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Ditadura argentina usou operação clandestina para negar genocídio e perseguir jornalistas, revelam arquivos

Entre o material revelado aparece a publicação, em 1978, de um texto escrito pela própria central de inteligência, em plena ditadura argentina, para denunciar uma “campanha de desprestígio” internacional.

O mais destacado dessas novas revelações é a comprovação de que foi a própria SIDE que se encarregou da produção de Argentina e seus direitos humanos, um livro por meio do qual, a partir da fachada da fictícia Associação Patriótica Argentina, denunciava-se essa campanha.

A elaboração da obra foi ordenada pelo departamento de “Interior” como parte do denominado “Operativo Editorial”.

UM LIVRO PARA INTIMIDAR O MUNDO

Derechos Humanos En Argentina 2016O livro foi publicado em espanhol, inglês e francês, e contou com uma tiragem superior a 20 mil exemplares.

O volume inclui ameaças explícitas, fotos dos necrotérios policiais com vítimas desfiguradas das forças de segurança, assim como intimidações a um amplo espectro de governos e organizações de direitos humanos, tanto no país como no exterior.

São imagens cruas, sem filtro, com o único objetivo de impactar o leitor, de horrorizá-lo. Também foram publicadas, em suas páginas, as fotos e até os endereços em Buenos Aires dos representantes do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, Rolf Jenny, Teresa Muñoz e Romaine Tissiere, assim como de vários de seus colaboradores.

O material foi destinado principalmente às embaixadas argentinas no exterior, para advertir “outras nações do mundo” sobre “aqueles que usam o terrorismo para instaurar governos adeptos às ideologias marxistas”.

Mas também tinha um objetivo interno: intimidar os correspondentes de jornais e agências de notícias que desafiavam as proibições de relatar os crimes, identificar as organizações às quais pertenciam as vítimas e denunciar a “lei de fugas”, que era disfarçada como “enfrentamentos”.

O texto, como revelam os arquivos, também era filtrado deliberadamente entre os correspondentes estrangeiros que, “por estarem identificados com o marxismo ou porque lhes pagam abundantes dólares, constituem o meio mais eficaz para lograr uma rápida e muito ampla divulgação de narrativas dirigidas a apresentar no exterior a imagem de uma Argentina selvagem, sanguinária, desumana”.

O VERDADEIRO TERROR QUE O LIVRO TENTAVA OCULTAR

Para entender o desespero da ditadura ao escrever esse manual, é necessário lembrar como era informar a partir de Buenos Aires naqueles anos.

A censura imposta pela Junta Militar era total. As máquinas de telex das agências nacionais, como a Télam ou a Notícias Argentinas (NA), só divulgavam a informação oficial e ignoravam sistematicamente as ações da crescente resistência civil, operária e estudantil, assim como os testemunhos das Mães e dos organismos de direitos humanos.

Nesse contexto, agências estrangeiras como a cubana Prensa Latina tornaram-se um farol de denúncia do genocídio. Eu trabalhei em sua sucursal em Buenos Aires. Entre abril e junho de 1976, comecei no escritório 96 do nono andar do edifício Sáfico, na Avenida Corrientes, 456, no centro de Buenos Aires.

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Mergulhávamos no horror de elaborar panoramas matutinos e vespertinos com um “balanço” de mortes que surgiam dos comunicados oficiais, os quais falavam de supostos “abatidos em enfrentamentos”. A rigor, era uma cruel soma dos militantes político-militares assassinados pelos grupos de tarefa das Forças Armadas.

Embora a ditadura tivesse proibido publicar os nomes das organizações político-militares — exigindo referir-se a elas como “o bando de delinquentes subversivos declarado ilegal em primeiro lugar”, para o Exército Revolucionário do Povo, e “em segundo lugar”, para os Montoneros —, na Prensa Latina nunca acatamos essa ordem.

AMEAÇAS CONCRETAS, COLEGAS CAÍDOS

A repressão tentou silenciar-nos. Todos os jornalistas da agência recebíamos ameaças diárias. Interceptavam a linha do teletipo a partir de um andar controlado pela Marinha no Correio Central e nos faziam chegar ligações apavorantes, em meu caso com as vozes de meus companheiros de militância torturados.

Essa intimidação teve consequências concretas: sofremos ações diretas, vários foram sequestrados, alguns foram resgatados de seus captores e outros foram assassinados.

Nesse contexto de terror, um momento fundamental foi a divulgação da carta de Rodolfo Walsh à Junta Militar por meio da Prensa Latina, missão que tive a oportunidade de levar a cabo. Foi um ato de resistência pura, uma maneira de dizer ao mundo que, apesar da escuridão, a verdade e a resistência popular encontravam uma saída.

A VERDADE, POR FIM, DESCLASSIFICA A MENTIRA

Quatro décadas depois, esses mesmos arquivos que a ditadura usou para negar e ameaçar vêm agora à luz.

O livro Argentina e seus direitos humanos já não é uma arma de intimidação, mas uma prova documental do terror. Aqueles que, na época, informamos apesar de tudo, podemos hoje ler essas páginas como o que foram: o retrato invertido de um genocídio que tentaram ocultar sob a aparência de uma argumentação jurídica.

A operação de propaganda que a SIDE projetou em três idiomas choca-se, no entanto, com um presente inquietante.

Enquanto esses arquivos são desclassificados oficialmente, no governo de Javier Milei multiplicaram-se as declarações e os gestos que reivindicam abertamente a ditadura militar, minimizam seus crimes ou falam de “excessos” dentro de um suposto “combate contra a subversão”.

O livro da SIDE e a desclassificação convivem assim em uma tensão contraditória: por um lado, abre-se a verdade; por outro, tenta-se reabilitar seus autores.

Mas a mentira, por mais que tenha sido publicada em três idiomas e com uma tiragem de 20 mil exemplares, não pôde se impor aos fatos na época, nem pode agora. A verdade, no fim, desclassifica a mentira.

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