O homem do MAGA na América Latina: a rede secreta de Fernando Cerimedo
Em 17 de agosto, em Santa Cruz, na Bolívia, a advogada Nadia Beller foi vítima de uma tentativa de feminicídio por parte de seu ex-companheiro, Fernando Cerimedo. Segundo publicou a BBC Mundo, o que inicialmente parecia um caso de violência de gênero rapidamente se transformou em um escândalo geopolítico quando Beller, da clínica onde se recupera de vários disparos de arma de fogo, denunciou uma trama de corrupção que compromete o governo de Rodrigo Paz e lançou uma acusação explosiva: Cerimedo seria um agente da CIA, assim como sua ex-esposa, Nadia Basil, e seu sócio Brad Parscale, ex-chefe de campanha de Donald Trump.
A Promotoria boliviana, segundo informou o meio britânico, pediu prisão preventiva de 180 dias para o consultor argentino.
Milhares de trolls
Cerimedo, de 45 anos, é fundador do La Derecha Diario e diretor da agência de marketing político Numen. Conforme citou o jornal argentino La Nación durante a campanha de Milei em 2023, o consultor admitiu ter “milhares de trolls” para influenciar algoritmos e alterar a relevância de temas nas redes sociais. “Fazemos campanhas negativas”, confessou então ao meio argentino.
Segundo detalha o Diario Red, seu método consiste em divulgar informações prejudiciais sobre adversários utilizando inteligência artificial, fazendas de bots e microssegmentação, uma estratégia que testou pela primeira vez no Brasil, em 2018, para reduzir a rejeição a Jair Bolsonaro entre setores LGBT.
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O salto qualitativo de Cerimedo não pode ser explicado sem sua integração a uma rede de operadores republicanos ultraconservadores com acesso direto a Trump.
Segundo reconstruiu o Diario Red, o veterano estrategista Dick Morris, seu mentor, lançou a “Academia Dick Morris” para formar consultores na América Latina, e Cerimedo figura como professor.
Roger Stone, autodenominado “homem do golpe político”, fez dupla com o argentino em Honduras, em 2025, e articulou o lobby pelo indulto do ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, condenado por narcotráfico.
Mas o sócio mais estratégico é Brad Parscale, arquiteto digital de Trump, cuja plataforma Campaign Nucleus utiliza IA para analisar eleitores e foi fundamental para a vitória de Trump em 2024. O próprio Diario Red afirma que, em março de 2025, Cerimedo foi anunciado como representante dessa ferramenta na América Latina.
Suas operações na América Latina
Segundo destacou o Página/12 em sua cobertura do caso, a revista The Economist classificou Cerimedo como “o homem do MAGA na América Latina”. A evidência institucional de seu poder, segundo o meio argentino, é que ele se reunia publicamente com o encarregado de Negócios dos Estados Unidos na Bolívia, Erik Martini, que ocupa o mais alto cargo diplomático no país.
O Página/12 ressalta que, segundo declarações de Beller, Cerimedo confessou a ela que trabalhava para a CIA. O que está documentado, acrescenta o meio, é que Parscale se registrou em setembro de 2025 como agente estrangeiro para administrar uma campanha digital de 1,5 milhão de dólares mensais para o governo de Israel, o que explicaria o nível de coordenação e os recursos mobilizados pela consultoria Numen na Bolívia, em Honduras e na Argentina.
Em 2024, segundo publicou o Diario Red, Cerimedo se associou ao espanhol Javier Negre, proprietário do conglomerado Right News Media. O mesmo meio detalha que Negre possui um longo histórico judicial: em julho de 2019, foi condenado por intromissão ilegítima nos direitos à intimidade, à honra e à própria imagem. Em outubro de 2025, o La Derecha Diario adquiriu a UHN Plus Media com o objetivo de formar um bloco midiático conservador na América Latina.
Um mês depois, a revista Forbes México o considerou um dos meios digitais mais populares do mercado hispânico, com 30 milhões de leitores. Também atua no México com o empresário Ricardo Salinas Pliego, o que, segundo citou a BBC Mundo a partir de declaração da presidenta Claudia Sheinbaum, faz parte de “redes da direita internacional que busca influenciar todos os países”.
“Foi Cerimedo quem divulgou os áudios”
A denúncia de Beller não apenas expõe a rede internacional. Ela também revelou que Cerimedo e sua esposa, Natalia Basil, gravaram e divulgaram os áudios nos quais o ex-chefe da Agência Nacional de Deficiência (Agencia Nacional de Discapacidad, Andis) da Argentina, Diego Spagnuolo, admitiu que eram cobradas propinas e que havia “3% para Karina” (Milei). Conforme registrou o Página/12, o próprio Spagnuolo, por meio de enviados, afirmou que foi Cerimedo quem gravou e divulgou os diálogos.
O meio argentino também cita Beller, que, da clínica, afirmou: “Foi Cerimedo quem divulgou os áudios”. O consultor prestou depoimento ao promotor Franco Picardi e ratificou as declarações, o que, segundo fontes próximas à administração Milei citadas pelo Página/12, o transformou em um “traidor” dentro do governo libertário, embora atue com “carta branca” porque é “do grupo”.
De Dunn a Paz
A campanha de Cerimedo na Bolívia, segundo detalha o Diario Red, começou apoiando o libertário Jaime Dunn, mas acabou vinculado ao círculo de Paz por meio de sua filha Catalina, formada pela Academia Numen.
Segundo a denúncia de Beller, repercutida pela BBC Mundo, o salário de Cerimedo na Bolívia é financiado diretamente por uma rede de negócios ilícitos que envolve a família Paz na comercialização de combustível e outros recursos estratégicos.
A BBC Mundo cita a promotora Yolanda Aguilera, que afirmou que “quando é apresentada uma acusação formal, é porque o Ministério Público tem elementos suficientes para comprovar, com probabilidade, a ocorrência do fato: autoria”. O meio britânico acrescenta que Cerimedo também é investigado por suposto enriquecimento ilícito.
“Hondurasgate”
A trama revelada pelo caso Cerimedo não é um fenômeno isolado. Segundo destaca o Diario Red, o “Hondurasgate” evidenciou a importância desses articuladores de redes de desinformação midiática, que demonstram que estamos diante de uma estratégia deliberada de controle da mídia e subversão política. A BBC Mundo cita Natalia Aruguete, pesquisadora do Conicet e especialista em comunicação política, que explica: “O caso Cerimedo mostra um modelo cada vez mais visível no qual a comunicação não passa apenas pela conta oficial do candidato”. “Cerimedo é interessante porque levou essa lógica de uma campanha para outra e de um país para outro”, acrescentou a especialista em diálogo com o meio britânico.
As campanhas de Cerimedo revelam um processo contínuo de aprendizado. Segundo relata o Diario Red, ele começou com a fraude eleitoral de Bolsonaro no Brasil, que lançou as bases para a estratégia de deslegitimação democrática replicada em outros países.
Intervencionismo no Chile
O mesmo meio detalha que, no Chile, em 2022, ele afirma ter elaborado a estratégia do Rejeição, que obteve 61,86% contra 38,14% do Aprovo. Na Argentina, em 2023, segundo confirmou a BBC Mundo, ocupou um lugar relevante nas diretrizes digitais de La Libertad Avanza e atuou como intermediário para a entrevista de Milei com Tucker Carlson. Em Honduras, em 2025, o Página/12 destaca que aplicou “campanha negativa” com IA e estruturas de trolls, e atribuiu a si mesmo a promoção do apoio de Trump ao candidato Nasry Asfura na Truth Social.
Segundo informou o Página/12, o juiz Wilson Espada validou como prova mensagens do celular de Cerimedo que mencionam que Beller “nos vendeu. Ou a eliminamos agora ou estamos ferrados”. O mesmo meio cita a promotora Aguilera, que privilegia a motivação de violência de gênero devido aos antecedentes de agressões de Cerimedo contra Beller em junho e julho, documentados em fotos, e pela gravidez da vítima.
No entanto, o promotor Carlos Torrez avança em La Paz sobre o crime de enriquecimento ilícito. Enquanto isso, o Diario Red alerta que o próximo objetivo é o México. A estratégia é clara: instalar governos funcionais a Washington e Tel Aviv, garantindo negócios extrativistas e controle da mídia. Cerimedo, longe de ser um simples consultor, é o rosto visível de uma nova geração de agentes que, a partir da trincheira digital, buscam recolonizar a América Latina no século XXI.
O ex-presidente da Colômbia, Gustavo Petro, publicou em suas redes: “Este é o clássico manipulador de consciências por meio de propaganda mentirosa da extrema direita (…) Ele assassinou uma mulher que matou porque a engravidou, sua casa tinha milhões de dólares em dinheiro vivo, do narcotráfico? Fazia propaganda mentirosa contra o progressismo no México, na Bolívia, na Argentina e não sabemos se a favor de Abelardo, e era assessor do presidente da Bolívia, que diz ser do escudo das Américas com Trump, que fala em lutar contra o narcotráfico”.
