Após dez meses no exterior, a líder do Vente Venezuela retorna em meio ao diálogo entre o governo de Delcy Rodríguez e setores opositores apoiados por Washington; calendário eleitoral segue indefinido
A líder opositora venezuelana María Corina Machado voltou à Venezuela no domingo 25 de outubro, após 10 meses no exterior e depois de afirmar, em várias ocasiões, que o governo de Delcy Rodríguez a impedia de entrar no país. Machado apareceu cercada por militantes de sua organização política, Vente Venezuela, no santuário da Divina Pastora, no estado de Lara, na região centro-oeste do país.
“Estou aqui. Com vocês”, escreveu Machado no X pouco antes do meio-dia. Sua saída, no final de 2025, teve como objetivo central ir buscar o Prêmio Nobel da Paz que lhe foi concedido naquele ano. Em seguida, viajou aos Estados Unidos para fazer lobby na Casa Branca e, depois de 3 de janeiro, conseguiu se reunir com Donald Trump, a quem presenteou com o diploma do Nobel e disse que ele merecia esse prêmio após ter bombardeado seu país e sequestrado o presidente Nicolás Maduro.
Até o fechamento desta edição, o governo não havia se pronunciado sobre o retorno de Machado ao país. Embora tenha sido acusada de crimes como traição à pátria, incitação à insurreição e promoção da intervenção estrangeira, Machado nunca foi detida.
Liderança à sombra de Washington
María Corina Machado se apresenta como a líder mais proeminente do antichavismo mais extremista. No entanto, não conta com o apoio da Casa Branca, que, desde 3 de janeiro, após a agressão militar contra a Venezuela, exerce, de fato, uma influência decisiva sobre o cenário político venezuelano. Washington apoiou reiteradamente o governo de Delcy Rodríguez e promoveu uma mesa de diálogo entre este e um setor da oposição diferente daquele liderado por Machado. Esse setor, liderado por Dinorah Figuera e por um grupo de ex-parlamentares que se autodenominam “Assembleia Nacional 2015”, representa uma ala mais moderada da oposição e recebeu o apoio explícito do governo estadunidense, particularmente do secretário de Estado Marco Rubio.
Figuera afirmou no domingo que o retorno de Machado à Venezuela “é um resultado direto de 3 de janeiro e da força do diálogo”. Um comunicado do grupo “Assembleia Nacional 2015” reafirmou essa ideia, assegurando que “representa um passo significativo na implementação do plano de três fases promovido pelo governo dos Estados Unidos para a reinstitucionalização da Venezuela”. O grupo afirma que “a mesa de diálogo continuará produzindo resultados concretos”.
Por sua vez, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, sustentou que as condições que permitiram “o retorno seguro da Sra. Machado” são “resultado direto das conversas de reconciliação apoiadas pelos Estados Unidos”.
No entanto, ao ser questionado sobre o retorno de Machado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou: “Não sei nada sobre isso, mas espero que ela esteja bem”. Ele reiterou o que sempre diz quando lhe perguntam sobre a líder venezuelana: “Ela é uma mulher muito agradável. Ela me entregou seu Prêmio Nobel, então o que mais posso dizer? Espero que esteja bem, mas estamos indo muito bem na Venezuela”.
Espera-se que a presença de Machado sirva para exercer pressão sobre a mesa de diálogo, a fim de acelerar a definição de uma data para as eleições presidenciais. Dinorah Figuera afirmou na semana passada que isso “pode demorar” e estimou que a eleição poderia ocorrer “no final do próximo ano ou no início de 2028”.
Segundo uma pesquisa realizada pela empresa Delphos e pela Universidade Católica Andrés Bello em junho de 2026, o chavismo, representado pelo governo de Delcy Rodríguez, conta com 16,3% de apoio, o menor índice histórico desde as grandes maiorias que Hugo Chávez conseguiu reunir na primeira década do século. O estudo indica que a oposição concentra 43% do apoio, dos quais 29,1% correspondem a María Corina Machado.
Dentro da oposição venezuelana, há outras figuras proeminentes que, no entanto, não disputam diretamente com Machado a liderança oposicionista. Entre elas, destacam-se Henrique Capriles, duas vezes candidato à Presidência; Lorenzo Mendoza, bilionário proprietário do conglomerado alimentício Empresas Polar, que sempre aparece nas pesquisas, embora nunca tenha participado da política; e uma figura emergente: Gustavo Duque, prefeito do município de Chacao, na região metropolitana da capital, muito popular em sua jurisdição e que viajou várias vezes a Washington neste ano para realizar suas próprias articulações junto a funcionários do governo dos Estados Unidos.
