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“Não nos venceram”: morre Taty Almeida, Mãe da Praça de Maio que procurou Alejandro por 50 anos

A última coisa que Taty Almeida o ouviu dizer foi: “mamãe, já volto”. Ela olhou o relógio e esbravejou porque estava prestes a servir a comida. Alejandro saiu. E nunca mais voltou. Naquele 17 de junho de 1975 começou uma busca desesperada pelo filho que lhe haviam arrebatado.

Uma busca de quase 51 anos que a levou a bater às portas dos militares mais poderosos e a reivindicar sempre “justiça legal”, como gostava de dizer.

Aos 95 anos, morreu Taty Almeida, presidenta das Mães da Praça de Maio-Linha Fundadora e referência incontestável do movimento de direitos humanos.

Partiu sem realizar o que mais desejava — acariciar os ossos de seu filho —, mas sem deixar de militar um único dia pela vida.

Quem foi Taty Almeida

Lydia Estela Mercedes Miy Uranga nasceu em 28 de junho de 1930. Chamavam-na de “Taty”. Seu pai, que se aposentou com a patente de tenente-coronel, integrava a arma de cavalaria; sua mãe era dona de casa. A família, por causa dos destinos militares do pai, viveu em várias cidades do interior até se estabelecer na esquina das ruas Lacroze e Cabildo, em pleno bairro de Belgrano.

Em sua casa, não simpatizavam com o peronismo. As irmãs se casaram com integrantes da Força Aérea. Seu irmão Carlos chegou a ser coronel do Exército.

Em Buenos Aires, Taty se formou professora e, aos 21 anos, se casou com Jorge Almeida, que também vinha de uma família de militares.

Um acidente o afastou das Forças Armadas, e ele passou a trabalhar como despachante aduaneiro. Com Jorge, teve três filhos: Jorge Martín, em 1953; Alejandro Martín, em 1955; e María Fabiana, em 1956.

O casamento durou até 1970. Então, Taty conversou com os filhos e disse que iria se divorciar.

Pediu que arrumassem trabalho e concluíssem os estudos à noite. Ela começou a trabalhar como secretária em um consultório. Complementava a renda fazendo pesquisas: era uma boa opção porque adorava conversar com as pessoas.

Taty conseguiu emprego para Alejandro na agência de notícias argentina, Télam. Um de seus cunhados era o interventor da ditadura da Revolução Argentina.

A busca por Alejandro

Alejandro não hesitou em organizar protestos contra o próprio tio. Com a credencial de jornalista, pôde realizar um sonho: entrar em um show de Joan Manuel Serrat, aproximar-se dele e lhe entregar uma das pulseiras que fabricava.

Em 1974, Alejandro começou a trabalhar no Instituto Geográfico Militar. Na época, estudava medicina na Universidade de Buenos Aires (UBA) e militava no Partido Revolucionário dos Trabalhadores-Exército Revolucionário do Povo (PRT-ERP).

— Esta gorilinha de merda… Mesmo assim, eu a amo tanto — dizia à mãe enquanto a abraçava.

Quando Alejandro foi desaparecido, Taty começou sua peregrinação. Foi bater às portas de militares conhecidos: Orlando Ramón Agosti, Leopoldo Fortunato Galtieri, Albano Harguindeguy e Ramón Camps, entre outros.

Em 24 de março de 1976, ela alimentou certa esperança. Pensou que, com a chegada dos militares — conhecidos de sua família —, conseguiria alguma resposta. Nada disso aconteceu. Demorou a se somar às Mães da Praça de Maio. Temia que a considerassem uma espiã por causa de seu entorno familiar.

Tomou coragem e se aproximou da Casa das Mães, que ficava na rua Lavalle. A primeira coisa que viu foi a parede repleta dos rostos dos desaparecidos. Pela primeira vez, sentiu que a tragédia que vivia desde junho de 1975 não afetava apenas a ela.

Foi atendida por María Adela Gard de Antokoletz, então vice-presidenta da associação.

— Quem falta para você? — perguntou María Adela.

Taty fez catarse. Chorou, praguejou e, por fim, irritou-se consigo mesma.

— Não, minha filhinha — repreendeu-a com carinho María Adela. — Cada Mãe tem seu momento, e este é o seu.

Busca por resposta

Em setembro de 1979, fez fila na Avenida de Maio para denunciar o desaparecimento de Alejandro à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).

Em 10 de dezembro de 1983, voltou a pendurar a bandeira argentina em sua casa. Estava esperançosa com a democracia.

Embora as Mães defendessem a criação de uma comissão bicameral, ela não hesitou em relatar seu caso à Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Conadep). “Se me dizem que há um bruxo aqui na esquina com dados sobre Alejandro, eu vou”, argumentou na época.

Taty Almeida
Taty Almeida, presidenta das Mães da Praça de Maio – linha fundadora

Dentro do movimento de direitos humanos, Taty foi uma das vozes que ajudaram a consolidar a compreensão de que a repressão estatal não havia começado em 24 de março de 1976. Afinal, ela própria havia sido atingida nove meses antes.

“Eu me sinto parida por Alejandro. Ele me tirou daquela bolha em que vivi a vida toda. E tenho muito orgulho de que tenha sido ele quem me pariu. Eu era uma gorila fatal. Depilei-me. Tudo isso aconteceu depois do que fizeram com meu filho”, declarou em entrevista ao Arquivo Oral da Memória Aberta.

“É mentira isso que dizem, que o tempo cura as feridas — continuou. — Eu sinto cada vez mais falta dele. Queria ter nem que fosse um ossinho de Alejandro.”

Uma despedida

Taty não sabia que Alejandro escrevia poesias. Encontrou os textos em uma agenda depois do sequestro.

“Se a morte me surpreender longe do teu ventre, porque para você nós três continuamos nele, se me surpreender longe das tuas carícias que tanta falta me fazem, se a morte me abraçar forte como recompensa por ter querido a liberdade, e teus abraços então apenas envolverem lembranças, prantos e conselhos que não quis seguir, gostaria de te dizer, mamãe, que parte do que fui você vai encontrar em meus companheiros. No encontro de controle, o último, eles levaram, os caídos, nossos caídos, meu controle, nosso controle está no céu, e está nos esperando. Se a morte me surpreender dessa forma tão amarga, mas honesta, se não me der tempo para um último grito desesperado e sincero, deixarei o alento, o último alento, para dizer: te amo.”

Comoveu-a profundamente descobrir que Alejandro, aos 20 anos, sabia que iria morrer e se despedia dela.

Ao longo dos anos, Taty cumpriu o que o filho escrevera: foi encontrando parte do que Alejandro foi em seus companheiros. Por meio deles, soube de sua militância no Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT). Costumava recordar com humor que certa vez viu uma estrela de cinco pontas e perguntou ao filho se era a estrela de David — totalmente alheia à militância socialista que ele abraçava.

Com mais tristeza, contava outra história. Quando visitou seu filho Jorge na Espanha e os dois viajaram ao Marrocos, ela abaixava as chilabas dos homens que cobriam a cabeça para verificar se algum deles era Alejandro. Nunca perdeu a esperança de voltar a abraçá-lo.

Não conseguiu encontrar os restos mortais do filho, como tanto desejava. Tampouco soube o que fizeram com ele após o sequestro. Durante todas essas décadas, continuou vivendo no apartamento de Palermo de onde o viu partir para nunca mais voltar.

Defender a alegria como trincheira

Desde 2024, Taty presidia as Mães da Praça de Maio-Linha Fundadora. Nessa condição, visitou Cristina Fernández de Kirchner em sua prisão domiciliar. Foi o rosto e o motor da mesa de organismos de direitos humanos que organizou a mobilização massiva de 24 de março deste ano, quando se completaram 50 anos do início da ditadura.

Nem a tristeza nem a derrota estiveram ligadas ao seu nome. Repetia “não nos venceram” como um mantra. Gostava da companhia e das boas conversas, como demonstrava em cada edição de ¿Qué me contás?, da AM750.

Compartilhava o programa com “Charly” Pisoni e Paula Maroni, ambos integrantes da organização H.I.J.O.S. Para ela, era muito importante saber que as Mães haviam passado o bastão da luta por Memória, Verdade e Justiça.

Em abril deste ano, celebrou e chorou quando a Universidade de Buenos Aires (UBA) a distinguiu com o título de honoris causa, recebido cercada pela filha Fabiana e pelos netos.

“Mostramos a Javier Milei que a resistência continua”, comemorou.

Cada vez que recebia um reconhecimento, imaginava Alejandro olhando para ela e rindo: “Olha no que se transformou a gorilinha”. Tinha a tranquilidade de saber que o filho estaria orgulhoso de tudo o que ela fez — por ele e por tantos outros.

“Gostaria que me lembrassem com meu caráter — rabugenta —, com minhas discussões e com essa alegria de viver. E que essa alegria fosse compartilhada com quem está abatido por qualquer motivo”, disse na entrevista com a qual o Página/12 inaugurou seu ciclo de conversas pelos 50 anos do último golpe de Estado.

Taty estava internada havia quase três semanas no Hospital Italiano. No sábado (13), estivera animada. Tanto que se maquiou e posou para algumas fotos. Também reservou um tempo para enviar uma mensagem ao jornal Página/12 pedindo a divulgação de uma atividade sobre os 71 anos dos bombardeios da Praça de Maio. Ela, a “gorila depilada”, como gostava de brincar.

“Lutadora incansável que honrou a vida”, despediu-se Cristina Fernández de Kirchner no X (ex-Twitter).

“Querida Taty, onde quer que você esteja, com seu filho Alejandro, descansando enfim em paz, queremos lhe dizer que aqui as loucas seguimos de pé, e somos milhões”, afirmaram suas amigas das Avós da Praça de Maio em comunicado.

“Obrigada por nos ensinar que amar é resistir, que a única luta que se perde é a que se abandona e que não existe força maior que a do amor”, escreveram suas companheiras da Linha Fundadora nas redes sociais.

Sua partida deixa uma ferida profunda no movimento de direitos humanos e em uma ampla parcela da sociedade que não esquece seus desaparecidos nem perdoa os responsáveis pelos crimes da ditadura. Em cada marcha, o vozeirão de Taty seguirá gritando que os 30 mil desaparecidos estão presentes. Como ela.

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