No dia 1º de abril de 1964, cheguei para trabalhar no jornal Última Hora e encontrei o prédio cercado por tropas do general Amaury Kruel, comandante do II Exército. Era compadre do presidente João Goulart. Traiu o amigo, traiu o Brasil. Naquele dia, perdi dois empregos: o de repórter político e o de correspondente da agência Prensa Latina, uma voz alternativa ao monopólio informativo das grandes agências ocidentais.
O golpe não foi apenas uma quartelada interna. Teve apoio explícito dos Estados Unidos. Uma frota naval foi deslocada em direção ao litoral sul, pronta para intervir caso houvesse resistência. Não foi necessário. A ruptura institucional se consumou com rapidez, e hoje há ampla documentação — inclusive audiovisual — que comprova a participação estadunidense na derrubada do governo constitucional.
Nos primeiros dias, instalou-se o terror. Os Inquéritos Policiais Militares (IPMs) varreram o país. Sindicalistas, lideranças populares, intelectuais, todos foram perseguidos. Muitos foram presos, outros empurrados ao exílio. Faltaram cadeias: improvisaram-se prisões, como o navio Raul Soares, onde homens eram jogados nos porões como inimigos a serem eliminados. Era o início de uma ditadura que duraria 21 anos.
Houve resistência. Organizações de esquerda optaram pela luta armada diante do fechamento completo das vias democráticas. Foram esmagadas com violência. Ficaram pelo caminho centenas de combatentes, homens e mulheres que enfrentaram o regime com coragem. São parte de uma galeria de heróis que a história oficial insiste em silenciar ou distorcer.
Mas o golpe de 1964 não pertence apenas ao passado. Sua lógica permanece. O que se impôs ali foi mais do que um regime militar: foi a submissão do país a um modelo de dominação, hoje ainda mais sofisticado. O imperialismo já não se apresenta apenas pelas armas, mas pela hegemonia do capital financeiro e pelo controle das narrativas. A chamada “ditadura do pensamento único” continua a enquadrar o debate público e a limitar os horizontes de transformação.
As grandes agências internacionais seguem filtrando o mundo sob a ótica do sistema dominante. A dependência econômica se aprofunda. A soberania continua sendo um projeto inacabado. O que mudou foram os instrumentos; a lógica de fundo permanece.
Rememorar o 1º de abril é mais do que um exercício de memória. É um ato político. É reconhecer que a luta pela soberania, pela democracia real e por um projeto nacional de desenvolvimento ainda está em aberto. E que cabe às novas gerações retomar esse fio da história, interrompido à força, para que o Brasil deixe de ser tutelado e passe a decidir o seu próprio destino.
As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

