o-marxismo-de-john-reed,-jornalista,-escritor-e-militante-socialista

O marxismo de John Reed, Jornalista, escritor e militante socialista

John Silas Reed nasceu no Óregon, Noroeste dos Estados Unidos, filho de Charles Jerome Reed e Margaret Green Reed. Com a mãe, aprendeu a ler ainda na infância.

reed1
.

Em 1906, mudou-se para Cambridge, no estado de Massachusetts, para estudar Jornalismo na Universidade de Harvard, onde se formou em 1910. Nessa cidade, John conheceu Walter Lippmann e Charles Townsend Copeland. Sob a influência do primeiro, participou do Clube Socialista de Harvard; com o segundo, então professor em Harvard, aprendeu técnicas de composição em inglês e assimilou a importância de escrever em uma linguagem comum, para melhor expor as circunstâncias da realidade e observar a beleza escondida do mundo sensível. Em Harvard, teve também suas primeiras experiências com jornais e revistas; por volta de 1910, escreveu para o Lampoon e para o Harvard Monthly, nos quais publicou seus primeiros poemas e textos em prosa romântica.

Após a faculdade, em 1911, foi viver na cidade de Nova Iorque. Como muitos jovens imaginativos, sonhadores e impetuosos do turbulento começo do século XX, John desejava escrever poesia; essa vontade era resultado da combinação singular de um aluno mediano com a de um leitor infatigável de romances e de grandes escritores como Walter Scott e Thomas Malory. Mas a vida o levaria por caminhos distintos: o de jornalista internacional e militante socialista.

Em 1913, em Nova Iorque, John Reed teve uma de suas mais importantes experiências intelectuais e profissionais, que o formariam como jornalista comprometido com as causas populares: por indicação de Lincoln Steffens, amigo de sua família, foi contratado como repórter da Metropolitan Magazine. Nesse período, presenciou a greve do setor têxtil em Paterson, Nova Jersey. Em sua quase autobiografia, Almost thirty [Quase trinta], publicada nos anos 1930, diria sobre o período: “eu soube então, e não foi pelos livros, como os trabalhadores produzem toda a riqueza do mundo, e que esta vai para aqueles que nada fazem para merecê-la”.

Trabalhando para a Metropolitan Magazine, Reed acompanhou de perto a Revolução Mexicana. Chegando ao México pelo Texas, atravessou a fronteira, encontrou as tropas revolucionárias da Divisão Norte e conheceu o general Francisco Villa, com quem diz que “sobreviveu a batalhas sangrentas, bebeu, dançou” e escreveu um de seus livros mais importantes, México insurgente (publicado em 1914).

Quando regressou a Nova Iorque, relatou as batalhas de Pancho Villa e de seus companheiros rebeldes. Ainda em 1913, o jovem jornalista viajou pela primeira vez à Europa para encontrar-se, em Nápoles, com Mabel Dodge, estadunidense envolvida com o mundo das artes, de quem foi amante. Logo, o casal seguiu viagem para a França, retornando depois à Itália.

No ano seguinte, estourou a Primeira Guerra Mundial. O conflito instigou Reed, que estava pronto para cobri-lo. Porém, por ser frequentador do bar do Hotel Ritz, em Paris, ambiente que reunia escritores e artistas famosos, preferiram mantê-lo ali, negando-lhe a tarefa. Ele então, junto ao correspondente do New York Evening Post, Robert Dunn, obteve um visto médico, podendo viajar para Nice, em setembro de 1914. Em dezembro, seguiu para Berlim, onde conseguiu entrevistar Karl Liebknecht, líder da ala revolucionária do Partido Social-Democrata Alemão, que havia votado contra os créditos de guerra no parlamento alemão.

Sua experiência da guerra aprofundou-se quando, em janeiro de 1915, foi à frente de batalha de Ypres, na Bélgica, onde, ao lado de Robert Dunn, presenciou os horrores das trincheiras e viu os corpos de soldados franceses mortos. Outro episódio marcante ocorreu nesse mesmo ano, também na região de Ypres, quando, acompanhado por um oficial e por Dunn, Reed chegou a manusear um fuzil e disparar na direção inimiga — gesto breve, mas que o perturbou, ao expor a ambiguidade de seu papel como correspondente de guerra, no qual a linha entre observar e participar podia ser tênue.

Além disso, o fato teve consequências para sua carreira no jornalismo: ao receber a informação da ocorrência, o New York Evening Post comunicou que ele não poderia mais entrar na Europa pela França. Mais tarde, portanto, John Reed, junto ao ilustrador Boardman Robinson, que passou a acompanhá-lo, teria de ingressar no continente pela sua porção oriental sempre que precisasse retornar para dar continuidade à cobertura.

Enquanto a experiência da Revolução Mexicana despertou em Reed a paixão pelas causas populares, a Primeira Guerra Mundial o levou a nutrir sentimentos de ódio pela guerra e desprezo pelos governantes, entendendo que todos, igualmente, utilizavam a classe trabalhadora no conflito para a obtenção de benefícios próprios.

Ainda em 1915, John Reed voltou para Nova Iorque. Na cidade, tentou reatar sua relação com Mabel Dodge, que naquele momento vivia afastada de seu novo universo político. Instável emocionalmente, Reed retomou a escrita de poesia. No período, escreveu também textos importantes para o jornal The Masses [As Massas], com destaque para o conto “Daughter of the Revolution” [“A filha da Revolução”], de fevereiro de 1915, mais tarde publicado em coletânea póstuma; e para o artigo “The worst thing in Europe” [“A pior coisa da Europa”], de março do mesmo ano.

Antes da grande aventura de sua vida — a cobertura e o relato da Revolução Bolchevique —, Reed viajou brevemente à Europa Oriental, onde, em fevereiro de 1916, escreveu o artigo The world well lost [O mundo bem perdido]. No texto, descreveu a experiência de um socialista sérvio que, após a Primeira Guerra Mundial e decepcionado com a atuação dos social-democratas, não acreditava mais nas possibilidades de reformas.

Entretanto, foi no relato das glórias da Revolução Russa que John Silas Reed se tornaria um dos grandes nomes da história do marxismo e do movimento comunista. Já tendo como companheira a ativista feminista e escritora Louise Bryant — que conhecera durante um intervalo do trabalho de campo, quando vivia em Nova Iorque —, Reed chegou à Rússia em setembro de 1917.

Louise havia sido casada com um dentista novaiorquino chamado Paul Trullinger, mas envolveu-se com Reed, com quem se identificava pelo espírito rebelde e imaginativo, colaborando com os jornais anarquistas dirigidos por Alexander Berkman e Emma Goldman, respectivamente, o Blast e o Mother Earth.

Esses anos de 1916 e 1917, ao lado de Louise, foram permeados pela boemia e por projetos artísticos, além da ruptura com Walter Lippmann. À época, Reed, que conquistava reputação nacional como jornalista, opôs-se à entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial, o que o levou a diversas ações práticas que resultaram na perda de empregos em grandes jornais corporativos. Com isso, nenhum periódico comercial de porte dispôs-se a financiar sua estadia e suas reportagens na Rússia. Foi Max Eastman, editor do The Masses, jornal mensal socialista, quem levantou os recursos para que Reed e Louise cobrissem o acontecimento.

2 – Contribuições ao marxismo

Reed não foi propriamente um teórico do materialismo histórico, nem um militante estritamente devotado à ação política, mas sua biografia sobressai por ter narrado o maior evento político e social da história comunista. A obra Dez dias que abalaram o mundo é a apreensão testemunhal e ocular da Revolução Russa de 1917. Seu legado — como marxista e jornalista — é considerado um marco da reportagem moderna, pela forma como uniu imersão direta nos acontecimentos, força narrativa e tomada de posição política, ampliando os limites do que significa testemunhar e narrar a história.

A grande proeza histórica, política e literária de Reed foi ter conseguido, dentro de seus próprios termos e convicções, manter fixamente o olhar apaixonado nos detalhes do processo dinâmico da Revolução, assim como em seus personagens menores e mesmo anônimos, observando atentamente os próprios trabalhadores em ação, tomando o destino em suas mãos.

Algumas considerações são importantes sobre Dez dias que abalaram o mundo:

  1. John Reed, para escrever a obra, valeu-se de documentos do dia a dia da revolução, proclamações emitidas, panfletos, cartazes de propaganda, jornais diários de organizações e folhetos de distribuição rápida;
  2. desde que chegou à Rússia, em setembro de 1917, com Louise Bryant, teve acolhida tanto dos membros do Governo Provisório — interessados na divulgação socialista de seu governo no exterior — quanto dos bolcheviques, pois foi logo visto pelos comunistas russos como um jornalista revolucionário, sendo essa receptividade decisiva para a construção viva de sua reportagem-história;
  3. não desejou apenas descrever a Revolução para a audiência estadunidense, mas também para os leitores vindouros, para futuros trabalhadores e socialistas de todo o mundo;
  4. não se preocupou em contar o que havia antes, nem as consequências de médio prazo da Revolução;
  5. a grande conquista de Dez dias reside no fato de Reed ter conseguido relatar, com riqueza de detalhes, os sentimentos imediatos daqueles que buscavam transformar suas vidas, apreendendo em suas páginas a vontade expressa nos momentos de entusiasmo político e social.

Um ponto que merece atenção, concernente à contribuição de Reed ao marxismo e ao campo do jornalismo crítico, foi o estilo utilizado para relatar os eventos que cobria, conseguindo transformar fatos rudes e acontecimentos secos em narrativas com força expressiva e capacidade de despertar o interesse humano e sensível dos leitores.

Foi esse romantismo rebelde que fez seu livro mais conhecido e importante sobreviver com vigor até nossos dias, apesar dos muitos reveses sofridos pelos socialistas, especialmente após a Queda do Muro de Berlim e a dissolução da União Soviética nos anos 1990.

Vale destacar as técnicas narrativas utilizadas pelo excepcional jornalista literário que foi John Reed. Ele não apenas observava os protagonistas dos acontecimentos, mas os tipificava por seus traços mais característicos. Tinha como ideal — e em certa medida o concretizou — documentar diretamente as declarações, adotando como estratégia jornalística a reprodução de relatos integrais, de modo a tornar os acontecimentos mais claros e evidentes para o leitor. Seu objetivo não era apenas relatar os fatos; o que o movia era reconstruí-los em suas circunstâncias concretas e em sua atmosfera social, tornando-os o mais vívidos possível. E, por fim, sua preocupação foi sobretudo descrever em detalhes o espírito eminentemente humano que envolve os grandes eventos históricos.

Assim, o intenso relato sobre a Revolução Russa de 1917, cujo resultado foi um sucesso ímpar, combinou investigação jornalística, impressões subjetivas, paixão política e atenção literária aos detalhes dos fatos.

John Reed recebeu críticas severas de certas figuras do século XX, em grande medida por conta do espírito da época marcado pela Guerra Fria. Mas também mereceu elogios ponderados de alguns de seus críticos: George F. Kennan reconheceu seu “poder literário”; Walter Lippmann, antigo amigo de Harvard, destacou seu dom para a autodramatização; Max Eastman escreveu um romance em que Reed foi ficcionalizado; e Warren Beatty produziu um filme sobre ele em 1981, o famoso Reds.

Mas a contribuição de John Reed para o marxismo e para as lutas de milhares de pessoas subalternizadas que ainda hoje alimentam a esperança de uma vida melhor foi reconhecida por dois dos principais personagens do próprio livro de Reed. Ao prefaciar Dez dias que abalaram o mundo, Nadejda Krupskaia afirmou que “o livro de Reed oferece um quadro autêntico da revolta, e é por isso que terá uma importância toda especial para a juventude, para as gerações futuras, para quem a Revolução de Outubro já será história”; e acrescentou: “no seu gênero, o livro de Reed é uma epopeia”. Já Lênin escreveu sobre a obra que “gostaria de vê-la publicada aos milhões de exemplares […] em todas as línguas, pois traça um quadro […] extraordinariamente vivo dos acontecimentos […] da Revolução da Ditadura do Proletariado”.

Com efeito, a obra de Reed traça com emocionante precisão os acontecimentos, personagens, organizações e temperamentos vividos nas duas semanas mais importantes do século XX. Lênin ainda diria que o livro foi fundamental para o verdadeiro esclarecimento do proletariado mundial acerca do que ocorreu em 1917 na Rússia.

John Reed foi um entusiasta do socialismo organizado desde baixo, além de adepto do socialismo dos sovietes de operários, camponeses e soldados. O artigo que publicou em 1918 no The Liberator, então dirigido por Max Eastman, com o título “Soviets in action” [“Sovietes em ação”], revela seu modo de pensar o socialismo.

Nesse ensaio — uma de suas principais contribuições para o marxismo —, Reed apresenta alguns conceitos e práticas políticas que considerava fundamentais: capacidade de organização da classe trabalhadora; coordenação, pelos conselhos, das atividades sociais e econômicas essenciais; participação efetiva dos trabalhadores; representação direta; sensibilidade para com os mais necessitados; política autônoma; descentralização e fortalecimento do governo local na construção de um governo central; mandato revogável a qualquer momento; flexibilidade política; e defesa consciente da revolução.

John Silas Reed morreu em outubro de 1920, ainda jovem, deixando para as gerações futuras de socialistas essa concepção de socialismo dos sovietes que defendia, além de uma obra preciosa que ajudou a difundir pelo mundo os ideais comunistas e a história da emblemática Revolução Bolchevique.

3 – Comentário sobre a obra

A produção intelectual de John Silas Reed constitui-se principalmente de sua vasta atividade jornalística, além de poemas esparsos e cartas dirigidas a pessoas próximas. Contudo, seus poucos livros publicados em vida formam um repertório imaginativo e apaixonante de experiências humanas significativas no início do século XX. Seus escritos foram publicados em diversos idiomas, inclusive em português.

Destacam-se as seguintes obras de John Reed: Mexico insurgent [México insurgente] (Nova Iorque: Daniel Appleton and Company, 1914), traduzido no Brasil como México rebelde (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968); The war in Eastern Europe [A guerra na Europa Oriental] (Nova Iorque: Charles Scribner’s Sons, 1916), traduzido como Guerra dos Bálcãs (São Paulo: Conrad, 2002); e seu clássico Ten days that shook the world (Nova Iorque: Boni and Liveright, 1919), publicado em Portugal, em 1927, com o título Dez dias que abalaram o mundo (Lisboa: Editorial Inquérito), mas lançado no Brasil apenas em 1967, pela Civilização Brasileira.

Outras obras suas de impacto, embora menos relevantes para a história do marxismo, são Daughter of the Revolution and other stories (Nova Iorque: Vanguard Press, 1927), coletânea de contos editada por Floyd Dell e traduzida para o português como A filha da Revolução (São Paulo: Conrad, 2000); e o esboço autobiográfico Almost thirty, escrito em 1917, mas publicado somente em 1936 na revista The New Republic.

Além dessas, dentre a obra poética do jovem John Reed, cabe mencionar The day in bohemia, or, Life among the artists [Um dia na Boêmia, ou, A vida entre os artistas], sátira sobre a cena artística dos bairros boêmios de Nova Iorque, publicada como livreto em 1913, em edição independente (Riverside, Estados Unidos: Hillacre). E Tamburlaine and other verses (Riverside, Estados Unidos: Hillacre, 1917), pequeno livro que reúne 25 poemas com reflexões sobre a vida e personagens históricos.

Com relação a seus escritos principais, Mexico insurgent foi sua primeira obra como correspondente internacional cobrindo um acontecimento de relevância para os trabalhadores. No livro, Reed narra a Revolução Mexicana liderada por Pancho Villa. Seu jornalismo literário, ao relatar a rebelião dos villistas, ao contrário de muitos colegas que obtinham informações de líderes políticos a partir de uma visão enviesada do processo, buscou captar o sentimento dos mais pobres, dos verdadeiros democratas, do cotidiano das tropas e dos revolucionários.

The war in Eastern Europe é talvez o livro mais desencantado de John Reed. Nele, informa ao público estadunidense o ocorrido na Primeira Guerra Mundial, sobretudo na região dos Bálcãs. Isso porque não nutria qualquer sentimento positivo em relação à guerra nem às elites governantes que a promoviam, levando à morte aqueles que menos tinham a ganhar com ela: a classe trabalhadora mundial.

Ao descrever o primeiro conflito mundial entre potências imperialistas, Reed detalhou o sofrimento expresso na carne viva e nos ossos fraturados de homens que davam suas vidas pelos interesses do lucro. Aqui, porém, a morte foi narrada sem a mesma paixão de México insurgente, ainda que com imensa riqueza de detalhes.

Entretanto, não há dúvida de que Ten days that shook the world é sua grande obra, e também um dos grandes livros do século XX. Não se trata, contudo, de um livro didático sobre a Revolução Russa, nem foi escrito para o leitor que deseja conhecer o evento sem maiores complexidades — engana-se quem o ler com essa expectativa.

Dez dias que abalaram o mundo narra, de maneira romanesca, os dias que antecederam a Revolução e o momento preciso — 25 de outubro — em que se deu a conquista do poder pelos trabalhadores, camponeses e soldados reunidos e organizados nos sovietes [conselhos], tendo ao seu lado os bolcheviques e líderes como Lênin, Zinoviev, Kamenev, Trótski, Bukharin, Kollontai, Lunatcharski e Krupskaia.

Ou seja, relata as duas semanas anteriores à Revolução e a subjetividade de milhares de trabalhadores, trabalhadoras, camponeses, camponesas e soldados revolucionários.

É o principal texto sobre esse evento histórico, ao lado de História da Revolução Russa (1930-1932, três volumes), de Trótski, e de A Revolução Bolchevique (1917-1923, três volumes), de Edward Hallett Carr. Essa informação é importante porque estabelece três gêneros textuais distintos sobre o mesmo fenômeno.

A obra de Trótski é o testemunho denso e abrangente de um dos protagonistas do processo revolucionário de 1917. Edward Carr, professor do Trinity College, em Cambridge, Inglaterra, escreveu com rigor historiográfico e detalhamento dos acontecimentos talvez a mais completa — e, portanto, mais importante — obra sobre a Revolução Soviética, posteriormente incorporada à sua História da União Soviética, publicada em 14 volumes.

Por sua vez, e em termos comparativos, o livro de John Reed descreve com vivacidade e emoção objetiva as semanas que antecederam a conquista do poder pelos sovietes e pelo partido de Lênin. Isso torna seu trabalho, no âmbito do gênero jornalístico, particularmente relevante para a compreensão das causas que levaram à revolução na Rússia do início do século XX — acontecimento que mudaria a história.

O marxismo de Stanley Ryerson, historiador, filósofo e jornalista

Em Daughter of the Revolution encontramos Reed escrevendo pequenas histórias e episódios que presenciou em diferentes momentos de sua carreira jornalística. Esses acontecimentos ganham traços ficcionais e romanescos em sua escrita efervescente e, ao mesmo tempo, objetiva. São fatos observados no México, na Primeira Guerra Mundial, na Nova Iorque dos anos 1910 e na Revolução Russa de 1917, mas ausentes de Dez dias que abalaram o mundo.

Almost thirty é um relato nostálgico sobre seus dias em Harvard como estudante de jornalismo. Ali, mesmo ocupando a presidência do Clube Cosmopolita e a gerência do Clube Musical, sentia-se isolado e deslocado naquele ambiente aristocratizado dos estudantes pertencentes à elite estadunidense.

A obra reúne seus temores, angústias e inquietações da juventude universitária. Narra suas impressões sobre o contato com Charles Townsend Copeland e Walter Lippmann; conta o impacto que lhe causou a greve operária em Paterson; descreve o êxtase diante da cidade de Nova Iorque: “Em Nova Iorque eu amei pela primeira vez, e eu escrevi pela primeira vez as coisas que eu vi com intensa alegria de criação”.

Trata ainda da experiência de viajar ao México como correspondente de guerra da Metropolitan Magazine para acompanhar Pancho Villa e a Revolução Mexicana, bem como da ida à Europa para cobrir a Primeira Guerra Mundial. Sobre esses dois acontecimentos decisivos em sua trajetória, Reed afirma que na Europa não encontrou “nenhuma espontaneidade, nenhum idealismo” semelhante ao que havia presenciado na Revolução Mexicana.

A autobiografia constitui o autorrelato de um personagem apaixonado, aventureiro no melhor sentido do termo, radical e boêmio, que encontraria sua plena realização ao testemunhar, em 1917, na Rússia dos conselhos de trabalhadores, camponeses e soldados, dos bolcheviques e de Lênin, os dez dias que abalariam todo o século XX.

Há alguns portais que disponibilizam as obras de John Reed, como Marxists e The Oregon Encyclopedia.

4 – Bibliografia de referência

BINGHAM, Edwin R. “The lost revolutionary: a biography of John Reed by Richard O’Connor”. The Pacific Northwest Quarterly, v. 60, n. 2, 1969.

______. “So Short a Time: a biography of John Reed and Louise Bryant by Barbara Gelb”. The Pacific Northwest Quarterly, v. 66, n. 2, 1975.

BUSTAMANTE, Fernando. Duas revoluções: percurso estético-político na literatura de John Reed. Dissertação (Mestrado) — Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014.

CHILLÓN, Albert. Literatura y periodismo: una tradición de relaciones promiscuas. Bellaterra: Universitat Autònoma de Barcelona, 1999.

CORRÊA, Vítor de Abreu. Testemunho e técnica no jornalismo literário: a contribuição de John Reed. Trabalho de Conclusão de Curso. Centro Universitário de Brasília, Brasília, 2006.

FRAZIER, Ian. “John Reed’s unblinking stare”. The American Scholar, v. 71, 2002.

HOMBERGER, Eric. John Reed. Manchester/Nova Iorque: Manchester University Press, 1990.

KISCH, Egon Erwin. “O autor e sua obra”. In: REED, John. Os dez dias que abalaram o mundo. Porto Alegre: LPM, 2002.

KRUPSKAIA, Nadejda. “Prefácio à primeira edição russa”. In: REED, John S. Os dez dias que abalaram o mundo. São Paulo: Círculo do Livro, s.d.

LÊNIN, Vladimir I. “Prefácio à edição norte-americana”. In: REED, John S. Os dez dias que abalaram o mundo. São Paulo: Círculo do Livro, s.d.

ROSENSTONE, Robert A. Romantic revolutionary: a biography of John Reed. Nova Iorque: Random House, 1975.

SPENCER, Arthur C. “Romantic Revolutionary: a biography of John Reed by Robert A. Rosenstone”. Oregon Historical Quarterly, v. 77, n. 1, 1976.

TAYLOR, A. J. P. Introdução. In: REED, John. Dez dias que abalaram o mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

VENTURA, Zuenir. Apresentação. In: REED, John. Dez dias que abalaram o mundo: a história de uma revolução. São Paulo: Ediouro, 2002.

* Com colaboração e edição de texto de Yuri Martins-Fontes, Felipe S. Deveza e Joana A. Coutinho, e ilustração de Felipe S. Deveza, este artigo foi originalmente publicado no portal do Núcleo Práxis-USP, sendo um dos verbetes do Dicionário marxismo na América. Permite-se sua reprodução, sem fins comerciais, desde que citada a fonte e que seu conteúdo não seja alterado. Sugestões são bem-vindas: editoria@nucleopraxisusp.org.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *