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Golpe de Milei? Bolivianos denunciam suposto envio de armas por argentino em meio à escalada da repressão

Em 16 de maio de 2026, o governo de Javier Milei confirmou o envio de um avião Hércules C-130 da Força Aérea Argentina para a Bolívia.

Chegou na Argentina o C-130H arrendado da USAF
Hércules C-130 da Força Aérea Argentina – Winkimedia

A Chancelaria comunicou a operação como uma ação de “assistência humanitária” voltada ao transporte de alimentos em um cenário de bloqueios, cercos urbanos e desabastecimento, em meio a um processo de conflito social crescente protagonizado por organizações camponesas, indígenas, sindicais e territoriais mobilizadas contra as políticas de ajuste, concentração de terras e deterioração das condições de vida impulsionadas pelo governo de Rodrigo Paz.

O Ministro das Relações Exteriores Pablo Quirno precisou que a decisão respondia a um pedido do governo boliviano e teria caráter “temporário”.

A dimensão política do fato foi explicitada no mesmo dia 16, quando Milei afirmou que “a Argentina acompanha o povo boliviano e suas autoridades legítimas diante daqueles que buscam desestabilizar e obstaculizar o caminho da liberdade e do progresso”.

A declaração insere os setores populares mobilizados no campo da desestabilização, retomando uma lógica regional na qual o protesto social e a organização popular são interpretados a partir de doutrinas de segurança para legitimar respostas repressivas diante de povos mobilizados em defesa de seus direitos.

Evo Morales renuncia à presidência da Bolívia - Jornal GGN
ex-presidente Evo Morales – wikipedia

Nesse mesmo movimento começaram a circular na Bolívia denúncias provenientes de organizações sociais, dirigentes sindicais e lideranças políticas que alertam sobre o transporte de material de segurança na mesma operação. A denúncia foi reforçada pelo ex-presidente Evo Morales, que escreveu: “Denunciamos perante a comunidade internacional o envio de material repressivo da Argentina para sustentar o governo. Isso relembra o apoio ao golpe de 2019”.

A acusação se insere em uma sequência documentada que envolve o Estado argentino no envio de material utilizado durante a repressão desencadeada após o golpe de Estado de 2019 contra Evo Morales, sob o governo de Mauricio Macri.

O conflito boliviano que contextualiza o envio do Hércules se desenvolveu ao longo do último mês de maio com uma dinâmica de escalada sustentada que, até 15 de maio, acumulava três semanas de mobilização.

Sua origem imediata encontra-se em três eixos: a lei de terras impulsionada pelo Executivo — orientada a favorecer a concentração na agroindústria — que foi resistida por comunidades camponesas e indígenas; a reivindicação salarial da Central Operária Boliviana, que exige um aumento de 20% diante de dois anos de inflação acumulada; e a crise derivada da qualidade do combustível, denunciada pelo setor de transporte pelos danos produzidos em motores a diesel e a gasolina.

A essa base inicial somaram-se juntas de moradores, entidades de classe e cooperativas, ampliando a densidade territorial e social do conflito.

A concentração territorial do conflito em La Paz alcançou um ponto crítico com um cerco de oito dias que começou a afetar o abastecimento de alimentos, enquanto setores aimarás passaram a exigir a renúncia presidencial. Paralelamente, uma coluna vinculada ao evismo iniciou uma marcha de Oruro até a capital com chegada prevista para 18 de maio. Nesse contexto, o governo de Rodrigo Paz avaliava três cursos de ação — ampliação de concessões, deslocamento da sede do governo ou militarização — em uma conjuntura de definição imediata.

O surgimento da denúncia sobre o conteúdo do envio argentino ganha sentido nesse ponto de inflexão e encontra sua base nos acontecimentos de novembro de 2019. Em 13 daquele mês, nos dias posteriores à saída forçada de Evo Morales, um avião Hércules argentino chegou a La Paz com agentes do grupo Alacrán da Gendarmeria Nacional sob o argumento da proteção da embaixada.

Em 8 de julho de 2021, o então chanceler boliviano Rogelio Mayta apresentou um documento oficial datado de 13 de novembro de 2019, assinado pelo chefe da Força Aérea Boliviana, Jorge Gonzalo Terceros Lara, dirigido ao embaixador argentino Normando Álvarez García, no qual se agradecia o envio de “material bélico de agentes químicos”. A reconstrução posterior detalhou o conteúdo da carga: 40 mil cartuchos AT 12/70, granadas de gás lacrimogêneo de diferentes tipos (CN, CS e HC) e sprays antimotim, aos quais se somou a descoberta de 70 mil balas antimotim em depósitos da polícia boliviana sem registro formal de entrada.

As declarações de Mayta foram categóricas: “O material enviado pela Argentina foi utilizado para reprimir o povo boliviano”, em referência a um período que incluiu os massacres de Sacaba (15 de novembro de 2019) e Senkata (19 de novembro de 2019), com ao menos 21 pessoas assassinadas e mais de 100 feridas em operações das forças de segurança durante o governo de facto de Jeanine Áñez.

Na Argentina, em 16 de julho de 2021, o promotor Claudio Navas Rial indiciou Mauricio Macri, a então ministra da Segurança Patricia Bullrich, o ex-ministro da Defesa Oscar Aguad — além do ex-embaixador Álvarez García e de três ex-oficiais da Gendarmeria — por contrabando agravado, com base na ausência de registros aduaneiros e na divergência entre o material declarado e o efetivamente encontrado na Bolívia.

Esse conjunto de elementos configura um antecedente imediato que estrutura a leitura do presente e explica a rápida consolidação da denúncia em torno do atual envio do Hércules. A utilização de um meio militar em um contexto de conflito social aberto, somada ao posicionamento político explícito do governo argentino, introduz uma dimensão que ultrapassa o plano da assistência e remete à articulação entre política externa, segurança e gestão do conflito.

A orientação adotada pelo governo de Milei se insere em um reordenamento da política externa argentina sob uma lógica de subordinação estratégica aos Estados Unidos e a Israel, e pela adoção da doutrina importada do inimigo interno como matriz de interpretação do conflito social. Essa doutrina, que redefine o protesto como ameaça à segurança, traduz-se na ampliação das faculdades das forças de segurança, na reconfiguração do sistema de inteligência e na legitimação do uso da força como ferramenta de disciplinamento social.

O DNU 941/2025, assinado em 31 de dezembro de 2025, ampliou ao máximo o sigilo sobre as atividades de inteligência, autorizou os agentes a deter pessoas, incorporou as Forças Armadas em tarefas de inteligência interna e transformou diferentes áreas do Estado — como o ReNaPer ou a ARCA — em terminais do sistema de inteligência sem qualquer tipo de controle democrático.

File:Presidente Daniel Noboa3 (cropped) (2).jpg - Wikimedia Commons
Presidente Daniel Noboa – Wikimedia

Nas últimas horas, o ex-militar estadunidense Erik Prince — mercenário, fundador da empresa militar privada Blackwater e atualmente assessor de segurança do governo equatoriano de Daniel Noboa — denunciou publicamente que supostos grupos armados colombianos teriam ingressado na Bolívia para apoiar setores ligados a Evo Morales em meio à crise política atravessada pelo país.

Prince, vinculado a operações impulsionadas pelos Estados Unidos no Iraque, no Afeganistão e também a iniciativas de pressão e ingerência contra a Venezuela e seu governo, instalou assim uma narrativa de “ameaça insurgente” sobre o conflito boliviano, simultaneamente ao envio do Hércules argentino. Até o momento, as autoridades bolivianas não confirmaram oficialmente essas acusações. Suas declarações atuam na legitimação de cenários de militarização interna e securitização do conflito social.

A Bolívia concentra hoje uma das expressões mais visíveis da disputa regional em torno do reordenamento político, econômico e estratégico da América Latina. O conflito — que articula demandas salariais, disputa pela terra, crise energética e mobilização territorial — se desenvolve em um cenário regional marcado por governos que aprofundam programas de ajuste e desregulamentação em meio a crescentes níveis de conflitividade social.

Nesse contexto, a denúncia sobre o envio de armamento a partir da Argentina, sustentada sobre a memória documentada de 2019 em registros oficiais, evidências materiais e processos judiciais, permite observar o papel ocupado pelo governo de Javier Milei em uma estratégia de subordinação externa que ultrapassa amplamente a conjuntura boliviana.

Configura-se assim uma arquitetura regional orientada ao disciplinamento dos povos organizados e a garantir as condições políticas para o aprofundamento de projetos de ajuste, espoliação e subordinação geopolítica sobre a América Latina e o Caribe. Nessa dinâmica, a Argentina assume um papel de articulação regional como cabeça de ponte da estratégia norte-americana sobre o continente, funcionando como plataforma política, logística e doutrinária para o aprofundamento de esquemas de controle, ingerência e violência estatal diante de processos de resistência popular.

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