Um erro comum entre os argentinos que avaliam a política do Brasil é acreditar que se trata simplesmente de um país que está “aqui ao lado”, onde se fala um idioma muito parecido.
Mas o Brasil tem razões antropológicas que justificam uma idiossincrasia muito diferente, além de regras próprias de formalidade, ética e comportamento interpessoal.

A ponta do novelo poderia estar em nossos diferentes processos de independência. As Províncias do Sul chegaram a ela com muito derramamento de sangue, em um percurso de batalhas infernais.
No Brasil, o imperador português Dom Pedro I abdicou em Portugal e declarou a independência do “Império do Brasil”. Um pouco mais tarde, as tropas do Marechal Deodoro da Fonseca derrubaram através de um golpe o gabinete imperial, instaurando a República. Não sem mártires, não sem lutas internas (Bahia, Pará e a Cisplatina), mas nada que possa ser comparado.
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O Brasil se construiu monoliticamente brasileiro. A Argentina, como “crisol de raças”, que não apenas não conseguiu amalgamar-se, como também importou as neuroses e rivalidades europeias centenárias, que choveram pelos pampas para “fare la América e voltar”.
Os brasileiros não pensam em ir embora. E os que vão, só pensam em “voltar”.
Graças a esses parâmetros e, em termos gerais, atrevo-me a dizer que os argentinos se tornaram de temperamento restritivo e os brasileiros, propositivos.
Em contrapartida, o povo brasileiro sempre esteve à margem das grandes decisões nacionais. Não consultado e de forma alguma considerado, teve um substrato fértil para sua folclórica e escassa politização.
Dos porões da fome que sepulta corpos, esperanças e futuro, surgiu Lula. Surgiu no país onde morriam trezentas crianças por dia por doenças relacionadas à fome.
Lula, o amigo de Lech Wałęsa, que distribuía panfletos com Franco Montoro na saída das fábricas, despertando desconfianças em Leonel Brizola e na então eleitoralmente incipiente esquerda brasileira.
Lula não se reconhece como sendo de “esquerda”, mas conquistou para o povo brasileiro um padrão que Michelle Bachelet nem Gabriel Boric conseguiram para o povo chileno, para citar um exemplo.
Melhor um democrata autêntico do que um esquerdista fajuto.
Mas, em tempos em que a única verdade é a narrativa virtual, os fatos concretos não são suficientes.
Lula não conseguiu vencer no primeiro turno, mas tampouco Bolsonaro “versão remix” (com o endosso da candidatura do pai presidiário ao filho enlameado por crimes e corrupção). Se Bolsonaro filho tivesse vencido, seria presidente. O que houve foi um empate técnico, mas, curiosamente, a esquerda repete a narrativa de que “Bolsonaro ganhou”, fazendo concessões cognitivas incompreensíveis.
O governo Lula ostenta:
- Superávit comercial.
- Crescimento contínuo do PIB.
- Inflação sob controle.
- Fome zero!
- Recuperação do poder de compra no mercado interno.
- O índice Bovespa acumulou um ganho de 34% em 2025, superando pela primeira vez os 160 mil pontos; ao mesmo tempo, o real brasileiro registrou sua maior valorização frente ao dólar em nove anos.
- “Risco-país” muito baixo.
- Um histórico invejável de investimentos.
- Um índice de desemprego brilhantemente recuperado; a taxa de desemprego continua caindo, atingindo 5,6% no trimestre encerrado em maio de 2026, o melhor nível para esse período desde 2012. O desemprego já havia caído para 5,8% no início do ano.
- A renda média real dos trabalhadores atingiu seu nível mais alto já registrado, subindo de 3.198 reais para 3.507 reais, com uma redução significativa da pobreza.
- A proporção da população pertencente à classe média atingiu 61%.
- Forte recuperação dos investimentos por meio do “Novo PAC” e do plano “Nova Indústria Brasil”.
- Atração de investimento estrangeiro real (não empréstimos para endividamento): em 2025, o Brasil atraiu 77,7 bilhões de dólares em investimento estrangeiro direto, a maior quantidade em sete anos, consolidando-se como o segundo destino de investimento estrangeiro mais atraente.
(Dados de estatísticas internacionais)
Por que, diante de um cenário como esse, Lula não conseguiu vencer no primeiro turno, diante do risco de que retorne o desastre do governo de Bolsonaro pai?
Mas, embora Lula esteja em empate técnico com Bolsonaro remix, nas eleições para senadores e deputados ele perde de forma lastimável. Qual é o fenômeno? Por que o povo vota nele, mas joga esquizofrenicamente contra ele, dificultando sua governabilidade caso vença? (Como ocorre atualmente com o “Centrão”, como mercado de transações, e não de ideologias.)
Será porque Lula soube conquistar a confiança do povo, mas o PT não?
Será porque o povo reconhece sua capacidade, mas principalmente uma sensibilidade e humildade que faltam a um partido que se tornou hermético, no qual a juventude não encontra respostas para suas legítimas e necessárias aspirações políticas?
Ou será também que, por alguma condição inexplicável, o PT abdica da comunicação, entregando ao poder o controle da retórica? (Arte e técnica de usar a linguagem de maneira clara, elegante e eficaz para persuadir, convencer, comover ou condicionar um público.)
Como é possível que os evangélicos tenham a emissora de TV Record e centenas de rádios… e o PT e/ou o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, nada?
Vocês não acreditam que o povo possa ser manipulado pelos grandes meios de comunicação? Então não acreditam no efeito placebo. Caramba… mas esse efeito funciona, e mais do que muitos gostariam.
Diz-se que sete repetições equivalem a uma convicção (efeito da ilusão da verdade). Sabe-se que uma convicção sem conhecimento leva ao fanatismo. É heurístico, mas tem confirmação experimental.
Essa “suspeita inocência” de abdicar da comunicação é uma careta continental, do Rio Bravo para o sul. E digo “suspeita inocência” porque não acredito que não tenham percebido algo tão evidente.
Agora está em jogo não apenas o destino do Brasil, mas também o do continente; e já sabemos que os omissos nunca se responsabilizam. Guardo a esperança de que haja água, músculo e cérebro para evitar o incêndio, mas o alerta não deve deixar de ser dado.
Paciência, sou Enrique Box, o Dr. Ovelha Negra
(Especialista no que não faz a menor ideia.)
P.S.: Mas, se preferirem, culpem o povo; é mais cômodo bater no mais fraco.
