e à singularidade respondem precisamente a esta ideia. O desenvolvimento tecnológico levaria à formação de um superorganismo ao qual os seres humanos acabariam integrando-se. A consequência deste processo seria a obsolescência do humano. Deste modo, a Ilustração Obscura, como movimento, não só recupera imaginários monárquicos, como também supõe que a própria humanidade constitui uma etapa transitória do desenvolvimento tecnológico capitalista. Land é talvez o maior dos propagandistas a este respeito.
Em terceiro lugar, esta elite propõe substituir a democracia representativa por uma espécie de democracia aclamativa, que dificilmente poderia continuar chamando-se democracia. As plataformas digitais permitiriam que a população manifestasse periodicamente sua aprovação quanto às decisões tomadas pelo diretor executivo (CEO empresarial) e sua equipe de governo. Recupera-se assim uma ideia já presente em Carl Schmitt, o infame jurista nacional-socialista, segundo a qual a legitimidade política descansa menos na deliberação do que na aclamação pública. Não é por acaso que o controle das plataformas digitais ocupe um lugar estratégico neste projeto.
No âmbito da segurança, a concorrência entre as grandes potências se desloca progressivamente para o desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial, de armas letais autônomas e de vigilância massiva. Palantir, de Thiel e Karp, é a empresa que está na frente. Além disso, esta elite garante que os problemas ambientais e as demais externalidades negativas do sistema capitalista podem ser resolvidas mediante uma aceleração ainda maior do desenvolvimento tecnológico. A busca de novas fontes de energia, a exploração espacial, a terraformação de Marte ou a exploração de recursos fora do planeta respondem a esta lógica. A suposição de fundo consiste em que, como manifestou publicamente Musk, os problemas do sistema podem ser resolvidos administrando-o melhor e acelerando seu desenvolvimento.
Finalmente, nesta elite a crítica da fragmentação cultural coexiste com uma defesa do individualismo, da competência, da meritocracia e da expansão permanente das capacidades individuais. A tecnomonarquia exige homogeneidade cultural e hiperindividualismo ao mesmo tempo. A sociedade não é um espaço de deliberação política, de intersubjetividade e de igualdade na diferença, e sim um metassistema que deve ser administrado da maneira mais eficiente possível.
As relações com América Latina e Caribe
As diferenças entre os três tipos ideais também permitem compreender as distintas formas em que cada uma destas elites concebe sua relação com a América Latina e o Caribe.
Para a elite progressista, esta relação deve organizar-se em torno da cooperação, ainda que sempre dentro de um cenário de abertura e concorrência econômica desigual. A cooperação não supõe questionar as dinâmicas da globalização capitalista, mas fortalecer os organismos internacionais, ampliar os mecanismos de integração e promover a participação de organizações não governamentais e de distintos atores da sociedade civil.
A elite neoconservadora concebe a relação de outra maneira. América Latina e Caribe fazem parte da civilização ocidental, mas ocupam uma posição subordinada dentro dela. Daí que a relação deva ser de tutela. Os “filhos” não podem administrar nem mesmo seus próprios recursos naturais, como Trump afirmou abertamente depois da invasão da Venezuela. Os Estados Unidos aparecem como a potência encarregada de preservar a ordem hemisférica e de garantir a unidade do Ocidente.
A elite neorreacionária vai mais além. Se seu propósito consiste em substituir o Estado republicano por novos corpos políticos organizados de acordo com um princípio monárquico, a relação com os demais países já não pode ser de cooperação nem simplesmente de tutela, deve tornar-se uma relação de vassalagem.
A referência deixa de ser o Estado moderno, pois o modelo se aproxima mais da monarquia absolutista e das relações próprias da nobreza, em que a alta nobreza estabelece vínculos de subordinação com a baixa nobreza. É nisso que consiste a velha instituição da vassalagem. Transferida para o cenário internacional, esta lógica supõe uma ordem hierárquica em que os Estados Unidos ocupam o centro político e tecnológico, enquanto os demais países permanecem integrados em relações permanentes de vassalagem.
Se esta caracterização estiver correta, o ascenso da elite neorreacionária ou neofascista deveria ser objeto de enorme preocupação. Não falamos unicamente do fortalecimento de uma nova direita, mas da emergência de uma elite que questiona abertamente a democracia, reivindica formas de organização política de caráter tecnomonárquico e projeta uma reorganização das relações internacionais baseadas em relações de vassalagem.
* Artigo baseado na intervenção preparada para o evento “Os povos da América Latina ante o desafio das novas direitas”, realizado em 15 de julho de 2026 e organizado pela Rede de Estudos em Pós capitalismo.
