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Eleições na Colômbia: Abelardo de la Espriella e Iván Cepeda vão ao 2º turno; medo e fake news dominam

A Colômbia realizou neste domingo (31), o primeiro turno de suas eleições presidenciais em uma jornada que terminou com a confirmação de um segundo turno entre dois projetos antagônicos: de um lado, Abelardo de la Espriella, advogado ultraconservador, representante de uma extrema-direita de corte autoritário, punitivista e alinhada ao repertório político do trumpismo continental; de outro, Iván Cepeda, senador de esquerda, defensor da paz negociada, da justiça social e da continuidade crítica do ciclo progressista aberto com Gustavo Petro.

Com mais de 97% das mesas informadas, De la Espriella aparecia à frente, com cerca de 43,7% dos votos, enquanto Cepeda somava pouco menos de 41%, segundo a pré-contagem divulgada pela Registraduría Nacional. Como nenhum candidato alcançou maioria absoluta, os dois disputarão o segundo turno em 21 de junho.

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Resultado da pré-contagem na Colômbia

O resultado, ainda baseado na pré-contagem, deve ser lido com cautela: na Colômbia, os boletins divulgados no domingo eleitoral têm caráter apenas informativo e não possuem valor jurídico vinculante, já que o resultado oficial depende do escrutínio conduzido pelas comissões escrutinadoras e pelo Conselho Nacional Eleitoral.

No Twitter, o presidente colombiano, Gustavo Petro, denunciou sérias irregularidades e disse que, como presidente, não aceitará os resultados transmitidos pela empresa privada responsável pelo sistema. Ele também acusou a empresa Los Hermanos Bautista de ter alterado “três vezes” os algoritmos do software de contagem e escrutínio na última semana, além de incluir “800 mil cédulas” de pessoas que, segundo o presidente, não estariam no censo oficial apresentado.

“Há dois censos neste momento: o oficial e o do software dos irmãos Bautista, que tem 800 mil pessoas adicionais. As mesas já impugnadas demonstram que centenas de milhares de votos foram agregados, sem existência de votantes. Portanto, conforme a lei, os resultados vinculantes que o presidente atenderá e aceitará são os das comissões escrutinadoras dirigidas pelos juízes da República.”

El llamado conteo transmitido no tiene fuerza vinculante. sus datos no son norma pública. Como presidente no acepto los resultados del preconteo de la firma privada de los hermanos Bautista, porque debiendo estar quietos los algoritmos del software de conteo y escrutinios, en la…

— Gustavo Petro (@petrogustavo) June 1, 2026

A controvérsia cresce porque, embora os votos sejam contados manualmente nas mesas e registrados em atas físicas, a infraestrutura tecnológica e logística do processo de pré-contagem é terceirizada a empresas privadas, como Thomas Greg & Sons, Indra, ASD e JAHV McGregor, o que alimenta críticas sobre transparência, auditoria e controle público.

Além disso, há um histórico de erro contra a esquerda por parte desse sistema. Nas eleições legislativas de 13 de março de 2022, o Pacto Histórico, questionou publicamente o sistema de pré-contagem. Segundo o escrutínio oficial, a coalizão obteve inicialmente 2.692.999 votos na pré-contagem, mas após a recontagem completa e a fiscalização dos fiscais eleitorais da esquerda, o número final subiu para aproximadamente 3.082.451 votos — uma recuperaçãode 389.452 votos que, de outra forma, teriam sido desconsiderados.

Esse aumento significativo não apenas corrigiu o resultado eleitoral, mas também garantiram mais três cadeiras no Senado (passando de 16 para cerca de 19 vagas).

A surpresa não foi só De la Espriella: foi a derrota das pesquisas

A ascensão de Abelardo de la Espriella contrariou parte das pesquisas e provocou uma reorganização da direita colombiana.

Paloma Valencia, candidata do uribismo tradicional, terminou abaixo de 7%, muito aquém do que esperavam setores conservadores. Sergio Fajardo, nome do centro, também ficou distante da disputa real.

A jornalista Claudia Morales resumiu o sentimento de perplexidade: “perderam todas as pesquisadoras” e “o país votou com medo e ódio, mais do que nunca”.

La Silla Vacía destacou um dado relevante: Cepeda alcançou cerca de 9,5 milhões de votos e se tornou o candidato da esquerda mais votado em primeiro turno na história recente colombiana, superando Gustavo Petro em 2022. A leitura é decisiva.

O candidato da mão dura e da política como espetáculo de guerra

Abelardo de la Espriella construiu sua campanha em torno da promessa de “mão dura”, mega prisões, militarização e combate frontal aos grupos armados. Sua estética política não esconde as referências: Donald Trump, Nayib Bukele e Javier Milei compõem o imaginário da extrema-direita latino-americana.

De la Espriella é um advogado de 47 anos, sem experiência em cargo eletivo, que se apresentou como outsider e prometeu uma política de segurança baseada na repressão, na construção de dez mega prisões e no abandono de negociações de paz com grupos armados.

O discurso seduz porque simplifica. Onde há desigualdade histórica, oferece prisão. Onde há conflito armado enraizado em terra, narcotráfico, ausência estatal e violência oligárquica, oferece farda. Onde há demanda por redistribuição, promete autoridade. É a velha pedagogia da direita latino-americana: transformar problemas sociais em casos de polícia.

Não é casual que De la Espriella seja lido como expressão de uma extrema direita continental. Ele aparece no momento em que Washington volta a operar agressivamente sobre a América Latina, combinando chantagem diplomática, guerra cultural, redes sociais e alinhamento com lideranças locais dispostas a recolocar seus países na órbita direta dos Estados Unidos.

Bernie Moreno, Noboa e suspeita de intervenção

Um dos pontos mais sensíveis da eleição foi a movimentação externa em torno da disputa. O senador republicano estadunidense Bernie Moreno, próximo a Donald Trump e nascido na Colômbia, sugeriu publicamente uma aliança entre Paloma Valencia e Abelardo de la Espriella, defendendo que os setores conservadores deveriam estar “completamente unidos”.

Sasi Alejandre, no X, classificou a campanha de Moreno como uma operação aberta dos Estados Unidos em favor de De la Espriella e afirmou que boa parte do voto de Paloma Valencia teria migrado para o candidato da extrema direita. A afirmação expressa uma leitura política que circulou com força nas redes: o uribismo tradicional perdeu o controle da própria base para uma candidatura mais agressiva, mais digital e mais sintonizada com a nova internacional reacionária.

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Via X

Outra camada da eleição foi a manipulação digital. Julián Macías Tovar denunciou a existência de redes de contas falsas ligadas a campanhas de direita, incluindo perfis criados em outros países e ativados recentemente para impulsionar tendências eleitorais. Segundo ele, contas associadas a conteúdos em turco ou indiano teriam sido recicladas para promover hashtags como #VotoPorPaloma e #TigreEnPrimera, além de vídeos feitos com inteligência artificial contra Iván Cepeda.

Atención al trollcenter de Paloma Valencia, candidata oficial del uribismo, comprando miles de cuentas de Turquía el día de las elecciones para hacer tendencia #VotoPorPaloma
Esto debería ser ilegal, hay gente cobrando millones por atacar la democracia. Espero se juzgue. pic.twitter.com/e9noFMO19F

— Julián Macías Tovar (@JulianMaciasT) May 31, 2026

Cepeda chega forte, mas a segunda volta será outra eleição

Apesar da vantagem inicial de De la Espriella, os dados indicam que Iván Cepeda chega ao segundo turno em posição competitiva. Santiago lembrou que Petro teve 8,5 milhões de votos no primeiro turno de 2022 e depois cresceu no segundo. David Racero fez leitura semelhante: em 2022, diziam que a soma de Rodolfo Hernández e Federico Gutiérrez derrotaria Petro, mas a esquerda cresceu mais de 10 pontos.

Cepeda superou a votação de Petro no primeiro turno e consolidou a esquerda como uma força histórica, não como acidente eleitoral. Cepeda carrega uma biografia que incomoda a oligarquia colombiana. Filho de Manuel Cepeda Vargas, dirigente comunista assassinado em 1994, construiu sua trajetória denunciando o paramilitarismo, defendendo vítimas e enfrentando a tradição política que naturalizou a violência como método de governo.

O centro virou fiel da balança; Uribe: o grande derrotado 

A direita tentará vender a segunda volta como escolha entre “ordem” e “caos”. O centro, agora reduzido, será tratado como fiel da balança.

Os votos de Paloma Valencia, Sergio Fajardo e outros candidatos serão disputados voto a voto. A análise que circula em redes sociais é de que a extrema-direita devorou o uribismo clássico antes de tentar herdar seu espólio, antecipando, com votos úteis, o segundo turno.

Ainda assim, Paloma Valencia anunciou apoio pessoal a Abelardo de la Espriella “para derrotar o neocomunismo”, depois de terminar em terceiro lugar com cerca de 6,5% dos votos.

Durante décadas, Uribe organizou a direita colombiana em torno da segurança militarizada, do anticomunismo, da guerra interna permanente e da naturalização da violência estatal como método de governo. Agora, vê seu próprio campo ser capturado por uma figura ainda mais fanática, mais personalista, mais espetacularizada e mais alinhada à nova extrema-direita continental.

De la Espriella oferece uma saída autoritária: prisões, repressão, militarização, alinhamento externo e retórica anticomunista. Cepeda oferece outra chave: paz, justiça social, soberania e aprofundamento democrático. Uma aposta mais difícil, porque exige enfrentar estruturas históricas — terra concentrada, violência política, desigualdade, narcotráfico, paramilitarismo, dependência externa.

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