Milhares de casos, maioria de vítimas jovens, e uma resposta pública insuficiente expõem a falência das políticas de proteção no Brasil
Entre 2022 e 2025, o Brasil registrou nada menos que 22,8 mil casos de estupro coletivo. Uma média de 15 por dia. Quinze. É um número que por si só já deveria paralisar o país, provocar indignação generalizada e mobilizar uma resposta contundente do Estado. Mas não é isso que vemos.
Os dados revelam uma tragédia ainda mais profunda: das vítimas, 8.400 são mulheres adultas e 14.400 são crianças e adolescentes. Ou seja, a maior parte das vítimas são jovens, muitas ainda em fase de formação, expostas a uma violência brutal que deixa marcas permanentes. Isso revela não apenas a dimensão do crime, mas a vulnerabilidade estrutural de quem deveria estar sob máxima proteção.
Os registros oficiais mostram uma escalada preocupante. Em 2022, foram 4.405 casos de estupro coletivo registrados no sistema de notificação de agravos. Em 2023, o número saltou para 5.952. Em 2024, chegou a 6.476. Em 2025, foram 6.063 casos. E todos os especialistas são unânimes: esses números são subnotificados. A realidade é ainda mais grave.
O caso recente da adolescente de 17 anos no Rio de Janeiro, vítima de estupro coletivo praticado por quatro homens, incluindo um menor, chocou a opinião pública. Mas o choque dura pouco. Casos assim surgem, provocam indignação momentânea e logo desaparecem do debate, enquanto a violência segue seu curso cotidiano, invisível para grande parte da sociedade.
Do ponto de vista legal, a pena para o estupro coletivo varia de seis a dez anos, podendo chegar de oito a 12 anos quando a vítima é menor (14 a 18 anos) e de 10 a 18 anos no caso de vulnerável (menor de 14 anos e pessoa com deficiência). A pergunta que se impõe é: isso tem sido suficiente para coibir o crime? A reincidência, a escalada dos números e a brutalidade dos casos sugerem que não.
O que falta é uma política efetiva de proteção. Falta prevenção, falta educação, falta presença do Estado nos territórios mais vulneráveis, falta apoio às vítimas e suas famílias. Falta, sobretudo, tratar essa questão como prioridade nacional e não como mais um dado estatístico que se acumula em relatórios.
Cannabrava | 8 de Março: conquistas históricas e a violência que persiste
Estamos diante de uma barbárie cotidiana. Uma violência sistemática que expõe a falência de políticas públicas e a incapacidade de proteger os mais vulneráveis. Não se trata apenas de punir depois do crime. Trata-se de impedir que ele aconteça.
Enquanto isso não for enfrentado com a seriedade que exige, seguiremos convivendo com esses números inaceitáveis — e com uma realidade que envergonha qualquer sociedade que se pretenda minimamente civilizada.
As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

