Em meio à crescente disputa global por minerais estratégicos, o chamado “triângulo do lítio” — formado por Argentina, Bolívia e Chile — tornou-se um dos principais centros da corrida geopolítica entre Estados Unidos e China. Nesta entrevista conduzida pelo jornalista Clément Fontanarava, a cientista política Thea Riofrancos analisa como a ascensão de governos de direita na região altera a governança do lítio, aprofunda disputas econômicas e ambientais e redefine o papel da América Latina no novo cenário internacional marcado pela transição energética e pela competição entre grandes potências.
Clément Fontanarava – Tem a Casa Branca um plano para sair da tenaz chinesa?

Thea Riofrancos – Os três principais países produtores de um recurso decisivo — o lítio — estão agora governados por figuras que fizeram de sua proximidade com Donald Trump um elemento decisivo de sua trajetória política: Javier Milei na Argentina desde 2023, Paz Pereira na Bolívia desde 2025 e Kast no Chile há um mês. Como aproveita a Casa Branca esta nova convergência?
-Mais da metade das reservas mundiais de lítio1 concentram-se em três países, no que se conhece como o “triângulo do lítio”, uma vasta meseta desértica na Cordilheira dos Andes que se estende desde o norte do Chile e da Argentina até o sul da Bolívia.
Esta guinada política2 em países anteriormente governados pela esquerda pareceria indicar uma reorientação estratégica: o abandono de projetos de coordenação do tipo “OPEP do lítio” e de formas de nacionalismo dos recursos3, em favor de uma abertura aos investimentos estrangeiros e aos acordos bilaterais, em particular com os Estados Unidos de Donald Trump.
No entanto, a orientação política que mostram estes governos oculta uma realidade diferente. Sua proximidade ao presidente estadunidense e seu discurso pró mercado não bastam para redefinir os equilíbrios do setor.
-Por que?
-O fator decisivo radica no enraizamento material da China nestas economias: apesar dos discursos pró estadunidenses, seus investimentos massivos, já comprometidos e concentrados em setores estratégicos além do lítio, como na energia e em infraestruturas, são difíceis de questionar.
–Não obstante, a administração de Trump afirmou claramente sua vontade de transformar a América Latina em seu quintal. Estão os novos governos do “triângulo do lítio” alinhados com esta vontade de vassalagem de Washington?
-Já não nos encontramos em um período unipolar como o que existiu nos anos noventa, depois do fim da Guerra Fria e antes do auge da “onda rosada” na América Latina. Se se examina esse período, que se estende aproximadamente desde 1989 até princípios da década de 2000, os Estados Unidos eram claramente a única potência dominante da região e ocupavam uma posição preponderante em termos de influência política e de elaboração de políticas.
Assim como no resto do mundo, os Estados Unidos já não ocupam uma posição hegemônica na América Latina. Esta nova rivalidade geopolítica coloca os países do Sul em uma situação ambivalente — ao mesmo tempo restritiva e, às vezes, vantajosa — em função de suas estruturas de exportação, suas necessidades financeiras e seus vínculos comerciais. Outros atores do Norte, como o Canadá, têm importantes interesses minerários na região, enquanto a China reforçou consideravelmente seu papel em numerosos âmbitos.
-Quais?
-Podem-se distinguir três âmbitos chave: o comércio, o crédito e os investimentos estrangeiros diretos. Nestes três setores, a China reforçou consideravelmente sua presença. Agora é um destino importante para as exportações, uma fonte essencial de importações, um importante fornecedor de empréstimos e um investidor de primeira classe, especialmente na Argentina, Bolívia e Chile. Portanto, é totalmente irracional que estes países ponham em perigo suas relações com Pequim, sobretudo no contexto mundial atual.
-Em que sentido?
-Os consideráveis recursos militares dos Estados Unidos se dispersam de forma desordenada em várias frentes, enquanto o apoio interno à política exterior de Trump desmorona, o que faz com que qualquer aposta em sua continuidade a longo prazo seja especialmente arriscada.
-Acredita, portanto, que os Estados Unidos não poderão debilitar as posições chinesas na América Latina?
-Tendo em conta as mudanças geopolíticas e econômicas em curso, a China deveria sair reforçada dos próximos anos, tanto no plano econômico, político e energético como diplomático. Pelo contrário, os Estados Unidos enfrentam desafios internos e externos. Seria arriscado para os países da América Latina reduzirem seus vínculos com a China em favor de uma aproximação com Washington.
Resta saber como atuarão concretamente Argentina e Chile, que assinaram acordos bilaterais com os Estados Unidos. Respeitarão estritamente estes acordos e reduzirão seu compromisso com a China, ou continuarão aprofundando seus vínculos econômicos com Pequim independentemente de seus compromissos formais?
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-A senhora destaca um paradoxo: Milei é o presidente mais alinhado com a Casa Branca entre os do eixo do lítio e, no entanto, é na Argentina que a brecha entre o discurso antichinês e a reorientação efetiva para os Estados Unidos é mais flagrante. Como se explica isso?
-Efetivamente, na Argentina, a discrepância é especialmente clara. Javier Milei assinou um acordo comercial que favorece as empresas mineiras estadunidenses, explicitamente em detrimento das economias consideradas “manipuladoras” — no fundo, a China —, ainda que por sua vez poder-se-ia qualificar facilmente os Estados Unidos de manipulador do mercado, dada a ingerência de Trump na América do Sul.
Mas esta orientação choca-se com uma realidade mais contundente: a presença chinesa se intensificou rapidamente nestes setores chave por meio de investimentos já comprometidos e arraigados em ativos duradouros.
-Por que motivo?
-De novo, há uma razão estrutural. Não está garantido que estes acordos suponham um aumento dos investimentos estadunidenses, já que as empresas chinesas são muito ativas nas cadeias de fornecimento de lítio. Por outro lado, o acordo não proíbe os investimentos chineses, limitando-se a desestimulá-los, enquanto as autoridades provinciais conservam sua autonomia.
Há, além disso, uma razão mais específica. A governança do lítio na Argentina é interessante, porque o setor não está regulamentado em nível nacional. O país é, com efeito, um Estado federal em que as províncias desempenham um papel chave. Algumas são especialmente importantes para a extração de lítio, em particular as situadas perto do Chile e da Bolívia, na região da meseta andina.
Na década de 1990 implantou-se uma política para descentralizar a gestão minerária do governo federal. Esta reforma fazia parte de um programa neoliberal mais amplo, baseado na ideia de que a gestão local seria mais eficaz. Em consequência, cada governador administra as reservas de lítio de sua província e se encarrega da negociação de contratos e investimentos com empresas estrangeiras.
Este sistema é pouco eficaz para a gestão dos recursos naturais, já que cria uma assimetria de poder e de conhecimentos entre as autoridades locais e as multinacionais mineiras.
-Quais são os efeitos concretos desta concorrência entre os territórios argentinos?
-Esta estrutura deu lugar, em particular, a uma forma de dumping em que as províncias competem entre si para atrair investimentos. A concorrência cria um entorno de desregulamentação.
Em 2023, na província de Jujuy, houve violentos enfrentamentos entre o governo provincial e as comunidades locais, depois que o governador tentou debilitar as normas quanto ao meio ambiente e os direitos dos povos indígenas.
-Apesar deste sistema desregulamentado, a Argentina é, no entanto, atualmente o quarto maior produtor mundial…
-Sim, e é devido à descentralização que a chegada de um governo conservador não modificou radicalmente as estruturas de governança, já que o controle da política do lítio continua sendo provincial.
Dito isso, na anterior administração de Alberto Fernández, de centro-esquerda, houve algumas tentativas de rediscutir a governança do lítio, em particular debates sobre a centralização, a nacionalização ou a criação de empresas públicas, seguindo as tendências de outros governos de esquerda na região. Estes esforços não se concretizaram plenamente e Milei abandonou agora esta política.
-Está, portanto, o presidente argentino com as mãos amarradas?
-Assistimos à manutenção de um status quo negativo que, não obstante, está acompanhado de algumas mudanças: a escala da governança continua sendo a mesma, mas a orientação do país e as relações comerciais estão mudando.
Milei exerce influência nas políticas nacionais, especialmente em matéria de comércio e de relações internacionais. Foi possível observar até que ponto se alinhava com a administração de Trump, que proporcionou apoio financeiro direto à Argentina.
–Às mudanças geopolíticas se soma uma mudança na governança do meio ambiente, especialmente no Chile. Como revisou Kast a política de seu predecessor?
-O sistema de governança chileno difere do argentino, já que é fortemente centralizado. O que confere ao governo nacional um controle muito maior sobre a política minerária.
O atual governo de extrema direita, liderado por José Antonio Kast, já começou a implementar mudanças significativas, especialmente em matéria de governança do meio ambiente. Mas sua popularidade já caiu devido à crise de preços relacionada à guerra no Irã. De fato, Kast declarou que não aliviará a situação da economia e da população controlando os preços, diferentemente do que se observa em certa medida no Sudeste Asiático e na Europa.
-Antes dos efeitos da guerra do Irã, quais eram as medidas do novo presidente chileno?
-Em primeiro lugar, um acordo previsto com os Estados Unidos, cujos detalhes ainda não se tornaram públicos, prevê vantagens para as empresas estadunidenses que desejem investir no Chile. A maior empresa de lítio do país já é estadunidense, mas a outra é chilena e muitos outros atores estrangeiros também têm interesses neste setor da economia nacional. Resta ver se as empresas estadunidenses investirão como foi prometido e começarão a explorar o solo chileno.
Dado que o Chile está muito mais centralizado que a Argentina, a situação pode deteriorar-se muito mais rapidamente. O ex-presidente Gabriel Boric, que não contava com um apoio total no Congresso Nacional, sempre teve que formar coalizões ou recorrer a decretos. Em muitos casos, para as regulamentações relativas ao meio ambiente, recorreu a decretos, o que às vezes é eficaz porque têm um efeito imediato, mas também perigoso porque são fáceis de derrubar.
Por exemplo, antes de deixar o cargo, Boric criou um grande número de parques nacionais, reservas naturais e zonas de proteção de ecossistemas para cumprir sua promessa de proteger mais desertos de sal, as salinas, frente à extração de lítio. Reservou aproximadamente um terço das dezenas de salinas para a conservação do meio ambiente.
Cada uma destas medidas requeria um decreto e Kast derrubou todos. O que propõe interrogantes sobre como reagirão as comunidades locais. Estas poderiam mobilizar-se mais e mostrar uma maior resistência; ou a extração de lítio poderia desenvolver-se agora com mais facilidade.
Não obstante, os projetos minerários são complexos e seu desenvolvimento leva tempo, já que implicam em investimentos financeiros, técnicos e sociais. Isto significa que, ainda que um governo seja realmente favorável ao livre mercado e às empresas, estas poderiam não chegar devido à complexidade do processo para implantar uma mina.
As manifestações — com um forte componente comunitário — também se tornaram muito mais frequentes, o que faz com que os investidores se mostrem ainda mais reticentes. No Chile, Argentina e Bolívia realizaram-se numerosas concentrações deste tipo nos últimos anos. Além disso, muitos países tentam agora desenvolver a exploração mineira do lítio em seu próprio território, o que intensifica a concorrência para atrair investimentos.
–Precisamente, poderia voltar ao caso boliviano? Como fez o presidente Rodrigo Paz seu novo reajuste?
-O governo de Rodrigo Paz é muito menos extremista que os de Kast e Milei. Apesar da controvérsia que suscitaram, o governo manteve os acordos relativos à gestão do lítio assinados pela administração anterior com empresas russas e chinesas. Esta decisão sugere um enfoque menos alinhado, o que reflete uma tendência mais ampla entre os países do Sul que buscam equilibrar suas relações com várias potências em lugar de alinhar-se exclusivamente com uma apenas.
–A extração também implica em fortes investimentos tecnológicos. Poderiam os governos de extrema direita promover tecnologias como extração direta de lítio (direct lithium extraction, DLE) para reduzir o impacto ao meio ambiente? Existe um discurso tecnológico específico da extrema direita, em particular na América Latina?
-Nos Estados Unidos se observa esta alienação entre a indústria tecnológica e a extrema direita. Fala-se frequentemente de “oligarquia tecnológica” e se analisa a propagação de uma ideologia neorreacionária.
Na América Latina, no entanto, não vejo provas de uma aproximação similar entre os governos de extrema direita e os promotores de soluções tecnológicas específicas como a extração direta de lítio. Esta se apresenta como um método mais respeitoso com o meio ambiente para extrair o lítio das jazidas de salmoura, uma água subterrânea muito salgada, rica em lítio, situada sob as salinas: em vez de extrair grandes quantidades de água e deixá-la evaporar, o que supõe uma perda considerável em arredores já áridos, a DLE consiste em filtrar os iones de lítio mediante processos químicos ou físicos, deixando a água embaixo da terra.
Não obstante, estudos científicos recentes começaram a questionar a capacidade da DLE para minimizar realmente o impacto ambiental. Este método poderia ter, apesar de tudo, consequências ecológicas e ainda é difícil avaliar em que medida preserva os ecossistemas.
Neste momento, não vejo provas sólidas que indiquem que os governos de direita promovam esta nova tecnologia de uma maneira que se distinga significativamente da dos governos progressistas anteriores.
–Em termos mais gerais, qual é a relação destes diferentes governos com os grandes grupos industriais?
-No Chile, no anterior governo de Boric, existia uma estratégia nacional sobre o lítio destinada a reformar a governança deste recurso, aumentar a implicação do Estado, reforçar as proteções ao meio ambiente e melhorar a consulta às comunidades indígenas.
No marco desta estratégia, o governo negociou a criação de uma empresa conjunta entre a empresa pública Codelco e a empresa privada SQM, especializada em lítio. Esta última tem um passado controvertido, marcado por vínculos com a ditadura de Pinochet, conflitos sociais, tensões com as comunidades locais, assim como acusações de corrupção e evasão fiscal. Apesar disso, o governo de Boric estabeleceu uma associação que previa que as atividades da SQM continuassem durante vários anos, o que lhe permitiu prolongar consideravelmente sua presença no Chile, ao mesmo tempo que previa que seu projeto se transformasse, a longo prazo, em uma empresa conjunta da que não seria o único proprietário.
Este projeto também estava vinculado ao uso potencial da tecnologia DLE: os responsáveis políticos esperavam que reduzisse os danos ao meio ambiente. No entanto, esta tecnologia ainda não foi implementada em escala comercial completa. Atualmente só existe um projeto na Argentina que a combina com os métodos de evaporação tradicionais.
Fica uma pergunta no ar: manterá o atual governo chileno este acordo de empresa conjunta ou o abandonará? Embora tenha recuado em matéria de proteção ao meio ambiente, é menos seguro que Kast interfira nos acordos de investimento existentes. Ainda é difícil definir a visão econômica de Kast, ainda que já saibamos que é reacionária e conservadora. Em todo caso, dar marcha a ré nestes acordos suporia um enfoque mais intervencionista em matéria econômica.
-Existe entre os dirigentes de direita da América Latina um discurso sobre o meio ambiente capaz de encontrar eco entre uma parte do eleitorado?
-Na América Latina, a combinação energética varia de um país para outro. O Chile, por exemplo, já conta com um sistema relativamente baixo em carbono, graças a uma importante contribuição da energia hidrelétrica, da energia solar e da eólica. Em termos mais gerais, muitos países da região se beneficiam de um legado de infraestruturas hidrelétricas, assim como de investimentos mais recentes em energias renováveis.
Por esta razão, as questões da transição energética não estão muito politizadas. Os indícios de uma intensa «guerra cultural» em torno das energias renováveis que se observam em outras regiões são menos evidentes aqui. Em troca, alguns países da América Latina, como a Argentina, dependem em maior medida dos combustíveis fósseis, em particular do petróleo e do gás. Milei não tem intenção de mudar esta situação.
Mal existe ecologismo de direita na América Latina: o discurso ecologista costuma ser radical e tende a ser associado às políticas de esquerda. Vincula-se com bastante facilidade aos direitos dos povos indígenas, às críticas anticapitalistas e a uma concepção holística da degradação do meio ambiente.
As atividades de extração de recursos na América Latina se encontram entre as mais intensas do mundo. Em consequência, o discurso dos ativistas anti extração se concentra em grande medida no meio ambiente, na terra, no solo, na água etc.
Dada a intensidade dos conflitos locais relacionados à extração de recursos na região, o tema do meio ambiente, assim como o feminismo, está estreitamente vinculado aos movimentos de oposição. Portanto, os líderes de direita tendem a considerar o ecologismo como uma causa fundamentalmente de esquerda e há uma apropriação muito pequena destes temas relativos ao meio ambiente por sua facção política.
–Poderia a guinada para a direita do “triângulo do lítio” marcar una nova era para a América Latina, ou talvez um retorno a padrões anteriores, como a alienação autoritária dos anos setenta e oitenta? Estamos assistindo ao regresso de um modelo em que países como o Chile servem de laboratórios para as reformas neoliberais, em particular no que se refere aos minerais críticos?
-É muito importante abordar a América Latina de uma perspectiva histórica, já que a região experimentou ciclos políticos recorrentes. O que observamos são várias ondas de alienação política entre os países da região. Em distintos momentos, seus governos tendem a compartilhar orientações ideológicas similares, já sejam de esquerda, de direita, democráticos ou autoritários.
Entre os anos 1930 e 1970, numerosos Estados da América Latina implementaram estratégias de desenvolvimento nacional. Entre estes países havia tanto regimes democráticos como regimes mais autoritários, mas todos compartilhavam um compromisso com um desenvolvimento impulsionado pelo Estado, que às vezes implicava em nacionalizações e medidas de proteção dos trabalhadores, como foi o caso de Salvador Allende no Chile e Juan Perón na Argentina.
A este período seguiu-se o auge das ditaduras, em sua maioria de direita, e a generalização das políticas neoliberais nos anos oitenta e noventa. Mesmo depois do retorno à democracia, numerosos governos — inclusive os centristas e socialdemocratas — mantiveram este marco econômico, frequentemente sob a pressão das instituições internacionais, da classe dirigente do país e dos grupos de pressão.
Na década de 2000, a «onda rosada» marcou um ponto de inflexão. Em seu apogeu, dois terços da população da América Latina viviam sob governos deste tipo. Não creio que exista outro exemplo de uma região do mundo tão extensa em que tantos governos tenham se alinhado.
–Qual é a situação atual?
-Durante a última década, a situação se fragmentou. Agora, na América Latina há governos de esquerda, de direita e de extrema direita. Brasil e México se situam claramente à esquerda, o que é relevante não só porque são países importantes da região (são um de seus motores econômicos e concentram mais da metade de sua população), mas também porque tanto Lula como Claudia Sheinbaum contam com partidos políticos muito institucionalizados. A esquerda também voltou ao Uruguai com a Frente Ampla.
Por outro lado, Javier Milei, José Antonio Kast e Nayib Bukele em El Salvador estão à frente dos governos mais marcados pela extrema direita que a América Latina conheceu em décadas.
Milei representa uma versão muito ortodoxa do neoliberalismo: tornou suas por completo as ideias econômicas libertárias, das que se orgulha. No entanto, nem todos os governos de direita são iguais. Kast falou muito de ordem pública durante sua campanha, mas muito menos de economia: sua visão não se inscreve realmente em uma ideologia ortodoxa e puramente liberal. Ainda que frequentemente seja associado ao neoliberalismo, ao regime de Pinochet, por quem Kast tem grande estima, também se apoiou em grande medida na intervenção do Estado para promover as indústrias de exportação.
Quando se reflete sobre o que é o neoliberalismo, a verdadeira questão não é como livrar-se do Estado, e sim como utilizá-lo para apoiar o investimento privado e a acumulação de capital em vez do bem-estar dos trabalhadores ou a regulamentação do meio ambiente. Pinochet recorreu amplamente aos poderes do Estado e aos recursos públicos para construir uma economia orientada para a exportação, concentrada no cobre, no salmão, na silvicultura, nas frutas e nas verduras, produtos e recursos de que o Chile é hoje um importante exportador.
Esta política não foi implementada por meio do livre mercado, e sim utilizando o poder do Estado para obrigar estas indústrias a atrair investimentos privados, a serem rentáveis e a orientarem-se para a exportação. Não sei o que fará Kast, mas este é um legado em que poderá apoiar-se.
Em todo o mundo está ocorrendo um retorno generalizado das políticas industriais, mesmo por governos de direita. Estas políticas têm como objetivo promover o crescimento econômico mediante a intervenção do Estado, mas com objetivos diferentes dos de governos de esquerda.
–Que vínculos existem entre o mercado do lítio e o das energias renováveis? Poderia o desenvolvimento deste último beneficiar os países da América Latina?
-A crise atual poderia acelerar a transição para as energias renováveis, já que explicita a volatilidade e os riscos associados aos combustíveis fósseis.
A demanda por lítio continua sendo forte. Os veículos elétricos são seu principal motor. Ainda que o crescimento desta demanda esteja diminuindo nos Estados Unidos devido à política de Trump, observamos na Europa, Ásia e África um aumento da mobilidade elétrica.
No mercado do lítio, outros setores muito mais em sintonia com a política de Trump estão ganhando importância. Um deles é o setor militar, já que a guerra moderna depende cada vez mais das baterias de íons de lítio: os drones são só um dos muitos exemplos de sistemas para os quais são indispensáveis. Os utilizados por Irã e Ucrânia não poderiam funcionar sem elas.
Os centros de dados constituem outra fonte de demanda em plena expansão, já que requerem sistemas de armazenamento em baterias em grande escala. Nos Estados Unidos, por exemplo, parte da produção de baterias se desviou dos veículos elétricos para orientar-se para os centros de dados. Esta mudança reflete a evolução das prioridades políticas.
–Com a rápida expansão das infraestruturas de inteligência artificial, não correm os países da América Latina o risco de serem incapazes de responder à explosão demanda?
-Os centros de dados costumavam depender em maior medida de geradores diesel para o fornecimento de emergência. Hoje em dia, observa-se uma transição crescente para os sistemas de baterias. Ainda que inicialmente houve inquietação quanto à segurança e a confiabilidade das baterias de íons de lítio, estas tecnologias estão sendo adotadas agora em maior escala.
Ao mesmo tempo, o mercado do lítio se caracterizou por uma grande volatilidade. Embora nos últimos anos a oferta tenha sido relativamente abundante, o que manteve os preços em um nível baixo, hoje em dia começamos a observar uma mudança de tendência. A demanda está aumentando agora mais rapidamente do que a oferta.
Esta diferença exerce uma pressão de alta sobre os preços, o que poderia fomentar novos investimentos. No entanto, como disse, os projetos mineiros levam muito tempo para desenvolverem-se e muitas vezes transcorre mais de uma década entre a descoberta e a produção. Quando o lítio esteja pronto para ser extraído, a situação da demanda pode ter mudado.
–Em seu livro Extraction4, explica como a América Latina integrou-se historicamente à economia mundial como fornecedora de matérias primas. Tendo em conta as recentes políticas estadunidenses, em particular no mandato de Trump, acredita que esta dinâmica vai continuar? Poderia provocar uma reação política contra os países demasiadamente alinhados com os Estados Unidos?
-Observa-se claramente como se intensifica esta dinâmica. De fato, é tão evidente que quase parece trivial analisá-la: reflete padrões históricos de longa data.
Há séculos, o papel da América Latina no sistema mundial está marcado pela extração de recursos e pelos intercâmbios desiguais: os países da região exportaram matérias primas e importaram produtos acabados.
Houve tentativas para sair deste esquema. Entre os anos 1930 e 1970, numerosos governos implementaram estratégias de desenvolvimento. Mais recentemente, durante a «onda rosada» a que me referia, houve novos esforços para promover a industrialização e reduzir a dependência. Hoje em dia, líderes como Lula no Brasil e Sheinbaum no México também levam a cabo políticas industriais.
No mandato de Trump, no entanto, os Estados Unidos adotaram uma política exterior ainda mais brutal, violenta, explícita e transacional do que no passado. Esta reflete uma forma de poder mais direta e coercitiva. Em certos aspetos, lembra alguns períodos de ingerência contínua dos Estados Unidos, política às vezes denominada «diplomacia dos canoneras».
Historicamente, os Estados Unidos intervieram na América Latina para garantir seu acesso aos recursos e apoiar governos amigos.
No entanto, a situação atual difere do passado em um aspecto importante: os países da América Latina dispõem de mais alternativas.
Podem estabelecer relações com a China, com outras economias emergentes, assim como com sócios regionais ou europeus. Esta diversificação poderia oferecer certa proteção frente às pressões unilaterais exercidas pelos Estados Unidos.
Notas
1 O lítio é um elemento fundamental da transição energética, especialmente para as baterias que permitem armazenar energias renováveis e descarbonizar setores muito contaminantes como o transporte e a energia. No entanto, sua extração tem uma série de problemas. Ao mesmo tempo, a crescente demanda de lítio e outros recursos críticos, como as terras raras, alimenta importantes tensões geopolíticas, já que estes materiais são agora estratégicos para as tecnologias energéticas, digitais e militares, e se encontram no centro das rivalidades entre grandes potências, como Estados Unidos, China e Europa.
2 Sobre esta convergência política em torno do lítio, ver Thea Riofrancos, «Latin America’s lithium triangle is now in the hands of the right», Financial Times, 8 de março de 2026.
3 O nacionalismo dos recursos, que também se observou na região entre os anos 1930 e 1970, refere-se à vontade de um Estado de recuperar o controle de suas riquezas naturais, limitando a influência estrangeira e dando prioridade a uma gestão nacional ou regional (em forma de projetos de coordenação do tipo «OPEP do lítio»).
4 Thea Riofrancos, Extraction. The Frontiers of Green Capitalism, Nova York, W. W. Nortion & Company, 2025. Ver também nossa entrevista em francês por ocasião da publicação da obra.

