querem-transformar-fidel-em-passado.-cuba-reune-63-paises-para-dizer-que-seu-legado-ainda-e-futuro-dialogos-do-sul-global

Querem transformar Fidel em passado. Cuba reúne 63 países para dizer que seu legado ainda é futuro Diálogos do Sul Global

A comemoração dos 100 anos do nascimento do organizador do Assalto ao Quartel Moncada também se transformou em um momento para ratificar os novos alinhamentos internacionais. Em mais um episódio da diplomacia das missivas, os chefes de Estado do urso russo e do dragão asiático enviaram, separadamente, a Raúl Castro e a Miguel Díaz-Canel mensagens de apoio à ilha e à sua revolução.

File:Công viên Fidel Đông Hà (tượng Fidel) 2018 (5).jpg - Wikimedia Commons
Estátua Fidel Castro – Wikimedia

O secretário-geral do Partido Comunista da China e presidente da República Popular, Xi Jinping, enviou-lhes uma carta na qual lembrou que o comandante dedicou sua vida à defesa da soberania nacional e à construção do socialismo, com valiosas contribuições para a causa do comunismo mundial.

Nela, afirmou que ambas as nações se tornaram uma referência de cooperação entre países socialistas e entre nações do Sul Global. Manifestou oposição a qualquer ingerência externa. O legado de Fidel — concluiu — ficará para a história.

Fidel Castro ensinou que o imperialismo não recua diante da conciliação, mas da resistência organizada dos povos

E o presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, transmitiu a Raúl uma missiva na qual reconheceu que a vida do dirigente da revolução cubana foi dedicada ao “serviço abnegado à pátria”. Ressaltou que “na Rússia, a memória de Fidel Castro é honrada como sagrada”.

Em sua mensagem a Díaz-Canel, Putin destacou a “solidariedade invariável” de seu país com o povo cubano e associou o nome de Fidel aos “acontecimentos mais importantes da história de Cuba” e aos “grandiosos avanços no plano econômico-social” alcançados sob sua condução.

Não são apenas palavras. O último navio com petróleo bruto (com 730 mil barris) que chegou à ilha em 30 de março de 2026 foi um petroleiro russo. Por sua vez, a China doou à Antilha 60 mil toneladas de arroz e milhares de sistemas fotovoltaicos.

Resiliência

Desde que os Estados Unidos decretaram o embargo de combustíveis contra Havana, o país passou por uma significativa transformação pelas mãos do Colosso asiático. A vida noturna não acabou, mas diminuiu drasticamente. Os apagões mergulharam a população na incerteza. Não se sabe muito bem quando a energia elétrica vai acabar e quando vai voltar, nem quanto tempo vai durar o corte. Assim, quando há luz, é preciso aproveitá-la.

Onde, há alguns meses, as avenidas estavam vazias, agora circula um número considerável de motocicletas e triciclos elétricos, que fazem as vezes de transporte coletivo. Percorrem as ruas da cidade em alta velocidade, como se fossem nuvens de mosquitos. Buzinam para se fazer respeitar diante dos veículos motorizados que ainda circulam e dos pedestres distraídos que parecem não perceber sua presença.

Nas áreas em que os apagões transformam a vida cotidiana em uma filial do inferno no Caribe, podem ser vistas casas e apartamentos iluminados por baterias, em muitos casos carregadas com painéis solares. Alguns ainda contam com pequenas plantas geradoras de eletricidade.

No coração de Havana, nas ruas 23 e 10, no bairro de Vedado, será construída uma nova loja chinesa. O estabelecimento é uma empresa mista de comercialização, construída pelos dois países, especializada em “ferragens, eletrodomésticos e soluções de vanguarda vinculadas às energias renováveis”.

O boom dos novos negócios também acompanha a liberalização da economia em curso. Um assunto que é intensamente discutido em todos os lugares.

Segundo o presidente Díaz-Canel, as 176 medidas aprovadas para a Transformação Econômica e Social são reflexo da opinião colhida em milhares de assembleias populares.

Mas ele garante que as transformações não são para promover mais capitalismo, e sim para defender e avançar na construção socialista; um socialismo que coloca o ser humano no centro de sua obra.

Fotos gratis : blanco, pared, firmar, pintada, presidente, Cuba, tributo,  art, mural, revolución, líder, revolucionario, área urbana, Fidel Castro  2048x1536 - - 1363776 - Imagenes gratis - PxHere
Reprodução: PxHere

Enquanto isso, os Estados Unidos fazem seu grande negócio às custas do empobrecimento da ilha. Segundo informações do US Cuba-Trade and Economic Council, no primeiro semestre deste ano, exportaram para a ilha cerca de 96 milhões de dólares em combustíveis (basicamente diesel e gasolina). Somente a metade dessas importações foi realizada durante junho.

O combustível é enviado em contêineres a bordo de navios como ISO tanks. Seus compradores são empresas privadas, embaixadas ou pessoas físicas. Washington proíbe vendê-los ao governo ou a empresas estatais. O litro da gasolina oscila em torno de 5 dólares.

Um Fidel que vive na montanha

Os povos do sul do rio Bravo conquistaram sua independência da Espanha no primeiro terço do século XIX. No entanto, a maior das Antilhas alcançou sua soberania, ainda que parcialmente, somente em 1934, quando a Emenda Platt foi revogada. E a obteve plenamente a partir do triunfo da revolução, em 1959. Isto é, padeceu de pelo menos um século a mais de escravidão que o restante da Hispano-América.

Borges escreveu: “qualquer destino, por longo e complicado que seja, na realidade consiste em um único momento: o momento em que o homem sabe para sempre quem é”. O mesmo acontece com os povos e as nações. Cuba e seu povo souberam quem eram a partir do triunfo de sua revolução, liderada pelo comandante Castro.

Fidel, como se depreende do mar de vozes que se ouvem no Colóquio, integrou Cuba, a dignificou. Acabou com o cinismo de seus tempos de colônia ianque. Deu sentido ao seu projeto nacional. Combateu a amnésia. Propiciou uma nova ordem, que deixou para trás o que era caduco. Desenvolveu uma teoria para impulsionar a ação revolucionária.

O filósofo argentino Néstor Kohan afirmou, em sua intervenção no painel “Marxismo, socialismo e política na ação revolucionária de Fidel Castro”, que a oralidade do pensamento do comandante levou uma parte da esquerda marxista a não valorizar adequadamente suas contribuições para a teoria revolucionária.

Ao formular sua visão da realidade e da luta em uma linguagem acessível aos setores populares e renunciar ao uso de jargão acadêmico e à citação de fontes, essa intelectualidade não valorizou adequadamente as enormes e genuínas contribuições do revolucionário cubano ao materialismo histórico.

Para ele, no campo dos discursos, destaca-se a Segunda Declaração de Havana, pronunciada diante de um milhão e meio de pessoas na Praça da Revolução, em 4 de fevereiro de 1962. Trata-se, afirma, de um dos documentos teórico-políticos mais importantes de toda a história do marxismo latino-americano, que Che Guevara caracterizou como “um Manifesto Comunista deste continente e desta época”. Cumpre um papel precursor no campo das ciências sociais.

“Fenômeno nem sempre reconhecido nas histórias acadêmicas das teorias econômicas e sociológicas.”

O vice-ministro das Relações Exteriores, Carlos Fernández de Cossio, falou no Fórum “Fidel e a política externa” sobre o magistério do comandante na diplomacia, desenvolvido no calor da luta cotidiana à frente de um país em revolução.

Referiu-se ao papel desempenhado na crise dos mísseis, que colocou o mundo à beira de uma conflagração nuclear. Naquele momento — explicou Cossio —, estabeleceu-se a pedra angular da política externa de Cuba (uma lição para compreender o que acontece hoje): “a defesa de nossos direitos soberanos sem espaço para a mínima confusão ou a menor perda, mesmo diante de perigos extraordinários”. Como disse, naquela época, Che Guevara: “Poucas vezes um estadista brilhou mais alto do que naqueles dias”.

O vice-ministro reconstruiu o papel de Fidel na luta pela independência de Porto Rico. Em troca da libertação de quatro presos estadunidenses condenados em Cuba — lembrou —, foram libertados quatro independentistas porto-riquenhos, sem pedir nada para a ilha.

Com detalhes, explicou o papel de Havana nas lutas pela descolonização na África e o apoio à revolução sandinista na Nicarágua. “Não existe — afirmou o vice-presidente de Cuba, Carlos Rodríguez, em 1984 — obrigação que tenhamos assumido com qualquer país, grupo ou governo que não tenhamos sido capazes de honrar”.

Cossio lembrou como, sob a condução de Fidel, a política externa da Antilha manteve um perfil elevado e comprometido no combate em favor de uma ordem internacional mais justa e equitativa. E deu como exemplo a solidariedade com o Vietnã e a criação do Contingente Internacional Henry Reeve e sua contribuição decisiva para a saúde em diferentes latitudes. Concluiu convocando à divulgação dos ensinamentos do comandante sobre questões internacionais.

Como o Cid Campeador, Fidel continua vencendo batalhas depois de morto.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *