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Quem ganha com um Haiti sem Estado? ONGs, empresas e potências ocupam espaço deixado pela soberania destruída Diálogos do Sul Global

No Haiti, há um fio vermelho — de sangue, fogo e dignidade — que une o machado dos cimarrões em Nossa América ao anti-imperialismo do século 21. Este fio nasce na noite de 13 para 14 de agosto de 1791, na clareira de Bois Caïman. Ali, sob a liderança espiritual e política do sacerdote vudu Dutty Boukman e da mambise Cécile Fatiman, centenas de escravizados romperam a cadeia da alienação colonial.

Pergunta: Boukman é realmente jamaicano? : r/haiti
Dutty Boukman – Reddit

A cerimônia de Bois Caïman não foi um mero rito folclórico, mas um verdadeiro congresso político-militar clandestino: a resposta soberana dos oprimidos ao “benévolo” universalismo da Revolução Francesa.

Uma burguesia ilustrada que proclamava a “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” em Paris, enquanto acumulava o Capital mercantilista com o suor, a tortura e a morte nos campos de cana-de-açúcar e café de Santo Domingo.

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Com a genialidade tática de Toussaint Louverture e a inflexível determinação de Jean-Jacques Dessalines, a Revolução Haitiana consagrou, em 1804, o nascimento da primeira República negra e livre do planeta.

Não foi uma concessão: foi uma vitória conquistada no terreno, derrotando consecutivamente três impérios (espanhol, britânico e francês). Como lembrava Louverture antes de ser deportado, a Árvore da Liberdade cortada no tronco lançaria raízes profundas.

Haiti tornou-se o berço continental dos quilombos e o farol logístico-militar sem o qual a gesta de Simón Bolívar jamais teria visto a luz. Mas o modo de produção capitalista não perdoa quem revela suas raízes racistas e coercitivas. O “pecado original” do Haiti foi ter demonstrado que os escravizados não eram mercadoria, e sim sujeitos históricos de libertação.

A extorsão original e a continuidade do saque europeu

A punição infringida ao Haiti representa o nascimento da moderna dívida odiosa como instrumento de acumulação originária e subordinação sistêmica. Em 1825, sob a ameaça direta dos navios de guerra, a França de Carlos X impôs ao Haiti uma “indenização” de 150 milhões de francos para ressarcir os antigos proprietários de escravos pela perda de sua “propriedade”. Para saldar esta chantagem, a jovem República se viu obrigada a contrair empréstimos usurários com os bancos franceses (a chamada Double Dette — dupla dívida).

Esta sangria financeira, que durou mais de um século, transferiu milhares de milhões de dólares reais das arcas de Porto Príncipe para o patrimônio das oligarquias europeias, decapitando, em sua origem, qualquer possibilidade de infraestrutura pública, soberania alimentar ou desenvolvimento industrial autônomo. A França e as potências da União Europeia nunca pagaram as reparações históricas por este crime financeiro; pelo contrário, transformaram o velho colonialismo aberto em um sofisticado dispositivo neocolonial.

A espoliação contemporânea e o papel do eixo Paris-Bruxelas-Washington

Hoje a espoliação do Haiti não ocorre somente por meio das tropas de ocupação, mas mediante a simbiose entre o imperialismo estadunidense — articulado via Comando Sul e CORE Group — e a ingerência diplomática e econômica da União Europeia. Com a máscara da “ajuda humanitária” e das missões de segurança de tração externa, esconde-se uma verdadeira economia de rapina que se articula em múltiplos níveis depredadores.

No norte do Haiti concentram-se enormes jazidas virgens de ouro, cobre e bauxita, com um valor estimado em dezenas de milhares de milhões de dólares. Multinacionais canadenses e europeias operam há anos para assegurar concessões extrativas em cumplicidade com os governos títeres locais, garantindo para si o acesso a custos de extração irrisórios e anulando os direitos trabalhistas e a proteção ambiental.

Paralelamente, a União Europeia e os EUA promovem a criação de “zonas francas de exportação” na fronteira com a República Dominicana, como o parque industrial de Caracol. Nestes complexos, a classe trabalhadora haitiana é submetida a salários de pura subsistência e privada de direitos sindicais, com o único fim de abastecer as cadeias de valor do têxtil e da manufatura destinadas aos mercados ocidental e europeu.

A este panorama se soma a armadilha do assistencialismo privatizado, em que centenas de ONGs francesas e europeias administram, de fato, os serviços básicos em vez do Estado haitiano. Esta “indústria da ajuda” drena fundos internacionais que retornam regularmente a seus países de origem na forma de soldos para especialistas estrangeiros, empobrecendo ainda mais o tecido social e privatizando a soberania pública.

A crise política atual entre gangues armadas, imperialismo e resistência popular

A dramática situação política contemporânea é o resultado direto deste projeto de desestabilização permanente. O desmantelamento deliberado do Estado haitiano por parte das oligarquias locais e de seus protetores de ultramar produziu um vazio institucional coberto pela externalização do terror para gangues armadas e grupos criminosos. Longe de ser uma geração espontânea de violência, muitas destas facções paramilitares foram historicamente armadas e empregadas pelas frações da burguesia compradora e setores políticos corruptos para desagregar a organização comunitária, reprimir as manifestações populares e esvaziar os bairros operários, como Cité Soleil.

O fluxo constante de armas de grosso calibre prossegue ininterrupto, enquanto a comunidade internacional sanciona formalmente o país para, depois, propor como única solução o envio de forças policiais estrangeiras. As missões internacionais de ingerência, camufladas de ajuda à segurança, não buscam devolver a palavra ao povo haitiano, e sim congelar a crise para evitar o surgimento de um verdadeiro processo constitucional autônomo e soberano.

O Haiti não é um “país falido”, como rezava a narrativa racista e eurocêntrica do capital transnacional; é um país ocupado e despojado porque nunca lhe perdoaram o exemplo de 1804. A única saída para o povo haitiano reside na reapropriação da soberania política e na articulação de suas próprias forças populares, camponesas e proletárias.

A solidariedade internacionalista na Europa e na América Latina não deve assumir a forma piedosa ou de paternalismo das ONGs, mas a da denúncia militante do saque imperialista. Resgate das reparações históricas, fim da ingerência do CORE Group e autodeterminação dos povos: só assim os ramos da Árvore da Liberdade voltarão a brotar com a força ancestral de Bois Caïman.

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