Após mais de um mês do início dos protestos na Bolívia, o conflito político e social continua se aprofundando. Enquanto os bloqueios se expandem para diferentes regiões do país e as reivindicações começam a se unificar em torno da renúncia do presidente Rodrigo Paz, setores mobilizados denunciam perseguição, crescente militarização e um cenário de forte tensão no Chapare.
Nesta entrevista, o analista Rafael Bautista Segales refletiu sobre o papel do movimento indígena-camponês e o papel “nefasto” desempenhado pelo Poder Judiciário, pelas Forças Armadas e pelos grandes meios de comunicação na atual conjuntura crítica, que responde a uma severa crise econômica, marcada pela inflação e pela escassez, combinada com a rejeição às recentes políticas de livre mercado impulsionadas pelo governo do presidente Rodrigo Paz.
Ao mesmo tempo, Rafael Bautista Segales advertiu que as alas mais radicais da política externa de Washington vão dar “rédea solta a aventureiras políticas de sobrevivência no acesso aos recursos estratégicos dos países latino-americanos”.
“Agora a disputa será pela base energética, no novo tabuleiro multipolar que inevitavelmente se abre diante da implosão e decadência do mundo unipolar.”
Disse que estariam incentivando os capitais, sobretudo os fundos de investimento na América do Sul, ao enfrentamento transfronteiriço entre nossos países, o que inevitavelmente levaria a uma “proto-balcânização”, que seria a imagem desta transição civilizatória. “Esta transição estaria amanhecendo com um banho de sangue em nossa região para que o império em decadência tenha acesso irrestrito a todos os nossos recursos estratégicos.”
PIT.CNT: Qual é a situação atual dos protestos populares na Bolívia após um mês de mobilizações?

Rafael Bautista Segales: Trata-se de protestos populares surgidos do movimento molecular das bases, sobretudo porque, desde a dissolução do Movimento ao Socialismo (MAS), não existe na Bolívia uma entidade ou partido que aglutine e concentre as mobilizações.
Portanto, isso pode ser comparado ao que ocorreu em 2019: uma autoconvocação das bases que, de maneira até improvisada e espontânea, no calor da conjuntura atual, se auto-organizam, prescindindo inclusive de suas próprias lideranças, que em alguns casos chegam a ser desconhecidas pelas bases devido a certas aproximações que algumas delas demonstraram com o governo central.
Pode-se dizer que, após um mês de mobilizações, elas não apenas não foram interrompidas, como cresceram. Mais setores e mais regiões se somaram, inclusive porque inicialmente o conflito estava concentrado em La Paz e no departamento de La Paz.
Agora, mais regiões estão aderindo aos bloqueios de estradas, sobretudo porque o governo já tem facilidade para impor um estado de exceção sem restrições, depois que o Parlamento revogou a chamada Lei Eva Copa, que impunha limites ao uso do estado de exceção.
Assim, as mobilizações foram crescendo e todas estão se concentrando em um único ponto inegociável: a renúncia do presidente Rodrigo Paz.
Qual é o papel da Central Operária Boliviana neste movimento de protesto?
A Central Operária Boliviana conserva um prestígio simbólico, mas desde o surgimento do Pacto Dignidade teve de se posicionar em um plano horizontal diante do aparecimento de novas formas de organização, baseadas sobretudo na recuperação de formas moleculares de organização camponesa, como o ayllu e a comunidade. Por isso, pode-se dizer que o que hoje sustenta essas mobilizações já não é tanto a Central Operária Boliviana — cuja direção histórica esteve nas mãos do setor mineiro —, mas sim um novo sujeito emergente: o movimento camponês, indígena e originário.
Assim, à frente destes protestos está o setor rural, não tendo como sujeito protagonista o proletariado, mas principalmente o indígena e o campesinato, que conservam em sua memória histórica, desde 1780, a experiência do cerco às cidades.
Esse cenário está começando a ser reativado, sobretudo em La Paz, onde mais se sente o impacto dos bloqueios, que impedem a entrada de mercadorias e produtos do campo para a cidade, provocando o desabastecimento de itens básicos da cesta familiar.
Em definitiva, o papel da Central Operária Boliviana diminuiu consideravelmente e, se é possível falar de uma vanguarda nesta nova mobilização — ainda que de maneira relativa —, ela corresponde ao movimento indígena-camponês, não no nível das lideranças, mas a partir das bases moleculares de auto-organização do que em 2019 foi denominado “os autoconvocados”.
Por onde passam os objetivos centrais e as reivindicações?
Como já dizia, o objetivo foi se concentrando na renúncia do presidente, porque os setores mobilizados consideram que se trata de uma figura que não apenas descumpriu suas promessas de campanha eleitoral, mas que além disso incorre constantemente em contradições e declarações falsas, mentiras compulsivas, ao estilo de Donald Trump. Também promove de forma sub-reptícia a confrontação e carece de capacidade de consenso e de vocação para o diálogo.
Por isso, as demandas que inicialmente cada setor apresentava separadamente foram se unificando em uma única reivindicação: a renúncia do Presidente. Isso implicaria seu afastamento do governo ou, eventualmente, a convocação de novas eleições com a posse do vice-presidente, que também foi menosprezado pelo próprio mandatário, afastado do gabinete e privado de atribuições que lhe são concedidas pela Constituição Política do Estado.
Então, pode-se dizer que o objetivo central está concentrado na saída do presidente, porque ele já não é considerado uma figura crível. Alguém que constantemente se contradiz, que não demonstra lucidez nem abertura diante do que está acontecendo e que, inclusive em seus discursos, parece desconhecer ou mentir abertamente sobre a realidade do país. Isso se reflete especialmente em suas declarações à imprensa estrangeira, nas quais afirma que a situação na Bolívia está sob controle e que o conflito não reveste gravidade, quando na realidade está crescendo.
Qual é a situação atual de Evo Morales?
Neste momento, o que está acontecendo — e por isso nós também estamos em alerta — é que existe o temor de que, caso seja decretado um estado de exceção, ele seja aplicado com uma dureza sem precedentes. Inclusive circulam rumores sobre uma possível entrada de tropas estadunidenses no Chapare, onde se encontra Evo Morales, e sobre a eventual preparação de uma operação semelhante à que ocorreu com o presidente da Venezuela, ou seja, de sequestro de Evo Morales.
Está chegando informação de que houve cortes de energia em toda a região tropical de Cochabamba, que há dois mortos em áreas como Lauca Ñ e cinco desaparecidos, e que todo esse setor permanece praticamente isolado do restante do país. Também sustentam que situações semelhantes poderiam se repetir em outros focos do conflito que está se disseminando, como ocorre em La Paz.
A isso se soma a perseguição realizada por meio de plataformas digitais contra aqueles que temos nossas trincheiras de luta nas redes sociais; também começa a ser percebido um certo tipo de intimidação.
O que parece estar sendo planejado é o sequestro de Evo Morales, o que não será possível porque os camponeses daquela região têm seus próprios métodos de luta e resistência e não apenas conhecem bem o terreno, porque é o seu território, mas também desenvolveram formas de atuação que aprenderam ao longo do tempo, já que a DEA e o Exército estiveram presentes naquela região durante bastante tempo. Eles têm maneiras de escapar da perseguição e da vigilância exercidas por essas entidades.
Agora, também é possível que ativem, como ocorreu no caso da Venezuela, outro tipo de tecnologia para alcançar um objetivo central, que seria a extradição de Evo Morales, o que também pode ser uma das possibilidades que estejam considerando. Mas, reitero, como os cocaleiros da região tropical de Cochabamba possuem uma organização muito madura, se tentarem fazer algo, haverá derramamento de sangue.
Aí se iniciaria um perigoso foco de desestabilização e de uma embrionária guerra civil, porque Evo é considerado ali um líder insubstituível, e muitas pessoas estão dispostas a dar a vida por ele; o protegem e cuidam dele porque, basicamente, para os cocaleiros e também para outros setores do campesinato, Evo representa o indígena transformado em poder político, e isso dificilmente poderá ser deslocado.
Portanto, a situação é preocupante, porque desencadearia uma escalada do conflito a níveis que já seriam incontroláveis.
Que papel desempenham hoje o Poder Judiciário, as Forças Armadas e os grandes meios de comunicação?
Eles desempenham um papel nefasto, porque basicamente estamos falando dos poderes fáticos que, no âmbito do Estado, sempre resistiram à transformação do modelo republicano em Estado Plurinacional. E nunca foi realizado um processo de descolonização das Forças Armadas e da Polícia Boliviana, algo ao qual tampouco a presidência de Evo Morales deu a devida atenção.
Podemos falar, sim, de entidades e instituições profundamente hierárquicas e racializadas; podemos citar as Forças Armadas e a Polícia Nacional, onde deveria ter sido realizado um processo de descolonização, mas isso nunca lhes interessou e, simplesmente, como de costume, o poder político acreditou que bastava comprar sua vontade e, assim, assegurar sua fidelidade, o que foi um péssimo cálculo político.
Os grandes meios de comunicação respondem a poderes como a agroindústria, a banca privada e setores que, corporativamente, nunca viram com bons olhos um processo de democratização do poder econômico e político na Bolívia.
E o Poder Judiciário é basicamente o núcleo das corporações profissionais “meritocráticas”, que se sustentam na racialização da classificação social para manter seus privilégios. Por isso suportaram o governo de Evo, mas nunca o aceitaram de fato.
Quando o Movimento ao Socialismo (MAS) desapareceu do mapa político, esse Poder Judiciário passou a atuar com crueldade e até com revanchismo para se livrar de tudo aquilo que significou a presença indígena como parte do poder político em uma Bolívia plurinacional. Podemos dizer que os papéis desempenhados por esses três poderes são nefastos.
Qual foi o papel da Casa Branca e dos Estados Unidos no saque dos recursos naturais da Bolívia nas últimas décadas e o que Evo Morales conseguiu?
É a mesma história de sempre, que não é apenas o caso boliviano, mas, sem ir muito longe, o caso regional. Tem a ver com chamar esta região de influência norte-americana de “quintal dos fundos”, e isso não é um mero simbolismo.
As alas mais conservadoras de Washington veem a América do Sul, a América Latina em geral, como sua reserva, como seu “backyard”. Agora, por exemplo, acaba de ser divulgada uma notícia segundo a qual não é apenas o lítio boliviano que despertou o interesse de entidades corporativas, fundos de investimento e até de personagens como Elon Musk e sua empresa Tesla, mas também as terras raras e a existência de urânio na Bolívia. Ou seja, aqui entra em jogo o fato geopolítico global.
Se os Estados Unidos perderem o controle do Estreito de Ormuz, por onde passa 20% da distribuição mundial de petróleo, então teriam de contar com outro tipo de reservas que lhes permitam influenciar o preço internacional, os índices Brent e West Texas, para decidir, na arena energética global, o preço — que é basicamente o cerne da questão —, mantendo a capacidade não apenas de produção, mas também de distribuição dos recursos energéticos, neste caso dos hidrocarbonetos.
Então, se perderem o Irã, e com isso também perderiam toda a região devido aos conflitos que já desencadearam e à desconfiança que a presença norte-americana despertou em seus países aliados, como os Emirados Árabes, o Kuwait, a Arábia Saudita, entre outros. Então, precisam voltar o olhar para o seu “quintal dos fundos”. E aqui precisam se apropriar da maior quantidade possível de riquezas para alcançar aquilo que, na geopolítica, se chama de “equilíbrio estratégico”, não para equilibrar nada, mas para obter vantagens estratégicas sobre as outras duas potências, que são os pilares do BRICS: a Federação Russa e a China.
Dificilmente irão ceder e, por isso, criaram o Escudo das Américas com os governos dóceis que têm à sua disposição, os quais se reuniram em Washington. E Trump, sem qualquer consideração, demonstrou que realmente são presidentes de caráter servil, dispostos, por questões de sobrevivência política, a se submeter às exigências que Washington necessita em todos os aspectos.
A América do Sul está em disputa, mas isso tem relação com aquilo que dizia Laura Richardson, ex-chefe do Comando Sul: o interesse que a América do Sul desperta para eles não é a América do Sul como continente, nem como espaço dos Estados sul-americanos ou de seus povos. Não. O que lhes interessa são as riquezas ou os recursos estratégicos. Mais do que isso, se tiverem de nos apagar do mapa, farão isso.
Também existe um planejamento que já podemos começar a vislumbrar de uma ampliação da operação Gaza para a América do Sul. Por isso venho insistindo que tudo aquilo para o qual nos conduz esse manejo discricionário que Washington exerce sobre a política interna de nossos países, mas por meios intervencionistas demasiadamente explícitos, na Argentina, no Equador e agora na Bolívia, poderia estar apontando para uma balcanização ou uma proto-balcânização da América do Sul. E não apenas porque um país dividido é mais fácil de dominar, mas porque isso representa uma feudalização.
As corporações e os fundos de investimento seriam basicamente os proprietários de entidades de criação recente e estas não teriam outra alternativa senão capitular qualquer resquício de soberania que pudessem aspirar a possuir.
A situação é perigosa, e deixar nossos países sem o uso soberano de nossos próprios recursos é nos condenar à dívida infinita, algo que já está sendo feito na Argentina. Essa é, basicamente, a impossibilidade fática que estariam buscando alcançar ao desenhar uma política de expansão extensiva da tendência exponencial que já aplicaram em Gaza, no Iraque, na Líbia, agora também na Síria, e que estariam procurando implementar igualmente na América do Sul.
Hoje, a Patagônia basicamente já pertence a capitais que não são argentinos e cuja importância, além de estratégica, reside no fato de fazer fronteira ao sul com a Antártida, um novo reservatório global de recursos estratégicos, do petróleo offshore nas Malvinas e da água da Cordilheira dos Andes.
Estamos em uma situação em que as alas mais radicais da política externa de Washington vão dar rédea solta até mesmo a arriscadas políticas de sobrevivência para garantir acesso aos recursos estratégicos de nossos países. Agora, a disputa será basicamente pela base energética no novo tabuleiro multipolar que inevitavelmente se abre diante da implosão e decadência do mundo unipolar.
Há certos analistas chilenos que não consideram improvável o uso militar para se apropriar dos recursos existentes na Argentina, em Vaca Muerta, porque o Chile não possui petróleo nem gás.
Por questões de sobrevivência, a luta tornou-se existencial, porque o mundo está sendo completamente redesenhado em um novo tabuleiro geopolítico, e os países precisam encontrar a melhor forma possível de ingressar nessa nova arena global; e, se não dispuserem de uma base energética, será impossível uma inserção soberana.
Estariam incentivando os capitais, sobretudo os fundos de investimento na América do Sul, ao enfrentamento transfronteiriço entre nossos países e, inevitavelmente, isso levaria a uma proto-balcânização, que seria a imagem desta transição civilizatória em nossa região. Esta transição estaria amanhecendo com um banho de sangue em nossa região para que o império em decadência tenha acesso irrestrito a todos os nossos recursos estratégicos.

