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A violência contra a mulher é uma epidemia silenciosa: 2 em cada 3 vítimas sofrem agressões repetidas

A repetição das agressões dentro de casa e o alto número de feminicídios revelam um grave problema de saúde pública, segurança e direitos humanos que exige resposta firme da sociedade e do Estado

A violência contra a mulher continua sendo uma das mais graves violações de direitos humanos no Brasil. Os dados mais recentes, levantados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) para o Atlas da Violência, em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com base nos registros do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, revelam uma realidade dramática. Não se trata de episódios isolados, mas de uma violência permanente, que se repete diariamente, sobretudo no ambiente doméstico.

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Arte ilustrativa – Diálogos do Sul Global

Um dos dados mais alarmantes da pesquisa mostra que dois terços das mulheres atendidas nos serviços de saúde após sofrerem agressões afirmaram que aquela não era a primeira vez que eram vítimas de violência. Em outras palavras, a agressão tornou-se rotina para milhares de brasileiras.

Em 2024, as unidades de saúde atenderam 186.177 mulheres vítimas de violência doméstica. Destas, cerca de 100,8 mil declararam já ter sofrido mais de um episódio de agressão. É a prova de que, em grande parte dos casos, a violência se prolonga no tempo sem que a vítima consiga romper o ciclo do medo, da dependência e da impunidade.

A consequência mais extrema dessa realidade aparece nas estatísticas dos homicídios. Segundo os dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade, 3.642 mulheres foram assassinadas no Brasil em 2024, o equivalente a uma taxa de 3,4 mortes para cada 100 mil mulheres. Entre 2014 e 2024, 46.336 mulheres foram assassinadas no país. Cada número representa uma vida interrompida, uma família destruída e um fracasso coletivo da sociedade e das instituições encarregadas de proteger essas mulheres.

Violência contra a mulher é a maior preocupação dos brasileiros

A violência também tem um evidente recorte racial. Em 2024, 2.457 mulheres negras foram assassinadas, correspondendo a 67,5% de todas as vítimas. A taxa de homicídios entre mulheres negras alcançou cerca de quatro mortes por 100 mil mulheres, aproximadamente 66,7% superior à registrada entre as mulheres não negras, cuja taxa foi de 2,4 por 100 mil. Os dados evidenciam que a desigualdade racial amplia a vulnerabilidade e expõe as mulheres negras a um risco muito maior de morrer vítimas da violência.

Esses números mostram que a violência contra a mulher deixou de ser um problema restrito ao âmbito familiar. Trata-se de um grave problema de saúde pública, segurança pública e direitos humanos. Não basta punir os agressores depois do crime consumado. É indispensável fortalecer as políticas de prevenção, ampliar a rede de acolhimento, garantir proteção efetiva às vítimas e promover uma profunda transformação cultural, capaz de romper com o machismo e a naturalização da violência.

O silêncio diante do estupro também é violência

Em 2026, ano de eleições gerais, esses números devem servir de reflexão para todo o eleitorado. A violência contra as mulheres não será enfrentada apenas com discursos ou campanhas ocasionais. É preciso eleger representantes comprometidos com a defesa da vida, da igualdade e dos direitos humanos, fortalecendo políticas públicas de prevenção, proteção e acolhimento às vítimas.

Também é fundamental ampliar a presença das mulheres nos espaços de poder e decisão. Uma democracia mais representativa, com maior participação feminina nos parlamentos e nos governos, tende a produzir leis e políticas públicas mais sensíveis ao enfrentamento da violência de gênero. Renovar a representação política com esse compromisso é um passo indispensável para construir um país onde nenhuma brasileira tenha de viver sob a ameaça permanente da agressão e do feminicídio.

Uma sociedade que convive com milhares de mulheres agredidas repetidamente dentro de suas próprias casas e com milhares de assassinatos todos os anos não pode considerar essa realidade como algo normal. Defender a vida das mulheres é defender a dignidade humana, a democracia e o direito de todas viverem livres do medo e da violência.

As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

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