nem-netanyahu-nem-seus-rivais-tem-maioria:-partidos-arabes-viram-decisivos-em-eleicao-israelense-dialogos-do-sul-global

Nem Netanyahu nem seus rivais têm maioria: partidos árabes viram decisivos em eleição israelense Diálogos do Sul Global

A convocação de eleições em Israel foi precipitada após uma aguda crise na coalizão governista de Benjamin Netanyahu, incapaz de aprovar uma lei que isentasse do serviço militar os estudantes ultraortodoxos de yeshivá (instituições tradicionais judaicas onde se estudam a Torá e o Talmude).

Em uma tentativa de manter sua base eleitoral antes de dissolver o Parlamento, o Likud e os partidos religiosos aprovaram de forma acelerada leis polêmicas, como a Lei Fundamental do Estudo da Torá, que estabelece o estudo da Torá como um valor fundamental do Estado.

Benjamin Netanyahu 2018 — PICRYL - Public Domain Media Search Engine
Benjamin Netanyahu – PICRYL

Ao mesmo tempo, Netanyahu encontra-se prisioneiro de sua própria aliança com os ministros da extrema-direita colonizadora, Bezalel Smotrich e Itamar Ben-Gvir.

Esses setores rejeitam qualquer trégua militar, exigem abertamente a expulsão da população palestina, a reinstalação de assentamentos coloniais em Gaza e a anexação definitiva da Cisjordânia.

A guerra está entrando em seu ano final ou em um novo capítulo? Gaza em uma encruzilhada política

Para Netanyahu, aceitar o plano de paz proposto por Donald Trump significaria o colapso imediato de seu governo devido à saída desses partidos da coalizão, razão pela qual ele prioriza a continuidade da agressão militar como método de sobrevivência política interna, tanto contra o povo palestino quanto contra o Líbano.

Dois anos de devastação em Gaza e desastre humanitário

A campanha eleitoral começa após mais de dois anos e meio de um genocídio na Faixa de Gaza, iniciado em outubro de 2023.

Apesar dos recorrentes anúncios de cessar-fogo por parte de Washington, as agressões israelenses continuaram, deixando milhares de mortos e mantendo um bloqueio sufocante que gera uma catástrofe humanitária, na qual mais de 70 mil crianças sofrem de desnutrição crítica.

Além disso, a negativa de Netanyahu em aceitar qualquer plano de “paz” entre Estados Unidos e Irã expõe uma aguda contradição estratégica: enquanto a administração Trump necessita urgentemente encerrar frentes de guerra custosas para concentrar recursos em sua agenda interna e conter o caos regional gerado por sua guerra com o país persa, o governo israelense sabota qualquer trégua por considerá-la uma derrota para o Estado sionista.

Isolamento internacional e fratura regional

O genocídio na Faixa de Gaza provocou o isolamento internacional de Israel. O projeto de ampliar os Acordos de Abraão encontra-se paralisado pelo temor dos líderes dos países árabes de que esse alinhamento com Estados Unidos e Israel provoque levantes de suas próprias populações, solidárias aos seus irmãos palestinos. Da mesma forma, Israel ficou à margem dos canais decisivos de negociação entre Washington e Teerã, expondo a perda de influência de Netanyahu para moldar as decisões de seu parceiro estratégico.

O declínio hegemônico dos Estados Unidos após o fracasso no Irã

A crise israelense não pode ser dissociada da derrota estratégica dos Estados Unidos em sua guerra contra o Irã. As massivas campanhas conjuntas de bombardeios de fevereiro e abril fracassaram rotundamente em seus objetivos de forçar uma mudança de regime ou interromper o programa nuclear e de mísseis de Teerã.

Primeiro, para sair de seu próprio impasse, Trump foi obrigado a assinar um acordo de cessar-fogo que mantinha intacto o controle iraniano sobre o estratégico estreito de Ormuz e previa o levantamento das sanções em vigor desde 1979. Isso foi rompido pelo governo imperialista, que voltou a bombardear o Irã, mas depois se viu obrigado a interromper temporariamente os ataques, mais uma vez. Não por acaso, tornou-se conhecido o apelido TACO (algo como “Trump sempre se acovarda”).

Trump enfrenta um dilema no qual tanto continuar quanto encerrar a guerra ameaça diretamente a já enfraquecida hegemonia global dos Estados Unidos.

Aritmética eleitoral e paralisia política

No terreno eleitoral, as pesquisas colocam o partido de direita Yashar, liderado pelo ex-militar Gadi Eisenkot (que foi membro do governo da coalizão governista de extrema-direita até renunciar em junho de 2024), ligeiramente à frente do Likud de Netanyahu. No entanto, a projeção de cadeiras desenha um cenário de bloqueio absoluto.

Embora o bloco oposicionista tenha vantagem sobre o governo, líderes da oposição como Eisenkot e Naftali Bennett descartam categoricamente formar governo junto aos partidos árabes. Sem a possibilidade de somar essas cadeiras, nem o bloco oposicionista nem a coalizão de Netanyahu alcançam as 61 cadeiras necessárias para governar, o que indica que o destino político de Israel continuará mergulhado em uma profunda instabilidade e polarização reacionária.

A vantagem de Eisenkot sobre Netanyahu em termos de adequação ao cargo (41% contra 37%) indica que o eleitorado busca um perfil de liderança militar pragmática para administrar a crise de “segurança” na qual Israel está imerso.

Os dados coletados durante os meses de junho e julho de 2026 revelam uma paridade estatística absoluta entre as principais forças.

Avaliação do cenário dos blocos

A análise da aritmética parlamentar leva a uma conclusão crítica: o bloqueio sistêmico persiste. Embora o bloco oposicionista (anti-Netanyahu) projete uma vantagem nominal de 69 cadeiras, esse número é enganoso. Essa cifra inclui as cadeiras dos partidos árabes (entre nove e 12); sem elas, a oposição fica com 58 cadeiras, abaixo do “número mágico” de 61. Por sua vez, o bloco pró-Netanyahu permanece estagnado entre 51 e 52 cadeiras. Essa configuração obriga ambos os lados a uma dependência absoluta de fatores externos — partidos árabes ou rupturas no setor ultraortodoxo — que comprometem a viabilidade operacional de qualquer futura coalizão.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *