No 78º aniversário da Nakba palestina, Nablus se destaca como uma das cidades palestinas mais profundamente enraizadas na memória e no significado. Sua história não se resume a um único momento; pelo contrário, a cidade se reinventou ao longo do tempo, preservando seu espírito urbano apesar das profundas transformações políticas e econômicas desde 1948.
Nablus
Localizada entre o Monte Ebal e o Monte Gerizim, Nablus possui um caráter geográfico único, combinando isolamento natural com abertura histórica. Conhecida desde os tempos cananeus como um dos centros urbanos mais antigos do norte da Palestina, desenvolveu-se posteriormente como uma cidade que desempenhou papéis econômicos, comerciais e culturais para além de seus limites locais, beneficiando-se de sua localização central entre as planícies, as montanhas e as regiões norte e central da Palestina.

Economicamente, Nablus esteve ligada a indústrias tradicionais que se tornaram parte de sua identidade, principalmente o sabão Nabulsi, feito de azeite, refletindo a profunda conexão entre a cidade e sua zona rural agrícola. Seus antigos mercados também funcionavam como o coração pulsante da vida cotidiana, formando uma rede socioeconômica que conectava a cidade às aldeias vizinhas e preservava modos de vida tradicionais.
Historicamente, Nablus é conhecida como “Pequena Damasco”, devido à semelhança de sua estrutura urbana com a das cidades levantinas, com seus mercados cobertos, vielas de pedra sinuosas e banhos otomanos. No entanto, essa semelhança reflete mais o caráter singular da experiência de Nablus do que uma mera imitação, já que a cidade incorpora um modelo urbano oriental em uma área geográfica limitada.
Após a Nakba de 1948, Nablus se transformou em um importante centro urbano na Cisjordânia, passando por significativas mudanças demográficas e econômicas, mas mantendo sua estrutura social e seu caráter histórico. Apesar de fazer parte de uma remodelação forçada da geografia palestina, continuou a funcionar como uma cidade viva, e não apenas como uma lembrança.
Após a guerra de 1967, a cidade enfrentou desafios adicionais que impactaram seu desenvolvimento econômico e urbano, mas permaneceu um centro comercial, cultural e educacional vital no norte da Palestina. Apesar das restrições, seus mercados e instituições continuaram funcionando, preservando seu dinamismo social.
Hoje, Nablus existe entre duas eras sobrepostas: uma era histórica, evidente em suas pedras e mercados antigos, e uma era contemporânea, que dita o ritmo da vida cotidiana. Essa sobreposição não representa uma contradição, mas um reflexo da capacidade da cidade de se adaptar e se reinventar constantemente.
A identidade de Nablus se revela no cotidiano: em seus mercados, no aroma do azeite e do doce knafeh, nas oficinas tradicionais de sabão e nos cafés que preservam as memórias de gerações sucessivas. Esses elementos não são meros vislumbres passageiros, mas parte de um modo de vida que garante a continuidade da cidade apesar dos desafios.
Palestina conquista espaço histórico na Federação Internacional de Jornalistas em Paris
A identidade de Nablus está intrinsecamente ligada ao seu símbolo cultural mais proeminente: o knafeh de Nablus*, que transcendeu a condição de tradição gastronômica para se tornar parte da memória coletiva e da economia local, além de um ícone cultural palestino consagrado. Sua origem remonta às oficinas e mercados da cidade, sendo transmitido de geração em geração como um ofício e um costume social que refletem o espírito do lugar.
Assim, Nablus permanece uma cidade que resiste ao apagamento por meio de seus detalhes cotidianos, reconstruindo a vida a partir da memória e preservando sua existência entre as duas montanhas como um ato contínuo de sobrevivência — não apenas como uma relíquia do passado, mas como uma cidade em permanente renovação apesar da Nakba e de suas consequências.
Nota:
O knafeh de Nablus (conhecido como Knafeh Nabulseyeh) é a versão mais famosa e tradicional dessa sobremesa do Oriente Médio. Originário da cidade de Nablus, na Palestina, ele é feito com uma massa crocante, recheado com um queijo local de fácil derretimento e coberto por uma calda doce e aromática.
