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O debate das Big Techs sobre uma IA “aberta” e “segura” deixa o poder corporativo sem questionamentos Diálogos do Sul Global

Em 24 de julho de 2026, uma coalizão inicial de 25 empresas e organizações de tecnologia, incluindo NVIDIA, Microsoft e Meta, publicou a carta Open Weights and American AI Leadership (“Pesos Abertos e Liderança Americana em IA”), defendendo uma adoção mais ampla de modelos de IA que as instituições possam baixar e modificar.

Até 3 de agosto, mais de 270 empresas e organizações haviam assinado a carta, abrangendo Big Techs, capitais de risco, gestão de investimentos e os setores de defesa e segurança.

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Reprodução

Quatro dias após a publicação de Open Weights, outra carta, Pacing the Frontier (“Controlando o Ritmo da Fronteira”), organizada por funcionários de empresas de IA de fronteira com o apoio de duas organizações sem fins lucrativos voltadas à política de IA, reuniu mais de 1.300 assinaturas.

O documento alerta que as empresas líderes podem estar próximas de automatizar a pesquisa em IA, acelerando o desenvolvimento para além da capacidade da sociedade de compreender ou controlar os sistemas de IA resultantes.

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As cartas parecem defender futuros opostos. Uma apresenta um acesso mais amplo e menos restrições como caminho para a segurança e a prosperidade.

A outra pede que o governo dos Estados Unidos apoie um esforço internacional para desacelerar o desenvolvimento de fronteira antes que as pressões competitivas tornem impossível qualquer contenção coordenada.

Mas elas abordam diferentes níveis da indústria. Open Weights busca aprofundar a presença já generalizada da IA, tornando mais fácil incorporar modelos personalizáveis em toda a economia e na vida pública.

Pacing the Frontier propõe uma gestão, apoiada pelo governo, da IA de fronteira — termo utilizado pela indústria para designar seus modelos mais avançados e amplamente capazes. Essa estrutura poderia tornar indispensável o pequeno círculo de empresas que desenvolvem esses sistemas para definir os perigos e elaborar as regras destinadas a restringi-los.

Lidas em conjunto, as cartas apontam para um arranjo de dois níveis. A IA se torna profundamente enraizada em toda a sociedade, enquanto a propriedade de seus sistemas mais poderosos, de sua infraestrutura e de sua governança permanece concentrada no topo. Sua conexão não exige nenhum acordo secreto. Ela está presente naquilo que ambas tomam como pressuposto: o desenvolvimento da IA continuará, instituições públicas irão financiá-la e adotá-la, e a propriedade privada e o poder corporativo permanecerão intactos.

As cartas deixam de lado questões mais difíceis: quem será o proprietário da IA e decidirá seus rumos? Como ela será utilizada em vigilância e guerra, e como transformará o trabalho e aprofundará a desigualdade? Quais vidas e quais futuros serão valorizados, e o público tem algum direito de limitar ou recusar uma tecnologia apresentada como inevitável? Sob a linguagem da abertura e da segurança, existe um acordo mais profundo sobre o poder corporativo, a predominância militar, o governo das elites e as correntes autoritárias que moldam a visão do Vale do Silício sobre o futuro.

Pesos abertos não são códigos abertos

Um modelo de IA é o sistema subjacente que gera respostas, previsões, imagens ou outros resultados. Seus “pesos” são os bilhões de configurações numéricas desenvolvidas a partir de padrões presentes nos dados de treinamento. A divulgação desses pesos permite que organizações com capacidade computacional e conhecimento técnico baixem, executem e modifiquem o modelo, em vez de utilizá-lo apenas por meio de um serviço controlado por uma empresa, como ChatGPT, Gemini ou Claude.

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ChatGPT, Gemini, Claude

Pesquisadores podem examinar esses modelos, testar suas vulnerabilidades e desenvolver ferramentas especializadas, enquanto as organizações podem executá-los localmente, em vez de enviar informações sensíveis a um serviço comercial. No entanto, serviços proprietários e controlados por empresas, como ChatGPT, Gemini e Claude, não são inerentemente mais seguros: seus operadores podem manter falhas fora do escrutínio público, monitorar a maneira como as pessoas os utilizam, impor restrições, aumentar preços ou retirar o acesso.

Mas divulgar os pesos de um modelo não torna, por si só, o sistema de IA de código aberto. De acordo com a definição da Open Source Initiative, uma IA de código aberto deve fornecer os materiais necessários e a liberdade jurídica para utilizar, estudar, modificar e compartilhar o sistema para qualquer finalidade.

Esses materiais incluem os parâmetros do modelo, o código completo utilizado para treiná-lo e executá-lo, além de informações detalhadas sobre seus dados e métodos de treinamento. A maioria das versões com pesos abertos, em contraste, fornece as configurações numéricas finais e arquivos de suporte suficientes para executar ou adaptar o modelo, mas não o código completo de treinamento nem os detalhes necessários sobre seus dados e métodos de treinamento.

Os próprios dados de treinamento e grande parte do processo de desenvolvimento frequentemente permanecem proprietários ou indisponíveis. Para além dos requisitos formais da definição, os arranjos de trabalho e as decisões corporativas por trás desses sistemas também permanecem ocultos. Os usuários de modelos com pesos abertos podem, portanto, operá-los e adaptá-los sem obter um conhecimento completo de como foram construídos.

A carta Open Weights se apropria da reputação democrática do código aberto para apresentar o acesso a pesos abertos como um caminho para a competição, a independência e a prosperidade compartilhada.

No entanto, uma versão com pesos abertos oferece ao público acesso a um produto corporativo sem transferir sua propriedade ou conceder aos trabalhadores, às comunidades afetadas e ao público em geral um poder significativo para governar os dados, a infraestrutura computacional, as condições de trabalho e as decisões de implementação que estão por trás dele. Uma versão genuinamente de código aberto proporcionaria materiais e liberdades jurídicas mais amplos, mas mesmo isso não colocaria os recursos, a infraestrutura ou os usos institucionais da IA sob governança pública, comunitária ou dos trabalhadores.

Em ambos os casos, o acesso permanece desigual. Indivíduos podem executar modelos menores, mas corporações e órgãos públicos possuem os data centers, os conjuntos de dados privados, os registros institucionais e os especialistas necessários para personalizá-los, conectá-los aos sistemas institucionais de dados e implementá-los em larga escala. Um modelo de pesos abertos que apoia pesquisas independentes pode, portanto, também ampliar a vigilância e a coerção institucional, ao permitir que governos e corporações monitorem e classifiquem pessoas, orientem ou automatizem decisões de grande impacto e controlem o acesso a serviços.

Essa distribuição desigual de poder é apenas um dos perigos. Os pesos abertos também criam um problema irreversível de perda de controle. Uma vez copiado, um modelo não pode ser completamente recuperado, monitorado ou corrigido em todas as suas cópias distribuídas, tampouco é possível garantir que suas salvaguardas permaneçam intactas.

Aqueles que possuem conhecimento técnico e recursos computacionais suficientes podem modificar modelos de pesos abertos, remover seus mecanismos de recusa, introduzir comportamentos discriminatórios ou portas dos fundos ocultas e redistribuir os resultados. Modelos modificados poderiam facilitar ataques cibernéticos, fraudes, falsificação de identidade, imagens sexuais não consensuais, assédio ou orientações envolvendo armas, abuso e autolesão.

Conectados a registros institucionais, poderiam expor informações privadas, intensificar a vigilância, promover discriminação, restringir serviços ou ajudar a perseguir comunidades. A responsabilidade então se fragmenta, à medida que desenvolvedores, fornecedores e instituições culpam uns aos outros.

Mesmo enquanto os pesos circulam e abrem caminho para usos ainda mais nocivos, a infraestrutura permanece firmemente fechada. A IA depende de chips especializados, enormes data centers, eletricidade, água e plataformas de computação em nuvem.

Os pesos abertos podem reduzir a dependência de uma instituição em relação a um determinado fornecedor de modelos, mas o treinamento, a adaptação e a implementação de IA em larga escala ainda dependem de mercados de infraestrutura altamente concentrados, liderados pela NVIDIA nos aceleradores avançados de IA e pela Amazon Web Services, Microsoft Azure e Google Cloud na computação em nuvem.

As quatro empresas agora aparecem entre as signatárias da carta. O modelo pode ser baixado, mas o controle sobre a infraestrutura que o cerca continua concentrado em um pequeno grupo de corporações.

Para pesquisadores e organizações do Sul Global, os pesos abertos podem proporcionar alguma independência real em relação aos serviços comerciais fechados e facilitar a adaptação dos modelos a idiomas e necessidades locais. Mas essa autonomia limitada não altera o sistema global de trabalho por meio do qual a IA é produzida, que depende de uma vasta força de trabalho, majoritariamente espalhada pelo Sul Global, responsável por coletar, rotular, limpar, traduzir, moderar e avaliar dados e resultados de modelos.

Esses trabalhadores são frequentemente monitorados e gerenciados por algoritmos, submetidos a acordos de confidencialidade e obrigados a suportar exposição prolongada a materiais traumáticos. A liberação dos pesos de um modelo não revela nenhuma dessas condições de trabalho e não proporciona aos trabalhadores nem participação na propriedade nem poder de decisão sobre os sistemas que seu trabalho ajudou a criar.

Open Weights pede aos formuladores de políticas que ampliem o acesso à computação, financiem conjuntos de dados e ferramentas de teste, evitem restrições que possam desacelerar o desenvolvimento e disseminem a IA por toda a economia. Essa é uma estratégia conhecida da Big Tech: utilizar recursos públicos para construir mercados para tecnologias controladas privadamente e tornar a vida cotidiana dependente de produtos que o público não possui nem governa. Os custos são distribuídos entre trabalhadores e o público, enquanto as empresas privadas mantêm o controle sobre grande parte da infraestrutura, da propriedade intelectual e da riqueza resultante.

Controlando o ritmo da frontier AI  — Mas sob a autoridade de quem?

Construir uma IA de fronteira exige quantidades extraordinárias de poder computacional, energia, dados e capital, confinando em grande medida seu desenvolvimento a um pequeno número de grandes corporações de tecnologia, laboratórios de IA fortemente financiados e instituições apoiadas pelo Estado.

Pacing the Frontier alerta que, se os sistemas de IA começarem a automatizar a pesquisa e a engenharia necessárias para criar sucessores mais poderosos, o desenvolvimento poderá ultrapassar a capacidade de pesquisadores e governos de testá-los, compreendê-los ou controlá-los. Esses sistemas poderiam facilitar ataques cibernéticos, o desenvolvimento ou a utilização de armas, a manipulação em massa e outros danos catastróficos antes que salvaguardas eficazes estejam em vigor.

Como nenhuma empresa ou país deseja abrir mão de sua posição competitiva enquanto outros continuam na corrida, a declaração pede ao governo dos Estados Unidos que apoie um esforço internacional para desenvolver mecanismos técnicos e de governança capazes de controlar deliberadamente o ritmo do desenvolvimento da IA de fronteira.

Muitos dos signatários da carta podem sinceramente buscar evitar uma catástrofe, e uma contenção coordenada pode de fato ser necessária. No entanto, a carta não pede nenhuma pausa imediata e deixa sem resposta as questões decisivas: quem decide quando o desenvolvimento deve desacelerar? Qual limiar de capacidade ou que tipo de violação de segurança desencadearia uma intervenção? Quem supervisiona as empresas e o que impede os maiores laboratórios de moldarem regras que consolidem seu domínio, impondo barreiras que concorrentes menores não possam superar?

Muitos dos signatários trabalham para empresas que estariam sujeitas a quaisquer regras resultantes, mas essas mesmas empresas possuem um poder enorme para moldar tais regras. Essas companhias são centros privados de poder e estão entre as instituições mais ricas e politicamente conectadas do mundo.

Coletivamente, elas possuem ou controlam grande parte da infraestrutura de modelos de fronteira, computação em nuvem e data centers, além das informações proprietárias e da expertise técnica das quais os órgãos reguladores dependem. Sua riqueza financia lobby, parcerias de pesquisa, acesso político e campanhas de políticas públicas. Por meio de mecanismos de busca, plataformas sociais, assistentes de IA, parcerias com empresas de mídia e pesquisas patrocinadas, elas também moldam as percepções públicas sobre a IA: o que ela promete, quais danos recebem atenção e quais alternativas parecem possíveis.

No entanto, esse poder está sujeito a pouca responsabilização democrática. Grandes decisões são tomadas sem escrutínio público, enquanto as pessoas e comunidades afetadas por esses sistemas têm pouco poder para inspecioná-los, contestar suas decisões ou recusar seu uso. As empresas podem ajudar a definir o que constitui um perigo, quais respostas são aceitáveis e quais restrições permanecem fora do debate sério. Aqueles que criam os riscos tornam-se, assim, parceiros indispensáveis dos governos e coautores das regras destinadas a restringi-los.

A ênfase em catástrofes futuras pode tirar de vista os danos presentes. A IA já está intensificando sistemas racistas de vigilância em massa, policiamento, detenção e deportação; apoiando o direcionamento militar e o rápido desenvolvimento de sistemas de armas cada vez mais autônomos; automatizando o trabalho e substituindo trabalhadores; aprofundando a extração de dados; e acelerando a destruição ambiental. Um relatório do Brennan Center detalha as disparidades raciais no reconhecimento facial e observa que pessoas negras correspondem a pelo menos 8 dos 10 casos conhecidos de prisões indevidas baseadas em correspondências equivocadas.

O inventário de IA do Departamento de Segurança Interna documenta o uso de reconhecimento facial pelo ICE. Uma investigação da ACLU rastreia o papel da Palantir na infraestrutura de detenção e deportação do ICE. Uma análise do Government Accountability Office descreve o programa Maven, do Pentágono, que utiliza aprendizado de máquina para identificar possíveis alvos a partir de imagens geoespaciais.

O AI Now Institute’s 2025 Landscape Report documenta as demandas de energia e água da IA, o deslocamento e a exploração de trabalhadores, a vigilância no ambiente de trabalho, o aprofundamento da desigualdade e os riscos para infraestruturas críticas e para a segurança nacional. O debate sobre uma hipotética perda de controle pode obscurecer os danos que os sistemas já estão impondo às pessoas enquanto funcionam exatamente como foram projetados.

Pacing the Frontier faz pouco para questionar as estruturas que produzem esses danos. Seus limites são especialmente claros no que diz respeito ao trabalho. Uma desaceleração genuína poderia reduzir o ritmo de substituição de trabalhadores, da extração de recursos e da demanda por trabalho de dados exploratório ou psicologicamente prejudicial, mas não alteraria, por si só, as estruturas de propriedade, as condições de trabalho ou as relações de poder que governam a produção de IA.

A carta não inclui esses danos presentes em sua defesa da contenção. Ela define o perigo principalmente em termos das capacidades dos sistemas de fronteira, da competição geopolítica e de uma possível catástrofe futura, e não em termos de baixos salários, gestão algorítmica, danos psicológicos, deslocamento de trabalhadores ou das cadeias transnacionais de contratação que já sustentam o desenvolvimento da IA.

Essa concepção restrita de perigo também molda a estrutura de segurança imaginada por Pacing the Frontier. Avaliar e submeter modelos a testes de estresse, revisar conteúdo e monitorar sistemas após sua implementação continuaria exigindo trabalho humano. Dadas as práticas trabalhistas arraigadas na indústria tecnológica, essa estrutura quase certamente continuaria dependendo de trabalhadores que labutam nas sombras.

A carta não prevê nenhuma das proteções ou poderes de decisão de que esses trabalhadores precisariam: padrões trabalhistas, transparência sobre quem realiza o trabalho e em quais condições, direitos de negociação coletiva, proteção contra a vigilância no local de trabalho ou um papel significativo para os trabalhadores de dados na determinação daquilo que seu trabalho é utilizado para produzir.

A concentração de autoridade nos laboratórios e entre especialistas governamentais pode fortalecer as empresas que já estão no topo. A regulamentação da IA de fronteira pode reduzir perigos reais, mas exigências dispendiosas de testes, segurança e elaboração de relatórios podem excluir universidades, pesquisadores voltados ao interesse público e desenvolvedores menores, enquanto as maiores empresas absorvem os custos. Como os governos dependem da expertise corporativa, a supervisão pode se transformar em um muro que protege a Big Tech da responsabilização pública e deixa intocado o regime de trabalho do qual ela depende.

No que diz respeito ao trabalho, portanto, as cartas são menos opostas do que parecem. Open Weights disseminaria modelos cuja dependência do trabalho humano permanece oculta; Pacing the Frontier submeteria os modelos mais poderosos à supervisão de especialistas sem democratizar as relações de trabalho nem reestruturar as cadeias de fornecimento que estão por trás deles.

A ideologia por trás do sistema de dois níveis

Ambas as cartas tratam o avanço da IA como inevitável, deixando para o público a tarefa de se adaptar e para o governo a tarefa de administrar sua implementação. Esse determinismo tecnológico se combina com o solucionismo do Vale do Silício: questões sobre propriedade, trabalho, vigilância, poder militar e o direito de recusar a IA são reduzidas a questões de design e supervisão.

Dentro dessa premissa compartilhada, Open Weights concede às instituições maior liberdade para implementar a IA, enquanto Pacing the Frontier coloca laboratórios corporativos, especialistas e autoridades no centro da determinação de se e quando o desenvolvimento da IA representa um perigo inaceitável. O público permanece como uma população a ser administrada, em vez de uma força política com poder para decidir se e como a tecnologia deve ser desenvolvida e utilizada.

A divisão entre as cartas não é apenas ideológica. Ela também corresponde, embora de maneira imperfeita, a diferentes posições e interesses materiais dentro da economia da IA. A coalizão predominantemente formada por empresas por trás de Open Weights reúne fabricantes de chips, provedores de computação em nuvem, desenvolvedores de modelos, empresas de software, empresas contratadas dos setores de segurança e militar e firmas de capital de risco. Pacing the Frontier surge de uma posição institucional diferente.

A carta foi assinada individualmente por funcionários, pesquisadores e executivos de empresas de IA de fronteira, incluindo algumas das figuras mais influentes da indústria, em vez de ser formalmente endossada pelas próprias empresas. Suas preocupações não podem ser simplesmente reduzidas aos interesses econômicos de seus empregadores. No entanto, sua posição dentro da indústria é importante: eles trabalham no interior do pequeno grupo de laboratórios de elite onde o poder computacional, os investimentos, o conhecimento proprietário e a autoridade técnica estão mais fortemente concentrados.

As cartas, porém, não devem ser tratadas como expressões de blocos de capital completamente separados. Google, Meta, OpenAI e outras empresas aparecem na coalizão de Open Weights, enquanto funcionários e executivos dessas mesmas empresas assinaram Pacing the Frontier. Uma única corporação pode se beneficiar tanto da ampla difusão da IA pelo mercado quanto do controle concentrado na fronteira: pode estimular a adoção generalizada, vender a infraestrutura e os serviços que essa adoção exige e manter o controle sobre seus sistemas mais avançados.

O que parece ser um conflito entre diferentes setores do capital da IA pode, portanto, também refletir estratégias concorrentes dentro das mesmas corporações e redes de investimento. Trata-se principalmente de uma disputa dentro da elite corporativa e técnica da IA sobre os termos de sua expansão, e não de um desafio à propriedade corporativa ou ao controle concentrado.

Open Weights ecoa temas encontrados no Techno-Optimist Manifesto, de Marc Andreessen, no aceleracionismo efetivo (effective accelerationism) e no tecnolibertarianismo. Essas correntes tratam a expansão tecnológica como um bem social, os mercados privados como motores do progresso e a regulamentação como um obstáculo. Pacing the Frontier se distancia da hostilidade do tecnolibertarianismo à contenção governamental, mas não altera a distribuição de poder que o tecnolibertarianismo legitima.

Os sistemas de fronteira continuam sendo propriedade privada, o desenvolvimento continua organizado por meio da competição corporativa e as elites técnicas e corporativas mantêm um papel privilegiado na definição do perigo. A carta representa, portanto, menos uma rejeição do tecnolibertarianismo do que um esforço tecnocrático para conter os perigos criados pela competição corporativa desenfreada, deixando intactas suas estruturas subjacentes de propriedade e controle.

Ao mesmo tempo, sua ênfase em uma possível catástrofe futura e na contenção conduzida por especialistas se aproxima mais do longtermismo, que pode atribuir maior importância moral a populações futuras hipotéticas do que às pessoas que sofrem atualmente, e do singularitarianismo, que prevê que a IA sobre-humana transformará a sociedade para além de qualquer reconhecimento. Essas correntes se sobrepõem ao transumanismo, que vislumbra o uso da tecnologia para aprimorar determinadas capacidades humanas e, em última instância, criar formas de vida supostamente superiores, “pós-humanas”.

Apesar de suas diferenças, essas correntes ideológicas convergem em torno da busca por uma IA cada vez mais poderosa. Os aceleracionistas defendem mais poder computacional, implementação mais rápida e menos restrições, convencidos de que o crescimento tecnológico produzirá abundância e resolverá problemas sociais.

As estruturas de segurança longtermistas podem defender um maior controle sobre o ritmo do desenvolvimento, mas frequentemente deixam sem questionamento esse projeto subjacente e sua propriedade e direção corporativas privadas.

Na estrutura desenvolvida por Timnit Gebru e Émile P. Torres, essas visões compartilham uma tendência a centralizar o poder, elevar as elites técnicas à condição de guardiãs da humanidade e invocar a “segurança” ou o benefício universal enquanto afastam do campo de visão a exploração, a discriminação e a destruição ambiental que já afetam povos despossuídos.

Eles remontam o transumanismo, o singularitarianismo, o longtermismo e ideologias relacionadas à eugenia anglo-americana. Em sua análise, o transumanismo reformulou a ideia de melhorar o “estoque humano” como a criação de seres aprimorados ou “pós-humanos”.

A linguagem passou da reprodução compulsória para a inovação e a escolha pessoal, mas a lógica de classificação permaneceu: ideias sobre raça, inteligência, produtividade, capacidade física e capacidade de aprimoramento continuam a moldar quais vidas e quais futuros são valorizados. A eugenia não desapareceu. Ela foi atualizada para uma era na qual elites poderosas imaginam redesenhar a humanidade por meio de tecnologias que reproduzem hierarquias existentes.

O tecno-otimismo transforma essa hierarquia em uma narrativa de libertação, apresentando tecnologias corporativas como instrumentos neutros de progresso enquanto oculta quem as possui e quem arca com seus custos. Em seu extremo autoritário, ele se sobrepõe ao pensamento [neorreacionário ou do “Iluminismo Sombrio”], que rejeita a democracia igualitária e imagina uma sociedade governada como uma corporação por CEOs ou elites tecnocráticas.

Tal ordem não precisa se anunciar como uma ditadura. Ela pode emergir por meio de sistemas de propriedade privada que monitoram, classificam, restringem e punem pessoas sem consentimento ou possibilidade significativa de recurso.

A suposta hostilidade do Vale do Silício ao governo federal é seletiva. A indústria resiste ao Estado enquanto regulador, ao mesmo tempo que o abraça como investidor, cliente, parceiro militar, força policial e autoridade de fronteira. Ela não necessariamente busca um Estado menor, mas um Estado que proteja uma oligarquia tecnocapitalista, reprima a resistência e utilize sistemas desenvolvidos privadamente para governar.

Esse acordo entrou na própria maquinaria do governo Trump. A Reuters informou que executivos e empresas de tecnologia doaram mais de US$ 300 milhões para apoiar a campanha de Trump em 2024 e um comitê político aliado. Elon Musk gastou mais de um quarto de bilhão de dólares, enquanto David Sacks e figuras da rede de Marc Andreessen passaram a integrar ou aconselhar o governo.

Seja motivada por ideologia, lucro ou acesso, essa aliança promove prioridades autoritárias domésticas (incluindo policiamento ideológico, vigilância em massa e deportação) e um projeto imperial de domínio militar e dependência mundial da tecnologia norte-americana. O Estado obtém infraestrutura privada e expertise. As empresas recebem desregulamentação, subsídios, contratos e apoio para sua expansão global.

O plano de ação do governo [America’s AI Action Plan] transforma esse acordo em política por meio da adoção acelerada, da redução das barreiras regulatórias, da rápida construção de data centers e da exportação global de chips, modelos, softwares e padrões norte-americanos.

Uma ordem executiva relacionada, sobre [“Preventing Woke AI”], determina que as agências comprem modelos que estejam de acordo com as definições de verdade e neutralidade do governo, ao mesmo tempo que apresenta o racismo sistêmico, a interseccionalidade e aquilo que chama de “transgenerismo” como ameaças ideológicas. O Estado não está retirando a política da IA. Está utilizando seu poder de compra para apresentar sua própria política como verdade neutra.

Nada disso significa que todos os signatários ou desenvolvedores apoiem o governo Trump ou compartilhem os compromissos ideológicos descritos aqui. O ponto é estrutural: ambas as cartas operam dentro de uma ordem política construída em torno de infraestrutura privada, riqueza concentrada, domínio geopolítico dos Estados Unidos e competição interestatal pela superioridade militar e tecnológica possibilitada pela IA.

A corrida — especialmente entre Estados Unidos e China — para desenvolver IA para armas, inteligência, vigilância, guerra cibernética, logística e planejamento militar transforma a expansão contínua em um imperativo de segurança nacional e faz com que a contenção pareça uma capitulação estratégica.

Os pesos abertos aceleram a difusão, a governança da segurança de fronteira pode legitimar o controle por agentes internos, e as instituições públicas fornecem o dinheiro, os dados, a infraestrutura, a legitimidade e os usuários. A IA se espalha por toda a sociedade, mas a propriedade, o poder e a riqueza permanecem concentrados.

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