christopher-nolan-filma-a-odisseia-em-territorio-ocupado-e-ajuda-marrocos-a-normalizar-colonizacao-do-saara-ocidental-dialogos-do-sul-global

Christopher Nolan filma A Odisseia em território ocupado e ajuda Marrocos a normalizar colonização do Saara Ocidental Diálogos do Sul Global

Às vésperas de seu lançamento nos cinemas, A Odisseia, de Christopher Nolan, tornou-se alvo de polêmicas na internet depois que Elon Musk atacou o suposto elenco “woke” do filme. No entanto, para além desse espetáculo fabricado, há uma crítica muito mais importante a ser feita aos cineastas: a decisão de filmar parte do longa na última colônia da África, o Saara Ocidental. Beneficiando-se de generosos subsídios do Estado marroquino, eles conferiram legitimidade ao seu regime de ocupação ilegal.

Screenshot 2026 08 20 at 14 53 52 A Odisseia 2026
Matt Damon e Zendaya durante filmagens em Dakhla – Reeprodução: IMDB

Enquanto Nolan e sua equipe filmavam no litoral ao redor da cidade portuária de Dakhla no verão passado, uma carta aberta condenando a decisão foi assinada por figuras proeminentes do cinema mundial, entre elas Javier Bardem, Pedro Almodóvar e Paul Laverty.

“O sr. Nolan filmou lá sem o consentimento do povo saaraui”, dizia o texto, em referência à nacionalidade majoritária no Saara Ocidental. “O único consentimento que recebeu veio da força ocupante: o Marrocos.”

Aliado do ocidente, Marrocos usa chantagem, repressão e ocupação para impor poder na África

Em particular, o ator vencedor do Oscar Bardem não poupou palavras. Ao publicar a carta em sua conta no Instagram, acrescentou: “Há 50 anos, o Marrocos ocupa o Saara Ocidental, expulsando o povo saaraui de suas cidades.

Dakhla é uma delas, transformada pelos ocupantes marroquinos em um destino turístico e agora em um set de filmagem, sempre com o objetivo de apagar a identidade saaraui da cidade.”

Com uma área equivalente ao tamanho da Grã-Bretanha, o Saara Ocidental é designado pelas Nações Unidas como um “território não autônomo” e permanece em sua lista oficial de territórios que ainda aguardam a descolonização. Mantido pela Espanha de Francisco Franco mesmo enquanto outras colônias europeias conquistavam sua liberdade, o território não alcançou a independência nem mesmo após a morte do ditador, em 1975.

Em vez disso, os países vizinhos Marrocos e Mauritânia invadiram o território — com pelo menos 40% da população saaraui da época fugindo para a vizinha Argélia para escapar da campanha de bombardeios da Força Aérea Marroquina. Meio século depois, 173 mil saarauis ainda permanecem em campos de refugiados na Argélia. Os saarauis nativos que vivem sob ocupação marroquina estão sujeitos ao que a Freedom House classifica como um dos sistemas políticos menos livres do planeta.

A Odisseia é a primeira grande produção de Hollywood a filmar cenas no Saara Ocidental. Isso seria impensável antes de 2020, quando o presidente Donald Trump rompeu com décadas de política externa dos Estados Unidos e reconheceu a soberania ilegalmente estabelecida do Marrocos sobre o território.

A decisão fez parte de um acordo de troca, em que o Marrocos normalizaria suas relações com Israel. Agora, os quatro dias de filmagem de Nolan e sua equipe em Dakhla ilustram a rapidez com que os estúdios de Hollywood se movimentaram para explorar as oportunidades criadas pela diplomacia transacional de Trump. Esse cinema de ocupação subsidiado é mais um sintoma do colapso do que quer que tenha restado de uma ordem liberal baseada em regras.

Screenshot 2026 08 20 at 14 47 19 A Odisseia 2026
Christopher Nolan no set de A Odisseia – Reprodução IMDB

Para as autoridades marroquinas, a presença da equipe de A Odisseia foi um triunfo propagandístico. Elas deixaram claro que veem isso apenas como o início do desenvolvimento de Dakhla como uma base para produções cinematográficas internacionais.

Isso apesar do fato de que o restante do Saara Ocidental continua sendo palco de um conflito armado entre as forças militares do país e o movimento saaraui pela independência, a Frente Polisário.

No mês passado, três combatentes da Frente Polisário foram mortos em um ataque de drones marroquinos próximo ao cinturão de areia de 2.700 quilômetros que separa o território controlado pelo Marrocos das áreas desérticas controladas pela Polisário.

Se a construção do vasto cinturão defensivo na década de 1980 foi a tentativa do Marrocos de consolidar seu controle militar sobre o Saara Ocidental, a transformação de Dakhla em destino turístico e polo de energia verde nos últimos anos busca consolidar a ocupação como uma realidade econômica irreversível.

Além da Odisseia – Silêncio: é proibido defender a Palestina em Hollywood

Do ponto de vista da liderança marroquina, a independência saaraui parecerá cada vez menos realista se o território puder ser desenvolvido em conjunto com investidores internacionais. O governo também está incentivando colonos marroquinos a se mudarem para o território por meio de generosos subsídios e empregos.

A expressão mais clara dessa estratégia é a Iniciativa Atlântica do Marrocos, que busca proporcionar aos países sem litoral da região do Sahel acesso marítimo ao Atlântico por meio de uma nova instalação portuária de € 1,3 bilhão, atualmente em construção em Dakhla — e prevista para entrar em operação até 2028.

Ao posicionar a cidade ocupada como um importante polo logístico do noroeste da África, o projeto pretende integrar ainda mais o Saara Ocidental às redes comerciais regionais.

O turismo também é fundamental para normalizar o controle marroquino, com Dakhla, em particular, sendo transformada em um destino internacional para a prática de kitesurf e o ecoturismo. Durante uma visita em 2022, Ivanka Trump e Jared Kushner foram fotografados em um dos crescentes hotéis de luxo da península de Dakhla, assim como no extenso litoral atlântico que mais tarde atrairia a equipe de filmagem de A Odisseia. O ensaio fotográfico das férias do casal ofereceu uma visão de resorts de luxo e lazer na qual a ocupação militar e a população indígena saaraui eram apagadas do campo de visão.

O anúncio da companhia aérea Ryanair, em 2024, de que abriria novas rotas diretas conectando a Espanha a Dakhla e à capital saaraui, El Aaiún, marcou uma nova expansão desse modelo de turismo de ocupação — mesmo quando a Comissão Europeia informou às companhias aéreas que as rotas envolvendo o Saara Ocidental não seriam abrangidas pelos termos do acordo de aviação entre a União Europeia e o Marrocos.

Ao mesmo tempo, jornalistas internacionais, sindicalistas e defensores dos direitos humanos buscaram romper o bloqueio midiático marroquino embarcando nesses voos de baixo custo nos últimos 18 meses, apenas para serem detidos no aeroporto ou presos quando entravam em contato com ativistas saarauis locais. Imagens divulgadas no ano passado chegaram a mostrar uma delegação de esquerda do Parlamento Europeu sendo fisicamente impedida pelas forças de segurança marroquinas de desembarcar de um voo da Ryanair.

Screenshot 2026 08 20 at 14 52 14 A Odisseia 2026
Equipe do filme no litoral da cidade portuária de Dakhla – Reeprodução: IMDB

A produção subsidiada de A Odisseia faz parte desse mesmo esforço para estabelecer Dakhla como um destino internacional — mas firmemente marroquino — enquanto limita o escrutínio sobre a própria ocupação.

No entanto, quando as notícias sobre as filmagens em Dakhla vieram à tona no verão passado, cineastas, jornalistas e ativistas saarauis recorreram às redes sociais para contrastar a liberdade concedida à produção hollywoodiana de Nolan com a repressão sistemática que enfrentavam ao tentar documentar as violações de direitos humanos cometidas pelo Estado marroquino, ou simplesmente ao exercer sua liberdade criativa.

A influência sionista em Hollywood – e 3 filmes sobre a luta palestina pra furar essa bolha

“Eu cresci nos campos de refugiados saarauis na Argélia e hoje, como cineasta saaraui da cidade ocupada de Dakhla, não posso entrar livremente em minha própria terra natal para contar minhas próprias histórias”, publicou o diretor Brahim Chagaf como parte da campanha on-line organizada pelo Festival Internacional de Cinema do Saara Ocidental.

“Essa é a grande contradição por trás dessa paisagem: enquanto algumas poucas pessoas privilegiadas, como Nolan, podem transformá-la em um filme, outros ainda esperam pelo dia em que poderemos simplesmente retornar a ela.”

A mensagem da ativista Ghalia Djimi foi ainda mais contundente: “Sr. Nolan: sou uma defensora dos direitos humanos. O Marrocos me fez desaparecer por 3 anos e 7 meses em uma prisão secreta na cidade ocupada de El Aaiún.”

Sua experiência está longe de ser excepcional. Em seu relatório mais recente, de 2024, a ONG de direitos humanos CODESA catalogou dezenas de abusos cometidos pelas forças de segurança marroquinas naquele ano. Entre eles estavam a repressão violenta e reiterada de protestos pacíficos, o assédio e a detenção arbitrária de ativistas e as mortes suspeitas sob custódia de três civis saarauis.

Em novembro de 2023, o Grupo de Trabalho da ONU sobre Detenção Arbitrária concluiu que as detenções de duas dezenas de ativistas e jornalistas saarauis, mantidos presos desde o acampamento de protesto de Gdeim Izik, em 2010, eram ilegais. O grupo também constatou que, no caso de 18 ativistas estudantis detidos em 2016, a tortura foi utilizada para obter confissões.

Enquanto A Odisseia chega às bilheterias mundiais, um dos prisioneiros de Gdeim Izik, Enaâma Asfari, está atualmente na quarta semana de uma greve de fome por tempo indeterminado. Ao pedir sua libertação imediata no mês passado, a Frontline Defenders afirmou estar “preocupada com relatos que descrevem negligência médica, represálias e outras formas de maus-tratos contra defensores dos direitos humanos saarauis na prisão”.

“Quando Christopher Nolan subir ao tapete vermelho a caminho da sessão de estreia, ele também estará pisando sobre o Direito Internacional”, afirmou María Carrión, diretora-executiva do Festival Internacional de Cinema do Saara Ocidental, no mês passado. “Pedimos ao público que trate este filme como trataria um filme realizado na Ucrânia ocupada com as autorizações de [Vladimir] Putin, ou nos assentamentos ilegais na Palestina com a bênção de [Benjamin] Netanyahu.”

Uma série de decisões do mais alto tribunal da União Europeia respalda essa afirmação. Ao longo da última década, o Tribunal de Justiça da União Europeia concluiu repetidamente que o Saara Ocidental possui um status “separado e distinto” do Marrocos e que, legalmente, seus recursos não podem ser explorados sem o consentimento do povo saaraui.

Essas decisões dizem respeito a acordos comerciais específicos entre a União Europeia e o Marrocos, que a UE tentou reativar apesar das sucessivas decisões de seus próprios tribunais de que eles violavam o direito internacional. Mas as decisões levantam questões mais amplas sobre as responsabilidades das empresas internacionais que operam no território ocupado, incluindo os estúdios de cinema.

Considerando sua filmografia anterior, a genialidade de Nolan como roteirista e diretor é inquestionável. No entanto, com A Odisseia, ele e a Universal Pictures estabeleceram um precedente perigoso ao inaugurar uma nova forma de fazer cinema para nossa era trumpiana: o cinema de ocupação. Um país submetido a uma colonização brutal e a um sistema de apartheid efetivo não é um cenário legítimo nem para o turismo internacional nem para um blockbuster de Hollywood.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *