O Datafolha desta quinta trouxe poucas novidades.
O que mais interessa é procurar o movimento que aparece por baixo das diferenças das pesquisas.
A eleição continua cada vez mais concentrada em Lula e Flávio Bolsonaro, e uma parcela relativamente pequena de eleitores pode ser decisiva para seu desfecho.

No Datafolha desta quinta, os dois já somam 75% dos votos totais. Quando se consideram apenas os votos válidos, Lula tem 43%, Flávio 39% e todos os demais candidatos juntos, 16%.
A trajetória de Augusto Cury ajuda a contar essa história.
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Sua explosão inicial parece ter encontrado um teto, mas não desapareceu. Ele saiu de 2% em agosto para 8% no começo de setembro, caiu para 6% na semana passada e permaneceu nos mesmos 6% agora. Atlas, Nexus, Quaest e CNT/MDA também o colocam hoje entre 3,5% e 7%.
Portanto, é cedo para declarar encerrado o fenômeno Cury.
Mas a pergunta que O Fio da Eleição vem fazendo continua válida:
para onde irá esse voto se a polarização continuar apertando?
No Datafolha, apenas 3% dizem não saber em quem votar quando recebem a lista de candidatos, ou seja, na pesquisa estimulada.
Na pesquisa espontânea, porém, o quadro é muito mais aberto. Lula aparece com 35%, Flávio com 26%. Ou seja, existe uma diferença relevante entre declarar uma preferência quando os nomes são apresentados e lembrar espontaneamente de um candidato.
É nesse espaço que estão os eleitores que já podem apontar uma preferência, mas ainda não necessariamente transformaram essa preferência numa decisão definitiva.
E eles importam muito numa eleição separada por três pontos.
O STF não saiu de cena
André Mendonça perdeu a possibilidade de apresentar o caso como uma história restrita a Alexandre de Moraes. As mensagens do celular de Daniel Vorcaro atingiram círculos próximos de outros ministros e, nesta quinta-feira, a Polícia Federal entregou a Mendonça e Luiz Fux a íntegra dos dados que já haviam sido fornecidos a outros integrantes da Corte.

Ao mesmo tempo, o Supremo não conseguiu produzir a resposta institucional esperada.
O pedido de vista de Flávio Dino interrompeu o julgamento antes do mérito, e Fachin cancelou agora a sessão do próximo dia 23 que examinaria a conduta de Mendonça. Não há nova data.
A batalha foi diluída. Não foi encerrada. E o próprio Supremo saiu desgastado dela.
Cannabrava | Supremo em crise aberta
O pedido de desculpas de Cármen Lúcia na sessão de terça-feira talvez continue sendo a imagem mais forte desse desgaste: uma ministra da Corte reconhecendo diante do país o constrangimento produzido pelo próprio tribunal.
Isso tem consequência política.
O discurso contra o STF continua sendo explorado por Flávio Bolsonaro e por setores da direita. Analistas apontam que o tema funciona hoje como elemento de coesão desse eleitorado.
Mas o novo Datafolha também recomenda cuidado antes de atribuir à crise poderes que ela talvez não tenha.
A pesquisa anterior já mostrava que 85% dos entrevistados não haviam mudado de candidato por causa das denúncias envolvendo Moraes e 86% diziam o mesmo diante das suspeitas relacionadas a Mendonça.
Agora, depois da tumultuada sessão do STF, Lula mantém os mesmos 39%, Flávio oscila um ponto, de 35% para 36%, e o segundo turno permanece exatamente em 46% a 44%.
Não aparece, até aqui, evidência de uma migração notável provocada pela crise. Ela desgasta. Pode reforçar rejeições. Pode mover parcelas pequenas que, numa eleição apertada, se tornam importantes.
Mas a eleição tem vida própria.
Dois países dentro da mesma eleição
O Datafolha mostra também como os dois grandes campos continuam social e geograficamente distintos.
Lula marca 46% contra 29% de Flávio Bolsonaro entre os eleitores de renda mais baixa, e 56% a 26% no Nordeste. Entre os católicos, tem 43% contra 34%.
Flávio Bolsonaro chega a 45% contra 27% no Sul, 48% contra 26% entre evangélicos e lidera nas faixas de renda superiores. No Sudeste, onde estão 42% dos entrevistados, aparece numericamente à frente: 37% a 35%.
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Há quase dois mapas eleitorais sobrepostos.
E há outro dado especialmente revelador.
Entre quem recebe Bolsa Família ou mora com beneficiário, Lula tem 53% e Flávio, 28%. Entre quem não está ligado ao programa, há empate técnico: Flávio 37%, Lula 36%.
O reajuste de 15% no Bolsa Família anunciado nesta quinta-feira praticamente não entrou nesta pesquisa, porque a maior parte das entrevistas já havia sido realizada. Portanto, seu eventual efeito só poderá ser medido adiante.
Ao mesmo tempo, a avaliação do governo oferece a Lula um pequeno sinal de melhora, mas ainda muito distante de uma recuperação consolidada.
Ótimo e bom passaram de 32% para 34%. Ruim e péssimo permaneceram em 42%. A aprovação pessoal está em 48%, contra 50% de reprovação. Todas essas diferenças estão dentro ou muito próximas da margem de erro.
É um suspiro. Ainda não uma mudança de vento.
Mas a campanha de Lula pode provocá-la.
Medo, comparação e o que vem depois
As duas campanhas começam, por isso, a mudar ou reforçar alguns temas.
Flávio insiste em segurança pública e mantém o confronto com o Supremo como componente de sua campanha. Lula começa a deslocar sua propaganda para preço dos alimentos, renda, pequenos empreendedores e políticas sociais; nesta quinta-feira, sua campanha preparava um programa sobre custo de vida e aumento do limite do MEI, além do reajuste do Bolsa Família.
Segurança continuará no centro.
A BTG/Nexus mostrou recentemente que 45% dos entrevistados percebiam piora nessa área, um dos indicadores mais negativos captados na pesquisa.
Isso ajuda a explicar por que a campanha presidencial começa a sair da abstração da crise institucional e retornar para perguntas muito mais próximas da vida cotidiana.
Quanto custa comer?
É possível andar na rua sem medo?
Como fica a jornada de trabalho?
O emprego está melhor?
A renda chega ao fim do mês?
O que acontecerá nos próximos quatro anos?
É nesse ponto que a reta final talvez ganhe sua verdadeira dimensão.
Durante boa parte das últimas semanas, a eleição foi narrada pelo veto.
O eleitor que rejeita Lula.
O eleitor que rejeita Bolsonaro.
O eleitor que teme Moraes.
O eleitor que teme a volta do bolsonarismo.
O Datafolha desta quinta mostra aonde essa lógica nos trouxe: 47% rejeitam Lula e 47% rejeitam Flávio Bolsonaro.
Um empate de vetos.
Mas eleição nenhuma termina na rejeição.
Em algum momento, o eleitor precisa escolher o que vem depois.
E talvez seja essa a principal diferença entre a eleição de algumas semanas atrás e a eleição que começa a aparecer agora.
A comparação com o passado continuará sendo inevitável.
A memória da pandemia estará presente.
Assim como estarão os resultados do atual governo, o governo Bolsonaro, a crise econômica, o STF, o Banco Master, Dark Horse, a segurança pública e tudo aquilo que cada campo utilizará para lembrar ao eleitor o que teme no adversário.
Mas faltam pouco mais de duas semanas para o primeiro turno.
O presidente Lula vai abrir a Assembleia Geral da ONU, em Nova York, e quando voltar estará a 9 dias do 4 de outubro.
O Fio da Eleição aponta que a campanha pode destacar fortemente o papel de estadista internacional de Lula na ONU, a tabelinha com o vice Alckmin — que ficará na presidência interina — e incidir de forma impactante e criativa nessa reta final, focando principalmente nos eleitores móveis e indecisos, animando e mobilizando a militância e apoiadores nas redes e nas ruas.
A chama ainda pode ser acesa.
