A eleição presidencial brasileira passou a ocupar espaço na agenda da política externa dos Estados Unidos em meio à interferência de trump, no ambito da disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Reportagem do The New York Times, publicada em 28 de setembro e atualizada no dia 30, relata que autoridades brasileiras acompanham com atenção os possíveis movimentos do governo de Donald Trump e reforçam mecanismos de proteção do processo eleitoral.

A reportagem, assinada por Ana Ionova e Adam B. Ellick, apresenta como uma das principais questões para o Brasil a possibilidade de novas iniciativas de Washington durante a campanha. O jornal ressalta, porém, que Trump não declarou publicamente apoio a Flávio Bolsonaro.
Segundo o New York Times, autoridades brasileiras avaliam que algumas medidas adotadas pelo governo americano podem favorecer o candidato de extrema direita. A campanha de Flávio e o Departamento de Estado dos Estados Unidos, de acordo com o jornal, não responderam aos pedidos de comentário feitos pelos jornalistas

O contexto é acompanhado de perto no Brasil porque Trump vem adotando uma postura de maior aproximação com candidatos de direita na América Latina desde seu retorno à Casa Branca. Em setembro, o presidente americano afirmou que havia ajudado a eleger políticos na América do Sul.
Relação entre Trump e Bolsonaro
O histórico de aproximação entre Trump e Jair Bolsonaro é apontado pelo jornal como um dos elementos que alimentam a preocupação brasileira.
A reportagem relembra medidas adotadas pelo governo americano relacionadas ao Brasil durante o período em que Jair Bolsonaro passou a ser alvo de investigações e, posteriormente, foi condenado pela Justiça brasileira por tentativa de golpe de Estado.
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Nesse cenário, autoridades brasileiras citadas pelo New York Times demonstram preocupação com a possibilidade de novas ações de Washington que possam interferir no ambiente político do país ou beneficiar eleitoralmente o adversário de Lula.
O jornal também menciona o risco de campanhas de influência estrangeira utilizando redes sociais para interferir na percepção dos eleitores.
Polymarket entra no debate
Um dos episódios citados pela reportagem envolve a circulação de conteúdos relacionados às projeções da Polymarket, plataforma de mercado de previsões.
De acordo com o New York Times, perfis de destaque da direita americana ajudaram a ampliar nas redes sociais dados da plataforma que apontavam crescimento de Flávio Bolsonaro. A empresa está entre os negócios que receberam investimentos de uma companhia ligada a Donald Trump Jr.
O jornal ressalta que os números da Polymarket divergiam das pesquisas eleitorais divulgadas naquele período.
O episódio é apresentado como exemplo da preocupação brasileira com a possibilidade de conteúdos produzidos ou amplificados no exterior influenciarem o ambiente eleitoral por meio das plataformas digitais.
TSE reforça regras para a eleição
A Justiça Eleitoral vem adotando medidas para aumentar a fiscalização do processo eleitoral e enfrentar a disseminação de conteúdos manipulados.
Para as eleições de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) atualizou as regras sobre desinformação e inteligência artificial. A regulamentação estabelece, entre outras medidas, restrições ao uso de conteúdos sintéticos manipulados para alterar imagem ou voz de candidatos com a intenção de enganar os eleitores.
A Corte também criou um conselho consultivo voltado à integridade informacional, com participação de especialistas de diferentes áreas, para acompanhar riscos relacionados à desinformação e ao uso de inteligência artificial durante o processo eleitoral.
Em agosto, o TSE ainda estabeleceu novas regras para os procedimentos de fiscalização e auditoria das urnas. Entre as medidas está a publicação posterior dos relatórios individuais das auditorias realizadas pelos tribunais regionais eleitorais.
Confiança nas urnas
A segurança do sistema eletrônico de votação também aparece na reportagem do New York Times em meio ao debate sobre possíveis interferências externas.
O jornal cita levantamento segundo o qual 34% dos brasileiros demonstravam desconfiança nas urnas eletrônicas, percentual superior ao registrado em 2022.
O TSE, por sua vez, ampliou os mecanismos de auditoria e fiscalização. A Justiça Eleitoral mantém procedimentos que permitem, entre outras verificações, comparar boletins de urna com os dados recebidos pelo sistema de totalização, conferir assinaturas digitais e auditar o código-fonte dos sistemas eleitorais.
Para 2026, o tribunal também ampliou o acompanhamento internacional do processo eleitoral. Segundo o TSE, missões estrangeiras estão sendo incorporadas às iniciativas de observação das eleições.
Minerais estratégicos aproximam disputa eleitoral e interesses econômicos
A reportagem também relaciona a eleição brasileira aos interesses econômicos e estratégicos dos Estados Unidos na região.
O Brasil possui reservas de minerais considerados importantes para setores como tecnologia, energia e indústria. Segundo o New York Times, aliados de Flávio Bolsonaro defendem uma aproximação maior com Washington nessa área.
O jornal cita um documento atribuído a um aliado do senador que mencionaria a possibilidade de oferecer aos Estados Unidos acesso a minerais estratégicos em troca de apoio.
O autor do material reconheceu ter produzido o documento, mas negou que ele tenha sido elaborado a pedido da campanha de Flávio ou enviado a autoridades americanas.
Lula critica interferência estrangeira
Lula também passou a abordar publicamente a possibilidade de atuação dos Estados Unidos na eleição.
Segundo o New York Times, o presidente afirmou que Washington não deveria interferir nas eleições brasileiras e defendeu a soberania do país.
Em discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, Lula criticou interferências estrangeiras em assuntos internos e afirmou que o Brasil não deveria ser tratado como área de influência de outra nação.
O presidente também divulgou conteúdo de campanha no qual acusou o governo Trump de favorecer seu adversário e de ter interesse nos recursos naturais brasileiros. O New York Times ressalta que Lula fez essas acusações sem apresentar provas.
Temor de repetição do cenário de 2022
Outro ponto levantado pelo jornal é a possibilidade de uma disputa sobre a legitimidade do resultado caso Flávio Bolsonaro seja derrotado.
A reportagem relembra que Jair Bolsonaro questionou o resultado da eleição de 2022 sem apresentar evidências de fraude. Em janeiro de 2023, apoiadores do ex-presidente invadiram as sedes dos Três Poderes, em Brasília.
Nesse contexto, autoridades brasileiras acompanham a possibilidade de novas contestações ao sistema eleitoral e de eventual repercussão internacional dessas narrativas.
A reportagem, contudo, destaca que não está claro se uma eventual atuação do governo Trump teria impacto sobre o resultado da eleição brasileira.
O jornal também considera a possibilidade de uma reação dos próprios eleitores caso uma eventual interferência estrangeira seja percebida como tentativa de influenciar a escolha presidencial.
Eleição vira ponto de tensão entre Brasília e Washington
O cenário descrito pelo New York Times coloca a eleição brasileira no cruzamento de interesses políticos, diplomáticos, econômicos e tecnológicos entre Brasil e Estados Unidos.
Enquanto autoridades brasileiras ampliam mecanismos de auditoria, monitoramento de redes sociais e cooperação internacional para proteger o processo eleitoral, o governo Lula manifesta preocupação com possíveis ações de Washington.
Ao mesmo tempo, a reportagem ressalta que ainda não há uma declaração pública de Trump de apoio a Flávio Bolsonaro nem evidência apresentada no texto de que uma ação do governo americano tenha capacidade de determinar o resultado da eleição.
O pleito brasileiro aparece, assim, como um novo ponto de tensão na relação entre Brasília e Washington, em uma disputa que envolve não apenas Lula e Flávio Bolsonaro, mas também a influência estrangeira, o ambiente digital, a segurança eleitoral e os interesses estratégicos dos dois países.
