
“Creio que a arte deve ser como cada artista a sinta; a arte é liberdade, e se não há liberdade não vale a pena”, disse o lendário trovador em entrevista exclusiva à Prensa Latina.
Nos Estudios Ojalá, em Havana, onde o tempo transcorre entre acordes e os anseios próprios de um criador incansável, o artista conversou com esta repórter, ávida por conhecer o autor de canções que acompanham várias gerações de cubanos e latino-americanos em seus sonhos.
Adis Marlén Morera: O que permanece intacto em você, como criador?
[…]

Silvio Rodríguez: A vontade, mais do que qualquer coisa, a vontade.
“As possibilidades, em alguns sentidos, diminuíram. Há problemas respiratórios, de projeção e de força”, disse uma das vozes fundamentais do Movimento Nova Trova.
“É necessária muita força para cantar; todo o organismo faz uma concentração de energia dirigida à projeção da voz e muitos músculos se contraem, e com os anos isso é afetado”.
Cuba e a música habitam este homem digno que ergue a bandeira da criatividade e do virtuosismo, porque ele reúne a capacidade de seduzir com cada melodia e a sinceridade de um verdadeiro artista.
“Sou uma pessoa grata e com muita sorte”, declarou a figura cuja simplicidade parece ignorar a imensidão de quem — violão e inspiração nas mãos — convoca ao pensamento em um ato de sensibilidade poética.
Em que encontra inspiração para compor e o que busca provocar no público?
Não busco provocar no público absolutamente nada. Eu não componho para o público, sempre compus de acordo com meus pensamentos, minhas inquietações e as coisas que percebo e me parecem interessantes.
Muitas vezes, até essas letras minhas tão festejadas, começam porque eu tinha uma música interessante e logo me dou conta de que escrevi algo com um pouco de coerência, e as deixo assim, explicou.
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“Não vá pensar que sou um planejador. Acredito muito na inspiração e também no trabalho, porque trabalho bastante em cada coisa que faço”.
Ouvi-lo cantar é um privilégio que guardam seus muitos admiradores, em Cuba e em outras regiões do mundo. Lá onde sua lírica cativa, a poesia torna-se cúmplice para cantar à pátria, ao amor e à vida.
Suas letras costumam ser muito poéticas. Que papel continua desempenhando a literatura em sua obra?
Quando menino e jovem, sobretudo, e também já mais velho, li muito e muita literatura, sempre gostei.
Nos primeiros anos de minha adolescência me desenvolvi em ambientes jornalísticos; estive no semanário Mella e depois, no Exército, me vinculei a várias revistas militares, rememorou.
Quando Silvio começou a compor, não imaginou que se dedicaria a isso, confessou. Em certa medida influíram as circunstâncias: alguém o ouviu e o colocou diante de uma câmera de televisão.
Foi uma experiência interessante para um rapaz de 20 anos que acabava de sair das Forças Armadas Revolucionárias, contou.
“Isso abre uma quantidade de perspectivas que a gente nem imagina, por isso abandonei tudo no jornalismo”.
Também enquanto jovem tentou o desenho, disciplina que deixou “pela música, pelo violão, pelas canções e pela influência do que eu lia”.
Aquelas composições, gestadas nos primeiros anos da juventude, traçaram o caminho para o que logo se tornaria a alma de sua existência. Tropeçar com um violão — como disse em uma entrevista — tornou-se um encontro fortuito que libertou o artista em seu interior.
A indústria musical mudou drasticamente com a digitalização e o acesso global. Como você enfrentou essas mudanças?
Nunca me ocupei com isso, o meu sempre foi artesanal, não industrial. Gente que eu conheço me chama e me propõe algo, depois decidimos fazê-lo ou não.
“Não tenho nada a ver com a grande indústria da música. Uma vez me propuseram um Grammy pelo Conjunto da Obra; agradeci muito. Na realidade, tiveram esse gesto de se lembrar de mim”.
Então devia ir a Las Vegas para recebê-lo, contou, mas lhe foi impossível, pois se encontrava no meio do Giro pelos Bairros, uma iniciativa que encabeçou desde o final de 2010 até fevereiro de 2020 junto com um grupo de músicos, artistas e escritores cuja arte encantou as zonas menos favorecidas de Havana e outras províncias de Cuba.
Foi um problema de agenda, asseverou o reconhecido trovador cubano, enquanto concede à sorte um significado especial em sua vida. A seu ver, há muita gente talentosa que merece ser divulgada e não é.
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Por outro lado, esta jornalista considera que a sorte sem talento não basta. Suas letras demonstram um engenhoso domínio da linguagem e sua musicalidade irrompe como um convite para apreciar o belo, a partir do compromisso com a palavra audaz e inteligente.
Sua música, admirada em muitas regiões do mundo, é incompreendida às vezes. Como lida com a crítica, dentro e fora de Cuba?
É algo que não me tira o sono. Eu também sou crítico. É uma questão inerente à percepção, à consciência humana, à inteligência e à capacidade de ter opções, critérios.
“A crítica? Quem será que se espanta com isso?”, disse.
O que encanta Silvio e do que não gosta?
Me encanta trabalhar, não posso viver sem trabalhar. E não gosto do ócio estéril, e digo o ócio estéril porque há ócios muito produtivos.
Se pudesse falar com seu ‘eu’ jovem, o que lhe diria?
Continue assim.
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[…]
Você mencionou que simpatiza com quem compreende e respeita Cuba, sejam de onde sejam e militem onde quer que militem. Qual é sua mensagem para os que têm uma posição diferente da sua?
Eles saberão por que a têm e não posso me colocar em seu lugar; sou de outra forma e tenho outra vida. Sou o resultado de minhas experiências e cada pessoa é o resultado de suas experiências e de suas circunstâncias.
“Ainda que tenhamos experiências e circunstâncias distintas, se conversarmos e nos olharmos nos olhos, se compartilharmos um café e criarmos uma empatia, muitas coisas que parecem não ter solução podem se resolver.
“Buscar a empatia humana é muito importante, para além das ideologias; conhecer as pessoas, falar de quem somos e de por que somos. Se buscarmos nos dar bem, podemos conseguir, por que não?”.
[…]
Sente que as novas gerações o leem de forma diferente?
Não sei se me interpretam ou não. Quando alguém está há tanto tempo, tem, queira ou não, uma espécie de imagem e o mundo o vê de certa maneira; às vezes isso ajuda, outras vezes não. Lamentavelmente, é assim.
Acredita que o artista deve tomar posição política ou basta a obra?
A obra pode ser política ou sexual, ou de qualquer tipo, depende do artista e do que cada um queira expressar.
[…]
Em uma palavra ou frase, como se define Silvio Rodríguez?
Muita sorte, eu tive muita sorte.
E se lhe pedisse uma de suas canções para defini-lo, qual escolheria?
A que estou fazendo.

