Há momentos em que a defesa da soberania nacional ultrapassa as fronteiras ideológicas. Foi o que ocorreu com o editorial do O Estado de S. Paulo, tradicional jornal de orientação conservadora. Ao comentar a carta enviada pelo candidato do PL, Flávio Bolsonaro, ao secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, o jornal fez uma crítica contundente ao conteúdo do documento e às implicações que ele teria para a independência do Brasil.
Segundo a correspondência divulgada pela imprensa, Flávio Bolsonaro pediu ao governo dos Estados Unidos que desistisse da aplicação de tarifas sobre produtos brasileiros e afirmou que, caso seja eleito presidente, colocará sua equipe de transição à disposição das autoridades estadunidenses para discutir um amplo acordo de comércio e investimentos.
Para o Estado de S. Paulo, trata-se de um gesto inaceitável. O editorial considera um acinte admitir que um governo estrangeiro possa participar, ainda que indiretamente, dos trabalhos de uma equipe de transição presidencial.
A transição é um dos momentos mais sensíveis da vida institucional de um país. Nela circulam informações estratégicas e confidenciais sobre defesa, economia, relações exteriores, inteligência, infraestrutura e planejamento governamental. Não há a menor hipótese de que um governo estrangeiro participe desse processo sem que isso represente grave violação da soberania nacional.
O próprio jornal afirma que uma atitude dessa natureza rebaixa o Brasil à condição de colônia. É uma crítica significativa justamente porque parte de um veículo que historicamente defende posições liberais e conservadoras. Quando um jornal com esse perfil considera que a soberania nacional foi aviltada, o episódio deixa de ser uma simples divergência partidária e passa a envolver um princípio permanente do Estado brasileiro.
Leia a carta resposta de Marco Rubio traduzida:

Independentemente das preferências eleitorais de cada cidadão, a defesa da soberania não pode ser relativizada. Governos passam; o Estado brasileiro permanece. Relações diplomáticas e comerciais devem existir com todas as nações, inclusive com os Estados Unidos, mas sempre em bases de respeito mútuo e igualdade entre países soberanos. Nenhuma potência estrangeira pode participar da definição dos rumos de um governo brasileiro antes mesmo da realização das eleições.
Se, antes mesmo de receber o voto popular, um candidato manifesta disposição para compartilhar o processo de transição com um governo estrangeiro, é natural que surjam dúvidas sobre o grau de autonomia que teria no exercício da Presidência. Um presidente da República deve governar em nome do povo brasileiro e dos interesses nacionais, jamais sob qualquer forma de tutela externa. A independência nacional não é um detalhe da política; é um dos fundamentos da República.
Cannabrava | Traição, soberania e eleições
A eleição de outubro, portanto, não será uma mera disputa entre candidatos ou partidos. O que estará em jogo é a própria soberania nacional e a capacidade de o Brasil decidir seu destino sem a tutela de potências estrangeiras.
Não basta reeleger o presidente Lula. Será igualmente necessário eleger uma nova maioria no Congresso Nacional, comprometida com os interesses do país, com a defesa da soberania, do desenvolvimento e da democracia. Sem uma mudança na correlação de forças do Legislativo, qualquer projeto nacional continuará submetido aos bloqueios de uma maioria que, em momentos decisivos, tem colocado interesses alheios acima dos interesses do povo brasileiro.
As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

