Além de batidas e encarceramento em centros de detenção, o governo de Donald Trump também está usando métodos menos visíveis, mas possivelmente mais eficazes, para expulsar não cidadãos dos Estados Unidos, ao eliminar sistematicamente a assistência social para serviços básicos de saúde, educação, moradia, alimentação e outros destinados a milhões de imigrantes, tanto legais quanto indocumentados.

“O governo Trump está tentando expulsar todo imigrante, legais e indocumentados, sem qualquer pretensão de que seus pogroms sirvam a um propósito social ou econômico mais amplo”, escreveu o comentarista liberal Paul Krugman. “E emprego a palavra pogrom de maneira deliberada”, acrescentou o economista vencedor do Prêmio Nobel, em referência à palavra russa para “causar estragos, demolir de maneira violenta”.
Na prática, esse esforço pode ser mais eficaz do que as batidas violentas televisionadas, mas, como é realizado de forma administrativa nos bastidores, não atrai a mesma atenção do público.
Essa estratégia abrangente contra os imigrantes, concebida pelo vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller, foi desenhada para tornar cada vez mais intolerável a vida neste país para o maior número possível de imigrantes, emitindo ordens para que todas as agências governamentais examinem qualquer programa que beneficie imigrantes com o objetivo de excluí-los.
Por exemplo, durante uma coletiva de imprensa na Casa Branca no dia 2 de maio, Mehmet Oz, responsável pelo programa federal de saúde, explicou que está exigindo que mais de 2 bilhões de dólares sejam devolvidos ao governo federal por governos estaduais que utilizaram qualquer parcela desses recursos para oferecer assistência de saúde a indocumentados. Muitos estados possuem leis que obrigam a prestação de serviços básicos de saúde a todos os residentes do estado, independentemente de sua condição migratória.
Mas esse esforço vai além dos indocumentados. Aproximadamente 1,4 milhão de imigrantes que residem legalmente no país tiveram seus benefícios de saúde negados pelo governo federal no final de 2025, e algumas clínicas da Califórnia que oferecem serviços de saúde aos filhos de imigrantes indocumentados temem perder os recursos federais necessários para operar como resultado dessa estratégia antimigrante.

Na Casa Branca, informa-se que Miller está insistindo que até mesmo os imigrantes que estão legalmente no país, mas que não são cidadãos, deveriam ser expulsos. “Quarenta por cento da população que vive em moradias subsidiadas (com recursos públicos) em Nova York nasceu no exterior”, acusou Miller no ano passado, ampliando a definição daqueles que não são elegíveis para receber assistência federal para incluir todos os que não nasceram nos Estados Unidos.
“Em grande escala, os migrantes e seus descendentes recriam as condições e os terrores de suas pátrias destruídas”, escreveu Miller nas redes sociais no ano passado.
Em dezembro de 2025, o Departamento de Segurança Interna, órgão que inclui o controle migratório, divulgou nas redes sociais uma imagem idílica de um automóvel em uma praia vazia, acompanhada das palavras: “Estados Unidos após 100 milhões de deportações”.
Esse esforço para negar assistência a todo imigrante inclui medidas bem-sucedidas para proibir a contratação de imigrantes legais em aeroportos e outras instalações reguladas pelo governo federal. Também foram implementadas exigências que negam qualquer benefício federal a imigrantes recém-chegados.
Novas regulamentações que se busca implementar pretendem proibir qualquer assistência educacional e de cuidado infantil a toda criança que tenha apenas um dos pais sem cidadania. Miller elogiou o estado do Texas por obrigar todos os estudantes a comprovar que estão legalmente neste país.
Isso busca desmontar avanços promovidos por professores, especialistas em saúde pública e ativistas ao longo dos últimos anos para garantir serviços de saúde e educação a todos os imigrantes, independentemente de sua documentação, em benefício de toda a sociedade. De fato, o secretário de Estado Marco Rubio, quando era senador, argumentou a favor da concessão de assistência federal a famílias de “status misto”, nas quais um ou ambos os pais eram indocumentados, posição que agora abandonou.
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O governo também propôs uma regulamentação para que os 2 milhões de pessoas que aguardam a resolução de seus pedidos de asilo não tenham o direito de trabalhar nem de receber assistência federal — até agora, esses solicitantes tinham o direito de trabalhar justamente para não depender da ajuda federal.
Outra medida que está sendo elaborada pelo Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano proibirá que imigrantes legais vivam em moradias subsidiadas pelo governo caso um dos pais seja indocumentado.
Uma pesquisa de 2024 estimou que existem 5,5 milhões de crianças vivendo em famílias de “status misto” — cerca de 3,5 milhões delas são filhas de um pai mexicano indocumentado. Embora haja ampla oposição a essa medida, incluindo a de quase 100 legisladores, o governo Trump continua avançando com essa iniciativa.
Em maio, o presidente assinou uma ordem executiva instruindo o Departamento do Tesouro a exigir que os bancos coletem mais informações sobre a condição migratória de qualquer residente que tente abrir uma conta bancária, solicitar um cartão de crédito ou adquirir um automóvel.
Em particular, a nova medida identifica como risco o uso de documentos emitidos por consulados de governos estrangeiros — a chamada Matrícula Consular do governo mexicano tornou-se um documento de identidade fundamental para as comunidades de imigrantes mexicanos nos Estados Unidos.
“Houve um tempo em que ativistas antimigrantes afirmavam que não odiavam os imigrantes como pessoas. Insistiam que sua preocupação era apenas com os imigrantes ilegais, com a suposta onda de criminalidade que causavam ou com a perda de empregos para os nascidos aqui”, continuou Krugman em sua avaliação da nova política. “Está cada vez mais evidente que a crueldade não é apenas instrumental. Pelo contrário, ela é o próprio propósito de todo esse esforço.”
