Recentes declarações de autoridades civis e militares argentinas, minimizando a soberania chilena sobre territórios e o mar austral e sugerindo um controle binacional do Estreito de Magalhães, fizeram com que o presidente ultradireitista do Chile, José Antonio Kast, reagisse com tendências ao militarismo, à geopolítica e à subordinação, afirma um especialista em temas de defesa.

Em entrevista ao La Jornada, Mladen Yopo, doutor em Ciência Política pela Universidade de Leiden e mestre em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile, afirma que essas declarações, somadas à compra de armamentos realizada pela Argentina e pelo Peru, fizeram com que a geopolítica ganhasse prioridade nas análises estratégicas chilenas.
“Há vários elementos em jogo, não existe uma única causa. Os questionamentos apontam para dotar as Forças Armadas argentinas de maior capacidade logística, deteriorada há décadas. O Chile sempre considerou as Malvinas uma questão de descolonização e de soberania argentina, mas eles levantam a questão de Magalhães.
Argentina | O lucro do terror: a impunidade inabalável das gigantes do agro sócias da ditadura
Isso tem relação com a má situação interna de Milei, que pode perder as eleições. É sabido que questões externas são utilizadas na política interna”, afirma.
Além disso, “sempre existiu na Argentina uma perspectiva de expansão geopolítica. O tratado de limites de 1881 garante que o Chile é dono do Estreito de Magalhães perpetuamente, mas eles levantam essa questão na perspectiva de ir construindo uma capacidade expansiva”.
Soma-se a isso a Antártida, em relação à qual “há uma questão geopolítica em disputa, o alinhamento da política externa, uma subordinação da Argentina, que ofereceu aos Estados Unidos uma base militar permanente na Patagônia, como prolongamento de sua presença na região”.
Isso, acrescenta, busca “limitar a presença da China” no continente, uma questão extremamente complexa porque o país asiático é o principal parceiro comercial de vários países, entre eles o Chile. Dessa forma, “os Estados Unidos vão contra a autodeterminação, a soberania, o respeito ao direito internacional e o fortalecimento do multilateralismo”.
Tudo se complica com “a cereja do bolo: o escudo de segurança proposto pelos Estados Unidos, supostamente contra a criminalidade, mas que bombardeia embarcações a torto e a direito no Caribe, sem qualquer respeito ao direito humanitário dos pescadores da região”.
O Escudo das Américas, afirma, representa “a militarização das forças estadunidenses e nacionais na região, reflexo do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca de 1947, criado contra o comunismo”.
“É contra a China, a Rússia, o Irã e outros que consideram inimigos estratégicos.”
Existe o risco, afirma, de uma corrida armamentista a partir da exigência estadunidense de aumento dos gastos militares, porque “quando faltam confiança e cooperação, aumentam os nacionalismos e as tensões por territórios, recursos, rotas estratégicas ou pela competição entre potências”.
E, quando prevalece esse realismo, os países procuram ampliar seu poderio militar para aumentar sua capacidade de dissuasão, gerando um círculo vicioso, porque o fortalecimento militar de um Estado é interpretado pelos demais como uma ameaça, incentivando novas aquisições, e assim sucessivamente.
Trata-se de uma corrida que só termina por decisão política e mediante ações positivas, conclui Yopo.
