Mughira havia passado meses e investido até US$ 250.000 na construção de uma academia em Rafah com vários parceiros, antes que Israel a destruísse durante o genocídio. Deslocada para al-Mawasi, no sul de Gaza, em Khan Younis, ela acompanhou imagens de satélite de sua cidade até ter certeza de que a academia havia desaparecido.
“Quando percebi que ela havia sido destruída, senti que meu futuro também havia sido destruído”, disse Mughira, de 33 anos, ao Mondoweiss.

Mughira é uma das milhares de palestinas e palestinos em Gaza que perderam seus meios de subsistência naquilo que um relatório da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) chamou de “a mais grave crise econômica já registrada” em Gaza, apagando 22 anos de avanços no desenvolvimento em menos de dois anos.
Impedidos de continuar com aquilo que haviam construído antes do genocídio, muitos palestinos deslocados na Faixa improvisaram novos ofícios e negócios a partir do que foi deixado para trás, tentando dar continuidade ao que um dia construíram, mas em formas completamente diferentes.
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“Quando fui deslocada, deixei para trás o sonho da minha vida, algo que passei anos construindo, e vim para al-Mawasi, onde não há segurança nem estabilidade”, disse Mughira ao Mondoweiss. Depois de fugir de Rafah para al-Mawasi, Mughira afirma que sua maior preocupação era o que aconteceria com seu negócio.
Ela acompanhava as notícias de sua cidade por meio de imagens de satélite, tentando determinar o que havia acontecido com ele, até que, certo dia, recebeu a confirmação de que havia sido completamente destruído pelo exército israelense, assim como o restante de Rafah.
Depois do choque inicial de perder seu negócio, Mughira começou a procurar uma saída para o sofrimento que havia tomado conta dela. Ela percebeu o que se acumulava ao redor de cada tenda no campo: latas vazias provenientes da ajuda alimentar e recipientes descartados de óleo de cozinha.
“Esses materiais estão disponíveis em todas as tendas, porque cada tenda recebe ajuda e depois joga as latas vazias no lixo”, disse Mughira. “Foi então que tive a ideia de usar essas latas novamente para algo novo e positivo para as pessoas deslocadas.”
“Nós as enchemos de areia e usamos pedaços de madeira como barras improvisadas e levantamos as latas, que se tornaram pesos”, explicou.
Mughira começou a compartilhar sua experiência nas redes sociais e recebeu mensagens de mulheres nos campos contando que haviam reservado uma hora para si mesmas todos os dias para se exercitar e movimentar novamente seus corpos, sem precisar ir a lugar algum ou gastar um dinheiro que não tinham.

Outras mulheres disseram a ela que os exercícios as haviam ajudado a recuperar seu condicionamento físico e sua flexibilidade, tornando mais fácil lidar com as exigências físicas do deslocamento, como carregar água, transportar seus pertences à mão, dormir sobre a areia e lavar roupas.
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Com o tempo, as mulheres começaram a ir pessoalmente até sua tenda para treinar com ela.
Mughira afirma ter descoberto que muitas delas sofriam de doenças ou problemas físicos, incluindo dores musculares causadas por dormir sobre a areia dentro das tendas e pelas tarefas que eram obrigadas a realizar, como lavar roupas à mão e carregar e limpar seus pertences.
‘Eu não tenho escolha’
Ayman Abu Muhareb, de 44 anos, passa seus dias em frente a um forno que sua família construiu com barro e palha perto de um campo de deslocados em Deir al-Balah, no centro de Gaza, assando pão para obter uma pequena renda e sustentar sua família de oito pessoas, incluindo uma filha com uma malformação cardíaca.
“Os médicos me alertaram repetidamente sobre ficar sentado por longas horas em frente à fumaça que sai do forno, porque queimo madeira, plástico e tecido para mantê-lo funcionando”, disse Abu Muhareb ao Mondoweiss. “Comecei esse trabalho há um ano e, desde então, minha saúde e minha condição física se deterioraram visivelmente. Mas não tenho escolha. Preciso trabalhar para levar comida para casa para minha família e cuidar da minha filha doente.”
Antes da guerra, diz Abu Muhareb, ele era dono de um supermercado e vivia com sua família em relativa estabilidade. Desde então, o supermercado foi bombardeado e as mercadorias que restaram foram saqueadas. Seu meio de subsistência foi completamente destruído, obrigando-o a encontrar um trabalho alternativo para alimentar sua família.
“Eu nunca imaginei que um dia trabalharia como padeiro para outras pessoas e famílias deslocadas”, disse. “Mas as circunstâncias me obrigaram a fazer isso, assim como obrigaram muitas pessoas a assumir trabalhos que não lhes servem para atender às suas necessidades diárias.”

Mas, apesar de trabalhar longas horas e ignorar as recomendações dos médicos, ele afirma que ainda há dias em que não consegue fornecer, com esse trabalho, tudo aquilo de que sua família necessita.
Muhareb não é a única pessoa que foi obrigada a exercer uma profissão que não escolheu. Em toda Gaza, mulheres que antes nunca haviam sido as únicas responsáveis pelo sustento de uma família foram subitamente obrigadas a procurar trabalho para sustentar seus familiares, especialmente em lares onde o marido ou o pai havia sido ferido ou morto.
Zeinab al-Najjar, de 50 anos, é mãe de oito filhos. Seu marido foi ferido durante a guerra e ficou confinado a uma cadeira de rodas, deixando-a responsável por sustentar sua grande família por todos os meios possíveis.
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Depois de serem deslocados para a região litorânea de Deir al-Balah, al-Najjar se viu diante de uma enorme responsabilidade. Ela começou a vender tremoços, um lanche comum em Gaza, entre as tendas das famílias deslocadas.
Antes, ela era uma mãe que preparava comida para os filhos e cuidava deles enquanto o marido trabalhava. Agora, os papéis se inverteram, e ela é a responsável por colocar comida na mesa da família.
“O deslocamento obriga as pessoas a mudar seus modos de vida e mudar de profissão”, explicou al-Najjar. “Começo a trabalhar à tarde, quando o calor do sol se torna menos intenso”, disse. “Trabalho por longas horas e, às vezes, retorno à minha tenda depois da meia-noite, quando sei que ganhei o suficiente para cuidar da minha família.”
“Eu não podia ficar sentada e ver meus filhos, especialmente os mais novos, chorarem de fome. Sei que esse trabalho pode não ser adequado para mim, mas não tenho outra escolha. Não estou buscando lucro ou riqueza. Tudo o que quero é alimentar meus filhos, nada mais. É isso que o deslocamento nos obrigou a fazer, dia após dia”, acrescentou.

