Mais uma vez, não é possível silenciar diante do escândalo envolvendo o Banco Master. Os números impressionam, mas o que mais choca é a naturalidade com que esquemas dessa magnitude parecem operar dentro das estruturas do poder.
Fala-se em uma propina de R$ 146 milhões, dos quais R$ 74,6 milhões teriam sido efetivamente pagos, convertidos em imóveis de alto padrão em Brasília e São Paulo. Beneficiário direto: Paulo Henrique Costa, então presidente do Banco de Brasília (BRB), instituição pública que deveria servir ao interesse coletivo.
Ao mesmo tempo, o BRB teria injetado cerca de R$ 12 bilhões no Banco Master para adquirir carteiras de crédito consignado inexistentes. Uma operação que, se confirmada, revela não apenas má gestão, mas uma engrenagem sofisticada de desvio de recursos públicos.
A prisão de Paulo Henrique Costa, no dia 17 de abril, durante a quarta fase da Operação Compliance, que investiga os crimes atribuídos a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, é apenas a ponta visível de um esquema que, ao que tudo indica, vinha sendo alimentado há anos.
A relação entre o BRB e o Master não é recente. Já em 2024, o banco estatal teria atuado para injetar recursos e evitar a quebra da instituição privada, levantando sérias dúvidas sobre cumplicidade, conivência e uso indevido de recursos públicos.
Tudo isso ocorre sob o olhar das autoridades locais. É difícil acreditar que operações dessa escala tenham ocorrido sem conhecimento das mais altas instâncias do governo do Distrito Federal.
Mas há um outro lado dessa história, talvez ainda mais revelador do país que estamos nos tornando.
Enquanto bilhões circulam em esquemas suspeitos, cerca de 82 milhões de brasileiros estão inadimplentes, acumulando dívidas que somam R$ 539 bilhões. Quase 80% dessas pessoas têm renda de até dois salários mínimos.
A taxa de desemprego atinge níveis historicamente baixos, mas isso não se traduz em alívio para a população. Ao contrário: a taxa Selic permanece em patamares próximos de 15% ao ano, impondo um custo financeiro insuportável.
Na prática, isso significa que o cidadão comum destina, em média, 70,5% de sua renda para pagar dívidas e despesas básicas como água, luz, telefone e aluguel. Trabalha-se para sobreviver, não para viver.
De um lado, jatinhos, imóveis de luxo e cifras milionárias. De outro, um povo esmagado pelo endividamento e pela ausência de perspectivas.
Esse contraste não é acidental. Ele revela a lógica de um sistema que protege o privilégio e transfere o peso da crise para os de baixo.
O escândalo do Banco Master não é um episódio isolado. É mais um sintoma de um modelo que naturaliza a promiscuidade entre o público e o privado, enquanto condena a maioria da população à precariedade.
Estamos em ano eleitoral. É o momento de exigir dos candidatos não apenas discursos, mas propostas concretas e soluções sistêmicas para enfrentar a corrupção, que não é um desvio ocasional, mas um traço estrutural de um sistema que se alimenta da desigualdade.
Cannabrava | Banco Master: quando o dinheiro captura o Estado
O campo democrático, se quiser se afirmar como alternativa real, precisa mudar de rumo. Não basta administrar a crise: é necessário apresentar um projeto de salvação nacional, capaz de recuperar a soberania, reorganizar a economia e colocar o Estado a serviço da maioria.
Sem isso, os escândalos continuarão a se repetir — e o abismo seguirá se aprofundando.

