Fluxo para refinarias da costa do Golfo supera 743 mil barris por dia, enquanto mudanças na legislação venezuelana ampliam o controle de empresas estadunidenses sobre exploração e comercialização do petróleo
Quase oito meses após a agressão militar estadunidense contra a Venezuela, que provocou uma centena de mortos e o sequestro e transferência do presidente Nicolás Maduro para uma prisão de Nova York, o aumento do fluxo de petróleo venezuelano para as refinarias da costa do Golfo dá conta do resultado geopolítico da intervenção e da nova relação estabelecida entre Washington e Caracas.
Uma revisão dos anúncios feitos pela Casa Branca e das declarações triunfalistas do próprio presidente Donald Trump confirma que os Estados Unidos conseguiram capturar e controlar um volume acumulado superior a 140 milhões de barris de petróleo bruto venezuelano, abrindo caminho para a apropriação estratégica de até 65 bilhões de barris no longo prazo.
A contagem começou em 6 de janeiro passado, poucos dias após a agressão, com o que foi apresentado pelo mandatário estadunidense como um envio direto de um lote de 30 a 50 milhões de barris armazenados em superpetroleiros retidos pelas sanções que seu governo mantinha contra o país agredido. Ao final de agosto, já se fala no “maior acordo petrolífero da história” e no aumento das reservas estratégicas por meio de um “presente da Venezuela ao povo estadunidense”, segundo publicou o próprio Trump na rede Truth Social neste domingo.
Incremento sustentado
Ao recapitular os anúncios feitos desde aquele primeiro butim registrado em janeiro, é possível reconhecer o aumento sustentado do fornecimento de petróleo bruto venezuelano para os Estados Unidos. Durante os dois primeiros meses do ano, operações de interdição relatadas pelo Comando Sul e pela Guarda Costeira executaram a apreensão de pelo menos sete navios-tanque em águas internacionais, tomando diretamente entre 5,5 e 7 milhões de barris sob o argumento judicial de violação do regime de sanções.
Essas cargas foram imediatamente desviadas e descarregadas em terminais da costa do Golfo do México. Trump declarou então diretamente, ao ser questionado sobre o destino daquele petróleo: “Ficaremos com ele”.
No entanto, o número de maior envergadura não provém das abordagens navais, mas do posterior escoamento comercial contínuo. Sob a proteção de licenças concedidas às pressas pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) a transnacionais estadunidenses como a Chevron e outras empresas de menor porte, o envio regular de petróleo bruto pesado passou de uma média inicial de 300 mil barris por dia para superar 743 mil barris por dia no final de agosto, segundo a Administração de Informação Energética (EIA).
Essa injeção sustentada — crucial para abastecer as plantas de refino estadunidenses desenvolvidas especificamente para petróleos brutos pesados — colocou a Venezuela como o segundo maior fornecedor de petróleo dos Estados Unidos, atrás apenas do Canadá, e permite somar cerca de 86 milhões de barris desembarcados ao longo do ano, calculados a partir de uma média de 410 mil barris por dia, segundo relatório da EIA.
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Temos, então, que os Estados Unidos teriam ingressado, até agora, com pelo menos 143 milhões de barris de petróleo bruto venezuelano. Se tomarmos como referência o preço médio de US$ 65 oferecido por Delcy Rodríguez em seu discurso de sábado, 29 de agosto, no qual defendeu e justificou o “acordo histórico” da véspera, estamos falando de cerca de US$ 9,295 bilhões.
Reformas sob medida
Para tornar possível esse fluxo de recursos, o governo de Delcy Rodríguez teve de reformular a arquitetura legal do sistema energético venezuelano. As modificações na Lei Orgânica de Hidrocarbonetos — promovidas com rapidez inusitada na Assembleia Nacional sob a diretriz do novo marco binacional — eliminaram as restrições históricas que conferiam ao Estado, por meio da PDVSA, o controle majoritário e a reserva operacional das empresas mistas.
A reforma não apenas reduz as alíquotas de royalties e tributos a níveis mínimos para os investidores estrangeiros, como também concede às empresas estadunidenses livre-arbítrio na comercialização do petróleo bruto e acesso direto à moeda estrangeira gerada, relegando o país ao papel de mero cobrador de renda diferida.
O ponto culminante dessa reconversão ocorreu no final de agosto, quando funcionários em Washington confirmaram a assinatura de um pacto que compromete a entrega e a exploração de até 65 bilhões de barris pertencentes às reservas provadas venezuelanas, certificadas em 303 bilhões de barris. Sob o pretexto de um investimento privado prometido de US$ 100 bilhões, o acordo concede formalmente o controle técnico e comercial de mais de um quinto das reservas do país a um punhado de corporações estadunidenses.
Isso permite que Trump se vanglorie e prometa “encher as reservas estratégicas” dos Estados Unidos com petróleo venezuelano, como escreveu em suas redes sociais neste domingo, anunciando, além disso, que “o processo de enchimento até o limite máximo começará muito em breve”.
