Passados 50 anos do golpe militar de 1976, a Argentina revisita uma das páginas mais sombrias de sua história. Não se trata apenas de um exercício de memória, mas de um compromisso político e moral com a verdade. Foi uma ditadura brutal, marcada por uma repressão sistemática e clandestina, que transformou o Estado em máquina de sequestro, tortura e morte.
As estimativas de organizações de direitos humanos apontam para até 30 mil mortos e desaparecidos. O relatório oficial da Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (CONADEP), no entanto, registrou 8.961 casos documentados — número que, por si só, já revela a dimensão do horror, mas que está longe de expressar sua totalidade. A própria comissão reconheceu que os dados eram incompletos, diante da natureza clandestina da repressão.
Foi, em termos de violência, uma das ditaduras mais duras do continente, comparável à de Augusto Pinochet, no Chile. Mas a singularidade argentina está na escala e no método: centros clandestinos de detenção espalhados pelo país, desaparecimentos sistemáticos e o uso do terror como política de Estado. Não era apenas reprimir opositores — era apagar pessoas, suprimir identidades, instaurar o medo como forma de controle social.
A resposta da sociedade argentina, no entanto, também se tornou referência. As Mães e Avós da Praça de Maio transformaram a dor em luta, exigindo memória, verdade e justiça. Décadas depois, a Argentina segue sendo um dos poucos países da região que avançaram de forma consistente no julgamento dos responsáveis, rompendo com a lógica da impunidade que ainda persiste em outras partes da América Latina.
Relembrar esse período não é apenas olhar para o passado. É compreender os mecanismos que permitem a degradação da democracia quando o Estado se coloca acima da lei. É reconhecer que a violência institucional, quando naturalizada, abre caminho para tragédias que deixam marcas por gerações.
50 anos depois, a memória permanece como um campo de disputa. Há quem tente relativizar, reduzir números, reescrever a história. Mas os desaparecidos não são estatística — são vidas interrompidas, famílias destruídas, um país marcado por cicatrizes profundas.
Lembrar é resistir. E, sobretudo, é afirmar que nunca mais se aceitará que o poder se exerça à margem da lei e contra o próprio povo.
As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

