O porta-voz do Kremlin, Dimitri Peskov, ao confirmar dia 27 de agosto a viagem à capital russa do diretor da Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês), John Radcliffe, fez este breve comentário: “Só posso dizer a vocês (repórteres) que houve contatos entre serviços secretos. Não houve nenhum encontro com o presidente Vladimir Putin”.
Insistiu: “É a única coisa que posso dizer a vocês”.

Enquanto políticos, legisladores, analistas e jornalistas se perguntam aqui para que Radcliffe veio, soube-se o que ele não veio fazer, segundo seu chefe, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Questionado por Glenn Beck, em seu programa de rádio do mesmo dia 27, se a surpreendente visita de Radcliffe se devia a advertir o Kremlin sobre as consequências que teria atacar um país da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) ou a comunicar a importância que os Estados Unidos atribuem às sanções contra o Irã, o inquilino da Casa Branca respondeu: “Nada disso.
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Tratou-se de uma visita quase rotineira. Sinto ter que decepcionar muitos. Nós queremos que a guerra na Ucrânia termine. Esta guerra nunca teria começado, se eu fosse presidente”.
Encerrou o assunto ao dizer que Radcliffe “é uma pessoa maravilhosa. Estamos fazendo esforços para que esta guerra termine”.
O avião de Radcliffe permaneceu nove horas no hangar presidencial do aeroporto de Vnukovo e, pelo que foi dito por Peskov, infere-se que ele se reuniu com seu homólogo Serguei Naryzhkin, diretor do Serviço de Inteligência Exterior. Também não se descarta que tenham participado o diretor do Serviço Federal de Segurança, Aleksandr Bortnikov, e o diretor da Inteligência Militar, Igor Kostiukov.
Todos os especialistas concordam que a chegada do diretor da CIA a Moscou é um fato fora do comum e que ele deve ter vindo pessoalmente dizer algo verdadeiramente relevante, mas reconhecem que o motivo de sua visita continua sendo um mistério.
Mais do que baseadas em vazamentos, circulam versões para todos os gostos que, na realidade, enquanto não puderem ser corroboradas, não passam de simples suposições daqueles que as divulgam: que sua missão era “apontar os riscos de uma escalada”; que veio advertir que “deve pôr fim às sabotagens de fábricas da indústria militar” em países da OTAN; que trouxe a exigência de que a Rússia “deixe de apoiar” o Irã e se envolva para que “pressione Teerã a aceitar as condições estadunidenses” e “abra o estreito de Ormuz”.

Também se diz que Radcliffe foi a Moscou para “sondar, sem holofotes e em conversas internas, até que ponto é possível que a Rússia aceite as propostas de paz, elaboradas pelos Estados Unidos, Ucrânia e Europa”.
De acordo com o presidente da Ucrânia, Volodymir Zelensky, existe um rascunho quase pronto e falta apenas que os Estados Unidos “precisem algumas ideias”.
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O plano tem três eixos: cessar-fogo imediato e geral; retirada das tropas para uma mesma distância, a fim de criar uma zona desmilitarizada; zona de livre comércio em Donetsk e Lugansk sob controle de um terceiro país (Estados Unidos, naturalmente).
No mesmo sentido, circula a versão de que a tarefa de Radcliffe “era recomendar que o Kremlin aceite essas propostas porque a situação na frente de batalha não é aquela que os generais fazem o presidente Putin acreditar e a Ucrânia, além disso, está perto de poder lançar mísseis balísticos de fabricação própria contra Moscou”.
Não faltou quem divulgasse que “suas fontes” indicaram que o diretor da CIA veio negociar “uma grande troca de espiões presos, que possa ser realizada às vésperas das eleições de novembro nos Estados Unidos”.
Enquanto isso, Rússia e Ucrânia continuaram concentrando seus ataques à distância com drones e mísseis, com o objetivo de causar o maior dano possível às suas economias. A Rússia, além de bombardear empresas da indústria militar, desde abril vem atingindo postos de gasolina em toda a Ucrânia, a maioria na região fronteiriça.
Segundo dados de Oleksandr Sirenko, analista da consultoria ucraniana NaftoRynok (Mercado de Petróleo), nesse período a Rússia atingiu pelo menos 246 postos de gasolina. No entanto, um relatório do Banco Central da Ucrânia afirma que os ataques russos não afetaram o abastecimento de combustíveis porque “apenas 4% dos postos de gasolina do país sofreram danos ou foram destruídos”.
A Ucrânia atacou na madrugada do dia 27 de agosto o enésimo centro logístico da empresa de comércio eletrônico Wildberries, provocando um incêndio que abrange “mais de 100 mil metros quadrados”, nas palavras do governador de Tambov, Yevgueni Pervyshev. Nos dias anteriores, começou a bombardear os centros logísticos da Ozon, a segunda empresa mais importante do setor. Já atingiu cinco deles.
