A sequência dos acontecimentos é difícil de ignorar. Primeiro, o governo de Donald Trump revogou o visto do procurador-geral da Bolívia, Roger Mariaca, acusando-o de corrupção e de receber subornos para facilitar o narcotráfico e permitir que criminosos escapassem da Justiça. Mariaca negou as acusações e afirmou que a medida representava uma forma de pressão sobre as instituições bolivianas.
Dias depois, o mesmo procurador, responsável por investigações contra o argentino Fernando Cerimedo, foi detido pela polícia no aeroporto de Viru Viru, em Santa Cruz. Até o momento, as autoridades não apresentaram publicamente a razão da prisão.
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A Procuradoria boliviana classificou a detenção de Mariaca como ilegal e denunciou simultaneamente uma intervenção policial em sua sede, em Sucre. Segundo a agência EFE, agentes com o rosto coberto e coletes de uma unidade policial de inteligência foram vistos nas instalações da Procuradoria.
Também foi detido o procurador departamental de Santa Cruz, Alberto Zeballos, igualmente incluído na lista de funcionários bolivianos sancionados por Washington.
A cronologia é o centro da questão
A cronologia dos acontecimentos merece escrutínio.
Em 28 de setembro, Mariaca havia declarado que não recuaria “nem um centímetro” das investigações sobre Cerimedo.
Segundo a Agência de Notícias Fides, o procurador afirmou expressamente que continuaria trabalhando no caso envolvendo o consultor argentino e nas investigações relacionadas à tentativa de feminicídio contra Nadia Beller e à suposta legitimação de ganhos ilícitos.
No dia seguinte, os Estados Unidos anunciaram a revogação do visto de Mariaca e o acusaram de corrupção. O próprio procurador relacionou publicamente a decisão às investigações que conduz e mencionou especificamente o caso Cerimedo.
Quem ganha com o afastamento do investigador?
Fernando Cerimedo não é um personagem periférico da política latino-americana. O consultor argentino trabalhou na comunicação digital de Javier Milei e de Rodrigo Paz e construiu relações com setores da direita regional. Em fevereiro de 2026, recebeu em Mar-a-Lago um prêmio como consultor político hispânico do ano, em uma cerimônia realizada na residência de Donald Trump.
No Brasil, Cerimedo ganhou notoriedade em 2022 ao participar de uma transmissão na qual sustentou, sem apresentar provas, que as eleições presidenciais brasileiras haviam sido fraudadas. A atuação de Cerimedo também foi relacionada a redes digitais utilizadas por políticos de direita em diferentes países latino-americanos.
Na Bolívia, porém, ele passou de operador político a investigado.
A Procuradoria ampliou as investigações contra Cerimedo por suspeitas de usurpação de funções e legitimação de ganhos ilícitos, além do processo relacionado ao suposto atentado contra Nadia Beller. Ele também é alvo de outras investigações, incluindo violência doméstica e possíveis irregularidades relacionadas a voos.
Cerimedo nega as acusações, e sua defesa afirma que ele é vítima de uma armação política.
O risco agora é institucional
É aqui que o episódio deixa de ser apenas mais um capítulo de uma investigação criminal.
Se Mariaca é afastado ou permanece impedido de exercer suas funções justamente quando conduz investigações politicamente sensíveis, surge uma questão institucional que não pode ser ignorada: quem assumirá o controle dos processos e com quais garantias de independência?
A detenção não significa automaticamente que as investigações contra Cerimedo serão anuladas. Tampouco significa que ele será liberado. Mas pode alterar substancialmente o ambiente em que essas decisões serão tomadas.
Cerimedo está preso preventivamente e responde a diferentes investigações. Em setembro, a Justiça havia determinado sua permanência em Chonchocoro por 180 dias no processo relacionado à investigação por enriquecimento ilícito.
Portanto, uma eventual libertação dependerá das decisões judiciais correspondentes, e não simplesmente da prisão de Mariaca. Mas há uma diferença importante entre a possibilidade jurídica de libertação e uma eventual mudança política no contexto que envolve o processo. É essa segunda dimensão que precisa ser acompanhada.
A acusação contra Mariaca também precisa ser investigada
Os Estados Unidos acusam Mariaca de corrupção e de facilitar atividades ligadas ao narcotráfico. Até agora, segundo a Agência Brasil, o Departamento de Estado não apresentou publicamente as provas dessas acusações. O governo boliviano afirmou que solicitará informações a Washington para que os fatos possam ser investigados internamente.
E aqui surge uma questão que ultrapassa o caso Mariaca: crimes cometidos na Bolívia, envolvendo autoridades bolivianas e cidadãos submetidos à jurisdição boliviana, deveriam ser investigados e julgados pelas instituições do próprio país, e não transformados em matéria de tutela judicial ou política dos Estados Unidos. Acusações de corrupção ou de envolvimento com o narcotráfico devem ser apresentadas às autoridades competentes, com provas e respeito ao devido processo. A soberania de um país não pode ser substituída por sanções, pressões ou acusações produzidas por uma potência estrangeira.
Isso significa que existem duas questões diferentes: A primeira é saber se as acusações contra Mariaca são verdadeiras. Se existem provas de crimes, elas devem ser apresentadas e submetidas à investigação e à Justiça bolivianas, sem privilégios para autoridades e sem interferência externa. A segunda é saber se sua detenção na Bolívia está relacionada a essas acusações ou a outros fatos.
Nenhuma acusação contra Mariaca pode servir como justificativa para retirar da Bolívia o direito de investigar seus próprios agentes públicos e decidir, por meio de suas instituições, quem deve ser responsabilizado e julgado. Se houve crime, que os responsáveis sejam julgados onde os fatos ocorreram e perante a Justiça competente.
O caso Cerimedo não pode desaparecer junto com Mariaca
Se existem provas contra Cerimedo, elas devem sobreviver à saída, ao afastamento ou à prisão de qualquer procurador. Se existem provas de que Mariaca cometeu crimes, elas devem ser apresentadas e investigadas.
Mariaca havia dito que não recuaria “nem um centímetro” do caso Cerimedo. Poucos dias depois, foi detido. Ainda não se sabe oficialmente por quê. Enquanto isso, Fernando Cerimedo permanece preso, mas o futuro de sua prisão preventiva pode ser alterado pelas próximas decisões judiciais.
Nadia Beller: “Bolívia rompeu o Estado de Direito e sua soberania”.
A gravidade da situação também foi destacada por Nadia Beller, advogada que denunciou Fernando Cerimedo após o ataque a tiros que sofreu em agosto e que se tornou uma das principais fontes de informações sobre as investigações contra o consultor argentino. Em uma publicação feita nesta quinta-feira, Nadia afirmou que a Bolívia teria rompido o Estado de Direito e sua soberania para, segundo ela, proteger Cerimedo e pessoas ligadas ao poder do governo de Rodrigo Paz.
Nadia questionou especialmente o uso de uma gravação de Sebastián Marset para justificar a prisão de Mariaca. Em vídeo divulgado recentemente, o narcotraficante uruguaio afirma que o fiscal era seu “amigo” e que mantinha contato com ele. A própria cobertura do episódio ressalta, porém, que se trata de declarações feitas por um detido durante uma conversa informal com um policial, sem confirmação independente de seu conteúdo.
A advogada levantou uma questão que merece investigação: se essa gravação já estava em poder das autoridades desde a captura de Marset, em março, por que a prisão de Mariaca ocorreu somente agora, após o fiscal ter ampliado as investigações contra Cerimedo? Essa é uma pergunta de Nadia, não uma conclusão estabelecida pelas autoridades, mas ganha relevância diante da sequência temporal dos acontecimentos.
Ela também chamou a atenção para a diferença de tratamento que, em sua avaliação, estaria sendo dada às diferentes provas. Nadia citou o áudio apresentado pelo vice-presidente Edmand Lara, no qual aparece uma voz atribuída a Cerimedo negociando pagamentos de US$ 15 mil por aeronave, e questionou por que esse material não estaria recebendo o mesmo peso atribuído às declarações de Marset. O áudio ainda não foi submetido a perícia, e sua autenticidade e interpretação permanecem sob investigação.
Outro ponto levantado por Nadia é particularmente sensível: a intervenção policial nas próprias estruturas do Ministério Público, onde estariam armazenadas provas relacionadas a Cerimedo.
É justamente aí que a preocupação de Nadia ultrapassa a figura de Mariaca. Quem controla a cadeia de custódia das provas? Quem fiscaliza os agentes que entram nas instalações onde estão os processos? Quem garante que documentos, telefones, áudios e outros elementos não sejam alterados, retirados ou destruídos?
A advogada sustenta que, mesmo que as acusações contra Mariaca sejam posteriormente comprovadas, isso não justificaria a violação do devido processo nem permitiria que uma intervenção policial comprometesse a independência do Ministério Público.
Sua conclusão é ainda mais grave: Nadia teme que a crise esteja sendo utilizada para retirar do caminho aqueles que investigam Cerimedo e abrir espaço para a escolha de um procurador-geral alinhado ao governo. Nesse cenário, a eventual liberação de Cerimedo deixaria de ser apenas uma questão processual e passaria a ser observada também como possível consequência de uma mudança no comando das instituições responsáveis pelas investigações.
