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As “verdades universais” que a imprensa peruana esconde sobre a vitória de Keiko Fujimori Diálogos do Sul Global

A proclamação dos resultados eleitorais do Peru referentes ao pleito de 7 de junho, realizada na última sexta-feira (3), encerra um período da vida política do país. Para o Peru formal, termina uma etapa e começa outra. E, nela, o dever dos “patriotas” é cerrar fileiras em torno de Keiko Fujimori porque ela foi “a presidenta que venceu a eleição”.

Trata-se, evidentemente, de uma afirmação que buscará se impor como uma verdade universal, quando, na realidade, as verdades universais compartilhadas pelos peruanos são outras.

A primeira verdade universal é que houve trapaça nas eleições de 2026. Não é necessário falar em “fraude”, porque esse é um termo desgastado. Dizemos trapaça porque esse conceito corresponde a uma estratégia de maior alcance e de mais alto nível, que se manifesta por meio de diversas modalidades.

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Keiko Fujimori – wikipedia

A primeira delas se expressou na singular captura de todos os órgãos de poder pela máfia governante. Desde a construção de uma “maioria” corrupta no Congresso da República até a captura de todos os órgãos de direção do Estado, como a Procuradoria-Geral da Nação, o Tribunal Constitucional, a Junta Nacional de Justiça, a cúpula militar, a “grande imprensa”, o empresariado e até a Defensoria do Povo, todos caíram, um a um, nas mãos de um mesmo núcleo de poder.

E esse processo foi sendo consolidado graças à “aliança” de forças efêmeras e circunstanciais e contou com a vergonhosa adesão do Perú Libre, criação de Vladimir Cerrón. Assim se completou a “maioria” governista que fez o que quis, sobretudo a partir de dezembro de 2022.

O controle de toda a estrutura legal não foi suficiente. Foi necessário acrescentar um conjunto de ações destinado a enfraquecer a oposição, mas também a controlar a estrutura eleitoral e manejá-la conforme seus interesses.

Nesse esforço, suspenderam os direitos políticos de alguns e prenderam outros; além disso, destituíram funcionários e obrigaram a renunciar aqueles que não aceitaram fazer o jogo deles, com o objetivo de enfraquecer a presença de seus críticos e reduzir sua capacidade de atuação. Essa é uma segunda verdade universal que ninguém pode negar.

A terceira também não é nova. Vem sendo aplicada há mais de duas décadas, mas, desta vez, mostrou-se realmente contundente. Refere-se ao nível de representação alcançado pela pessoa que ocupou o primeiro lugar na votação. Para entender o caso, é preciso colocar os pés no chão: Keiko Fujimori obteve, no primeiro turno eleitoral, em 12 de abril, 10% dos votos.

Esse percentual foi artificialmente elevado para 17% quando lhe foram acrescentados os votos nulos e anulados, considerados como “validamente emitidos”. Seu percentual aumentou, mas o número de votos permaneceu o mesmo: 10% dos sufrágios.

Com esse percentual, Keiko deveria ter direito a 10% da representação parlamentar: em um Senado de 60 membros, deveria obter seis senadores. E, em uma Câmara dos Deputados de 130 integrantes, 13 parlamentares.

Aconteceu, no entanto, que, em vez de seis senadores, foram-lhe atribuídos 22. E, em vez de 13 deputados, foram-lhe reconhecidos 41. Como isso aconteceu? Bem, foi uma simples “interpretação da lei”. Também lhe somaram os votos nulos e anulados, o que a favoreceu a esse extremo.

Essa verdade, portanto, é clara e direta: Keiko Fujimori possui uma representação parlamentar que não lhe corresponde e que jamais obteve. Simplesmente lhe foi concedida.

A quarta também é facilmente comprovável. Keiko Fujimori perdeu a eleição no Peru, mas será a nova presidenta do Peru. Quem venceu — isto é, Roberto Sánchez — obteve 9.060.022 votos, o equivalente a 50,088% dos sufrágios. E Keiko alcançou 9.028.008 votos, correspondentes a 49,912%. Essa é uma verdade universal que ninguém poderá desconhecer.

Keiko, que perdeu a votação no Peru, “reverteu” essa realidade com os votos obtidos no exterior, sobretudo nos Estados Unidos. Um fato insólito, mas também inédito, que abriu uma espécie de Caixa de Pandora. Nunca havia acontecido.

Como isso foi possível? Por meio de um artifício simples: não foi realizada a digitalização dos votos quando estes foram apurados, ou seja, quando a contagem foi encerrada na seção eleitoral, conforme determinava a lei.

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Para tornar isso possível, as autoridades eleitorais decidiram “mudar a norma” e estabeleceram que, entre o primeiro e o segundo turno, isso fosse permitido. Pode uma mudança regulamentar modificar uma lei? Pode uma alteração dessa natureza ser feita na fase final de um processo eleitoral?

As autoridades poderão apresentar múltiplas explicações, mas o que ficará claro e se converterá na quarta verdade universal é que, ao não serem digitalizados os votos logo após sua apuração, durante o transporte das atas e sua totalização em Lima — após vários dias de deslocamento — perderam-se a segurança e o sigilo do voto.

Além disso, rompida a cadeia de garantias e com as atas abertas ao acesso de terceiros — os funcionários do serviço consular — qualquer alteração poderia ter ocorrido. Em todo caso, perdeu-se completamente a garantia elementar de uma consulta eleitoral.

Uma quinta verdade diz respeito à presença de elementos estrangeiros no desenvolvimento do processo eleitoral. Não se trata dos observadores internacionais formalmente credenciados, mas de um diplomata estrangeiro — o único — que teve acesso direto e contato permanente com os órgãos eleitorais durante todo o processo.

Foi, de fato, o embaixador dos Estados Unidos, Bernie Navarro, o único embaixador credenciado junto ao governo peruano que se reuniu em diversas ocasiões com os funcionários do Poder Eleitoral e que teve acesso a todos os procedimentos em andamento. Nenhum outro membro do corpo diplomático desfrutou de tais privilégios.

Cinco verdades universais que todos devem conhecer e defender para escapar do falso dilema em que a imprensa vendida pretende nos colocar. Não se trata de reconhecer, ou não, a eleição realizada. Trata-se de afirmar que ela não representa a vontade dos cidadãos porque foi ostensivamente manipulada para produzir um resultado contrário à opinião do nosso povo.

Assim, para além de qualquer artifício, Keiko Fujimori não simboliza a legalidade nem encarna a democracia.

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