Em junho último completaram-se trinta anos do levante ocorrido em Cutral-Co e Plaza Huincul, que deu origem ao que, com o passar dos anos, ficou conhecido como o movimento piqueteiro argentino.
Em um pequeno povoado situado no coração da Patagônia argentina, milhares de trabalhadores e trabalhadoras se levantaram diante do cancelamento da instalação de uma empresa petroquímica que prometia recuperar os postos de trabalho que haviam desaparecido anos antes com a privatização da YPF, a petroleira estatal.
O aprofundamento do modelo neoliberal, inaugurado pela ditadura militar em 1976, provocara um nível de desemprego estrutural no país que, no caso das cidades mencionadas, alcançara cerca de 5 mil pessoas, o que representava quase 20% da população economicamente ativa daquela região.
Não era para menos. Em poucos anos, a multinacional espanhola Repsol havia desmontado a unidade da YPF instalada na região, que passou de 4 mil operários para 400. Do total de demissões e programas de desligamento voluntário, cerca de 1,7 mil pessoas decidiram iniciar pequenos empreendimentos que, na maioria dos casos, tornaram-se obsoletos ou fracassaram em pouco tempo.
Em 20 de junho de 1996, depois que o governador de Neuquén, Felipe Sapag, confirmou a suspensão da construção da petroquímica, reuniu-se uma assembleia multissetorial que decidiu bloquear a Rodovia Nacional 22, interrompendo a circulação dos caminhões que transportavam petróleo e tornando visível a demanda por trabalho imediato para as famílias desempregadas.
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Depois de resistir ao embate da Gendarmaria e das forças repressivas, o levante consolidou seu caráter massivo, conseguindo romper o cerco informativo e ganhar espaço nos grandes meios de comunicação. Depois de horas de tensão, a Justiça decidiu retirar as tropas do local, provocando a euforia das 30 mil pessoas presentes que, sem saber, conquistavam uma vitória histórica que dava início ao movimento piqueteiro.
Um ano depois, os levantes voltaram a ocorrer na mesma região (3) e se estenderam para outras províncias, como Salta e Jujuy. Em todos os casos, repetiu-se a mesma cena: diante da impossibilidade de impor a repressão, o Estado criou programas sociais (4) para reduzir a pressão das milhares de pessoas que, embora os aceitassem, mantinham firme a reivindicação pela recuperação dos postos de trabalho.
Esse fenômeno foi acompanhado de perto por uma militância dispersa por todo o país, que começou a reproduzir os bloqueios de estradas e as assembleias que exigiam do Estado a recuperação dos empregos perdidos, ao mesmo tempo em que organizava o trabalho comunitário e territorial em bairros populares, vilas e assentamentos.
Milei e uma ofensiva histórica
A onda da extrema-direita e a chegada de Javier Milei ao governo ofereceram às classes dominantes um objetivo histórico: desarticular definitivamente as organizações piqueteiras, territoriais e da economia popular.

A iniciativa governamental baseou-se em uma estratégia de quatro frentes. A primeira consistiu no esvaziamento das políticas públicas, expresso no congelamento dos benefícios dos programas sociais, na suspensão do envio de alimentos aos refeitórios comunitários e na interrupção do financiamento de cooperativas e programas de obras em bairros populares.
Ao mesmo tempo — a segunda frente — intensificaram-se os ataques midiáticos, que, paradoxalmente, já vinham sendo promovidos por alguns setores do massismo durante o governo de Alberto Fernández. A terceira frente foi a repressão, iniciada com a implantação do protocolo antipiquetes e com ações repressivas em cada marcha e manifestação. A quarta e última frente consistiu na judicialização de grande parte das direções das organizações, fossem elas de esquerda ou ligadas ao massismo.
Na outra ponta, os movimentos sociais, com dificuldades, precisaram absorver o impacto inicial. Esses ataques do Estado reduziram consideravelmente a capacidade de mobilização, mas não alcançaram seu objetivo: a desarticulação.
A ofensiva governamental levou à formação de uma frente única do setor, organizada a partir de uma aliança reivindicatória entre a União de Trabalhadores da Economia Popular (UTEP), a Frente de Luta Piqueteira e Territórios em Luta. Essa unidade conseguiu impedir, por meio de ações diretas e de iniciativas judiciais, o encerramento definitivo do programa Voltar ao Trabalho, principal programa social recebido por 900 mil pessoas desempregadas, em situação de trabalho precário ou submetidas ao pluriemprego.
Até o momento, as organizações resistiram à mais dura ofensiva sofrida em três décadas de existência. Embora atravessem um processo de transição quanto à forma de acumulação de forças, ainda mantêm níveis importantes de organização nos territórios e continuam contribuindo diretamente para as lutas e a resistência ao governo de Javier Milei.
O destino dos movimentos sociais depende, em alguma medida, da capacidade de construir uma resposta unificada a partir da base da classe trabalhadora, de elaborar novas e criativas formas de acumulação de forças e dos êxitos ou fracassos do modelo econômico e político libertário.
De frente e de pé
Em todo o mundo existe desemprego, mas não em todo o mundo existe um movimento piqueteiro como o concebido na Argentina. Sobre condições objetivas de empobrecimento e desemprego, grupos de ativistas conseguiram se organizar, criar métodos de luta e conquistar espaço na cena pública e política argentina. Fizeram isso, não por acaso, durante o auge do consenso neoliberal dos anos 1990. Oriundos das mais diversas correntes ideológicas, militantes que atuavam de forma quase isolada encontraram ali uma brecha da qual emergiu a raiz de um movimento que permanece vivo até hoje.
A árvore genealógica do movimento piqueteiro possui uma ramificação extensa e variada: vai das correntes consideradas institucionalistas às revolucionárias, passando pelas ligadas ao massismo e ao marxismo. Todas compartilham intensos debates internos e um crescente nível de dependência do Estado ao qual se opõem. A existência desses movimentos está diretamente ligada à expulsão de trabalhadores e trabalhadoras do emprego formal e da indústria, setor que Karl Marx qualificava como a parcela “estagnada” da população excedente produzida pelo próprio sistema capitalista.
Ao longo desses trinta anos, analistas de toda espécie anunciaram a extinção do movimento piqueteiro. Alguns argumentavam que os ciclos de recuperação econômica eliminariam as condições objetivas para sua existência. Outros acreditavam que balas e cassetetes seriam suficientes para alcançar esse objetivo. Em ambos os casos, fracassaram.
Em um país com uma vasta tradição de lutas operárias, a pobreza sempre será motivo de indignação, tanto para aqueles que, do alto do poder, negam a organização da classe trabalhadora quanto para aqueles que, movidos por uma consciência revolucionária, recusam-se a aceitar as condições desumanas desta vida. O desafio permanece o mesmo: como enfrentar essa realidade e dotá-la de uma estratégia revolucionária e anticapitalista. Em princípio, correndo o risco de fazer uma afirmação modesta, pode-se dizer que ninguém perde de vista que, na Argentina, o desemprego se organiza. E isso não é pouca coisa.
