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Brexit, 10 anos depois: extrema-direita transformou revolta social em poder enquanto esquerda assistia Diálogos do Sul Global

“Não é engraçado? Quando cheguei aqui há 17 anos e disse que queria liderar uma campanha para tirar o Reino Unido da União Europeia, todos riram de mim. Agora já não riem, não é?”, ironizou um desafiante Nigel Farage em seu primeiro discurso no Parlamento Europeu após o Brexit.

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Nigel Farage – wikipedia

Alguns dias antes, o país havia realizado um referendo sobre sua saída da União Europeia. O resultado foi apertado: 51% votaram pela saída e 48% pela permanência, com participação de 72% do eleitorado.

A consulta foi precedida por uma campanha acirrada que, juntamente com seu desfecho, representou o primeiro sinal sério de que uma direita situada ainda mais à direita dos conservadores — um espectro até então marginal, que incluía desde a extrema-direita “desdemonizada”, para usar a expressão de Marine Le Pen, até a chamada alt-right — ganhava espaço na sociedade.

Nesta segunda-feira (23) é celebrado o décimo aniversário daquele referendo. Voltaremos a ler análises e comentários sobre suas causas e consequências para o Reino Unido e o restante da Europa.

O balanço das lições aprendidas não é muito animador: apesar dos intensos debates sobre discurso e identidade, comunicação política, campanhas eleitorais e o papel da classe trabalhadora em tudo isso, uma parte da esquerda parece ter se entrincheirado e aguarda que algum acidente histórico retire a direita radical de seu caminho rumo ao poder.

Depois da pandemia de covid-19, falou-se no fim da ascensão dessas forças e em um retorno do papel do Estado, mas o que vimos foi exatamente o contrário.

Agora, deposita-se a esperança de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se torne um fardo para esses movimentos, algo que apenas garantiria o retorno dos mesmos partidos que, por meio de suas políticas, criaram as condições para sua ascensão e, na melhor das hipóteses, daria à esquerda algum fôlego para se reorganizar — se é que ela é capaz disso.

Talvez o pior que possa acontecer — e a probabilidade não é pequena — seja este aniversário passar despercebido, engolido pelo turbilhão dos acontecimentos e pela mistura de infotainment (informação transformada em entretenimento), brainrot (embotamento mental provocado pelo consumo compulsivo de conteúdo digital) e mensagens de menos de um minuto nas redes sociais. Há ainda a dificuldade de enfrentar as razões que levaram a um resultado que pouquíssimas pessoas, ao menos publicamente, esperavam.

Facas à mostra

Diante das dificuldades do presente, surge a tentação de buscar abrigo em uma imagem enganosa do passado. Isso acontece com a década de 1990 — especialmente, segundo se diz, entre integrantes da Geração Z — e até mesmo com o passado mais recente, para o qual a vitória de Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, em novembro de 2016, costuma servir como marco divisório. Mas o que havia de tão tranquilizador e estável naquele passado?

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David Cameron – wikipedia

O Reino Unido dos “conservadores de viés social” de David Cameron foi, vale recordar, o das propostas de terceirização dos serviços públicos e do programa de austeridade; o do aumento da pobreza infantil relativa e do número de usuários dos bancos de alimentos; o da onda de distúrbios de 2011; e o do crescimento dos crimes cometidos com facas.

O problema dos referendos, como se sabe, é que a questão proposta pode facilmente ser ultrapassada pelos acontecimentos e se transformar em um plebiscito sobre o governo que a convocou.

Foi exatamente isso o que ocorreu com o referendo britânico sobre a permanência na União Europeia, que, além disso, era uma consulta inevitável: mais da metade da população, segundo as pesquisas, era favorável à realização de um referendo; os tabloides e a ala direita do Partido Conservador pressionavam havia anos para que ele acontecesse; e o Partido da Independência do Reino Unido (UKIP) vinha ganhando força a cada eleição para o Parlamento Europeu, tornando-se inclusive a legenda mais votada em 2014.

Embora a maioria das análises provavelmente se concentre no contexto britânico — quando não na busca por um vilão conveniente, de Nigel Farage e seu talento para a demagogia à AggregateIQ e à Cambridge Analytica como deus ex machina —, os fatores que convergiram para produzir aquele resultado são, naturalmente, múltiplos.

Outros referendos

É nesse ponto que vale perguntar até que ponto a política de Bruxelas em relação aos países do sul da Europa, então mergulhados em uma crise da dívida, também desempenhou um papel na campanha.

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Michael Gove – wikipedia

E até que ponto a resposta a outro referendo, realizado um ano antes na Grécia e encerrado com uma rejeição esmagadora ao resgate financeiro proposto pela Comissão Europeia — 61% votaram contra, com participação de 62% —, não contribuiu para deslocar o descontentamento para a direita, depois de bloquear uma saída da crise pela esquerda. Um dos líderes da campanha pelo Brexit, Michael Gove, publicou uma resenha de um livro de Yanis Varoufakis e a utilizou de forma oportunista para defender sua posição.

Dez anos antes desse episódio, França e Países Baixos rejeitaram, em dois referendos, a proposta de uma Constituição Europeia. Ainda assim, o processo seguiu adiante.

Em 2007, a Assembleia Nacional francesa aprovou, desta vez sem referendo, uma nova versão do texto: o Tratado de Lisboa. O tratado não substituía os anteriores, como previa o projeto constitucional; apenas os modificava e se sobrepunha a eles.

Quando a Irlanda rejeitou, em consulta popular, a mudança constitucional necessária para ratificar o Tratado de Lisboa, Dublin voltou à mesa de negociações e convocou uma nova votação.

Desta vez, o tratado foi aprovado.

Cada um desses referendos obedeceu a razões internas específicas, mas uma imagem geral ficou gravada no imaginário popular: a de uma União Europeia — com contornos cada vez mais claramente neoliberais — em oposição à expressão democrática.

Breaking Point

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Livro Unleashing Demons: The Inside Story of Brexit – Reprodução: Amazon

Em Unleashing Demons: The Inside Story of Brexit (2016), o jornalista Craig Oliver reconstrói aqueles dias agitados a partir das anotações que fez em seu diário pessoal. Oliver era responsável pela comunicação do gabinete do primeiro-ministro britânico durante o governo Cameron e dirigia a campanha oficial pela permanência, Britain Stronger In Europe.

O relato interessa especialmente aos profissionais da comunicação política. As 400 páginas de Unleashing Demons parecem mostrar o desabamento de um edifício em câmera lenta.

Oliver concentrou a estratégia da campanha pela permanência, “Remain”, na mídia tradicional — o que hoje se chama, em inglês, legacy media (meios de comunicação tradicionais).

As referências à BBC, descrita como “um Leviatã”, aos boletins de rádio e aos programas de maior audiência aparecem o tempo todo no livro. Oliver também adotou a mensagem com a qual James Carville ajudou Bill Clinton a vencer sua primeira eleição presidencial: “É a economia, estúpido”.

No caso britânico, a aposta consistia em mostrar que os benefícios econômicos da permanência na União Europeia — e, por extensão, os riscos da saída — prevaleceriam sobre qualquer outra consideração. Para isso, a campanha reuniu dezenas de especialistas e levou esses nomes à mídia durante meses. O lema era “Britain Stronger In Europe” (“Reino Unido mais forte na Europa”).

Oliver também calculou que a campanha pela saída, “Leave”, acabaria derrapando. Dominic Cummings dirigia a campanha e atuava como spin doctor (estrategista político especializado em moldar a percepção pública). 

Ele defendia uma retórica agressiva e, já naquele momento, flertava com ideias como a eugenia em um blog sobre política, após deixar o governo. A campanha tinha ainda o excêntrico ex-prefeito de Londres Boris Johnson como figura de proa.

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O lendário ônibus de Boris Johnson do Vote Leave (“Vote pela saída”). Berkshire Bus Pics

Na campanha de “Remain”, observa Oliver, “todos pareciam adultos” diante dos adversários. Além disso, uma segunda campanha defendia a saída do Reino Unido: Leave.EU, liderada por Farage e financiada pelo magnata Arron Banks, mas sem reconhecimento oficial.

Cummings, ao contrário de Oliver, concentrou sua campanha nos tabloides e no uso intensivo e eficaz das redes sociais. Nesses canais, insistiu em duas ideias: a de que a União Europeia, com a livre circulação de pessoas, levaria milhares de imigrantes ao Reino Unido; e a de que o bloco absorvia 50 milhões de libras por dia, dinheiro que poderia financiar o sistema público de saúde, o NHS.

Mais tarde, comentaristas classificariam o Brexit como um “cisne negro”, conceito popularizado pelo ensaísta Nassim Taleb para designar um fenômeno que parecia impossível de prever — como a desintegração da União Soviética ou a crise das hipotecas subprime —, embora alguns indícios já permitissem considerar essa possibilidade, caso houvesse atenção suficiente.

No caso britânico, a divisão entre os conservadores era evidente. Muitos deles certamente aderiram à campanha pela saída por acreditar que o resultado favoreceria a permanência, mas que defender o Brexit aumentaria sua popularidade. Ao que parece, não levaram em conta que essa escolha fortalecia a campanha e a aproximava de seu objetivo declarado.

Essa divisão também existia no Partido Trabalhista, o que explicaria a posição criticada como morna de Jeremy Corbyn no referendo. Convém lembrar que Corbyn também enfrentava questionamentos da ala direita de seu partido.

Atentados terroristas na França e as centenas de agressões sexuais registradas na Alemanha, em novembro e dezembro de 2015, respectivamente, ocorreram no contexto mais amplo da crise dos refugiados e alimentaram o temor dos eleitores britânicos de que a União Europeia se transformasse em uma porta de entrada para uma imigração descontrolada.

Nem a intervenção de Barack Obama nem o assassinato da deputada trabalhista Jo Cox, em 16 de junho, poucos dias antes da votação, conseguiram mudar esse quadro.

Um supremacista branco esfaqueou Cox no mesmo dia em que Farage divulgou um cartaz racista mostrando um grupo de refugiados sírios atravessando a fronteira entre Eslovênia e Croácia sob o slogan “Breaking Point” (“Ponto de Ruptura”). Ainda assim, o equilíbrio não se deslocou em favor de “Remain”.

Mark Rutte, então primeiro-ministro dos Países Baixos, compartilhou com Oliver sua opinião de que “os britânicos são conservadores demais para abandonar” o bloco. Tampouco ajudou o fato de o nome do pai de Cameron aparecer nos documentos vazados da empresa Mossack Fonseca, revelados por uma investigação conduzida pela BBC e pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos.

Retomando o controle

Oliver concentrou a mensagem de sua campanha na incerteza econômica: o risco de que o Brexit resultasse em menos empregos, menos investimentos e menos oportunidades.

“Nos últimos cem anos, não houve eleição alguma em que as pessoas tenham votado contra seus interesses financeiros diretos”, afirma Oliver no início do livro.

Gordon Brown, ex-primeiro-ministro trabalhista (2007–2010), observou rapidamente, porém, que esse argumento econômico nem sempre funciona entre aqueles que já não desfrutam de qualquer segurança econômica.

Diante da mudança, o que parece arriscado é o status quo — e foi justamente essa percepção que “Leave” reforçou.

Brown afirmava que “há gente demais que sente não ter nada a perder” e que “quando falamos sobre riscos, essas pessoas respondem que não têm nada a arriscar”.

Um consultor estadunidense também observou a Oliver que “Leave” transmitia uma mensagem positiva, enquanto “Remain” dispunha apenas da “ausência de um desastre”.

“Ninguém vence uma disputa entre o status quo e a promessa de recuperar a liberdade e o controle.”

Apesar disso, “Remain” insistiu repetidamente na mesma mensagem.

Oliver compara, em determinado momento do livro, a campanha de “Remain” a “um rolo compressor” e a de “Leave” a “uma velha locomotiva a vapor engasgando”.

Consenso sobre unidade e flexibilidade é crucial para evitar “brexit do Mercosul”

Nem por isso deixaram de surgir dúvidas: “Corremos o risco de vencer a disputa da campanha e perder a guerra. Definitivamente, somos vistos como as pessoas sensatas e instruídas, enquanto eles podem se apresentar como o povo. E se conseguirem capitalizar a raiva generalizada?”

Mais adiante, escreve: “Podemos cruzar a linha de chegada em primeiro lugar apenas para descobrir que estamos destruídos. Algo dentro de mim diz que nada de bom sairá disso. E existe ainda a possibilidade de que, no fim das contas, percamos.”

Oliver percebia uma tendência que se tornava cada vez mais evidente: “Um padrão estava emergindo, e negá-lo seria estúpido.”

O autor conclui:

“Já não se trata de decidir se devemos permanecer ou sair da União Europeia. Entramos em outro nível, em um terreno que jamais imaginamos. A campanha pela saída está se apresentando como um governo alternativo, completo, com suas próprias políticas prontas para serem implementadas caso Cameron e [George] Osborne sejam derrotados e afastados.”

Contra o Brexit

As primeiras fissuras apareceram em relatórios elaborados por deputados trabalhistas. Um deles relatava que um grupo de jovens trabalhadores do setor digital em Manchester havia recebido informações sobre o referendo exclusivamente pelo Facebook.

O conteúdo vinha da campanha “Leave” e afirmava que a Turquia ingressaria na União Europeia e que, após o Brexit, o NHS passaria a dispor de 350 milhões de libras esterlinas por semana para investimentos.

“Leave” questionava com eficácia os desfiles de especialistas porque instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) não gozavam de boa reputação entre a população.

Além disso, Oliver não apenas superestimou a influência da mídia tradicional em comparação com as redes sociais. Os próprios meios de comunicação, como costuma acontecer, privilegiaram “histórias claras, simples e, de preferência, marcadas pelo confronto”, enquanto rejeitavam histórias “sutis demais ou excessivamente nuançadas”.

Segundo Oliver, esse comportamento “leva organizações políticas de todos os tipos a recorrer à hipérbole para conseguir espaço no noticiário e ser ouvidas”.

Apesar disso, a confiança de “Remain” na vitória não desmoronou até o próprio dia da votação. Naquela manhã, eram redigidos discursos para Cameron conclamar o país à unidade após a esperada vitória da permanência no bloco.

A chegada dos resultados se tornou ainda mais impactante por causa dessa confiança. Oliver acompanhou tudo de seu escritório, onde havia instalado uma cama para conseguir dormir algumas horas:

“Um dos primeiros resultados a chegar foi o de Sunderland, e não era bom. Sempre esperamos que a cidade votasse pela saída, mas 61% contra 39% era muito pior do que o previsto. A libra esterlina despenca. […] A BBC escolheu a cor azul para a saída e a amarela para a permanência. Um padrão começou a surgir à medida que os resultados apareciam na parte inferior da tela: azul, azul, azul, azul, azul.”

Os especialistas contratados por “Remain” consultaram seus modelos estatísticos.

“Estamos no caminho da vitória, embora a margem vá ser apertada.”

Cameron enviou uma mensagem de texto:

“Até que ponto devemos nos preocupar?”

Enquanto tudo ruía na sede de “Remain”, Jim Messina estava na sala. Messina havia dirigido a campanha de reeleição de Obama em 2012 e, naquele momento, comandava a campanha presidencial de Hillary Clinton contra Donald Trump — candidato cuja vitória, segundo praticamente todos os especialistas e veículos de comunicação, era impossível.

Cameron perguntou:

“O que é mais fácil: Hillary Clinton ser eleita presidente ou isto aqui?”

Messina respondeu sem hesitar:

“Hillary.”

Um projeto para várias décadas

Nos dias imediatamente posteriores à votação, Oliver reuniu sua equipe para dissecar os resultados e tentar entender por que aquilo havia acontecido.

“Suspeito que, para muitos eleitores, o referendo significava mais do que a simples pergunta sobre permanecer ou não na União Europeia.”

Segundo Oliver, a campanha “cínica” de “Leave” permitiu que os eleitores depositassem na cédula todas as suas frustrações:

“A imigração, o sentimento de abandono, a ignorância ou a traição, uma vida que não terminou como deveria ter terminado…”

“Leave”, prossegue o autor, “explorou tudo isso sem piedade com o slogan ‘Take Back Control’ (‘Retome o Controle’), vago e poderoso o bastante para significar aquilo que cada pessoa quisesse”.

Os moderadores dos grupos focais relatavam respostas reveladoras:

“Quando perguntávamos: ‘Vocês realmente acreditam no que a campanha Leave afirma? Que poderemos simplesmente levantar âncora e partir da Europa rumo a uma terra de leite e mel?’, eles respondiam: ‘Alguns acreditam. Muitos não. Mas todos estão enviando uma mensagem’.”

A análise de Oliver é honesta, embora parcial. Para ele, o referendo envolvia uma questão complexa que nem todos compreendiam plenamente. Por isso, acabou se transformando em um substituto para outras insatisfações e, acima de tudo, em uma oportunidade de desferir um golpe contundente contra o establishment.

A situação se agravava por vários fatores: ninguém havia realizado, durante anos, um trabalho eficaz de comunicação sobre a União Europeia; as feridas da crise da dívida permaneciam abertas; a coalizão de “Remain”, embora ampla, reunia trabalhistas e nacionalistas escoceses, que não desejavam parecer próximos demais dos conservadores; e os estrategistas da campanha acreditavam que a economia pesaria mais do que a imigração.

“Não foi o que aconteceu”, responde o próprio Oliver.

“Pelo menos não da maneira que imaginávamos. Muita gente considerou os números apresentados pelo governo grandes demais e específicos demais para serem críveis. Reunimos uma série de especialistas que, em um mundo racional, deveriam ter bastado para defender as razões econômicas para permanecer na União Europeia e para rejeitar a saída. Mas, evidentemente, não bastaram.”

A campanha também fracassou na mobilização dos jovens, considerados mais favoráveis à integração europeia. A participação eleitoral aumentou em todas as faixas etárias, exceto entre os jovens de 18 a 24 anos. Isso ocorreu apesar de “Remain” ter desenvolvido, segundo Oliver, “uma campanha sofisticada, ampla e engenhosa” voltada para esse público.

Com o referendo ainda muito recente, Oliver pediu novos estudos sobre os resultados. Nas áreas próximas a uma fábrica da Nissan, Washington & Sunderland West registrou 32% pela permanência e 68% pela saída. Em Houghton & Sunderland South, os percentuais foram de 33% e 67%, respectivamente.

Em Batley & Spen, distrito representado por Jo Cox, 38% votaram pela permanência e 62% pela saída. Em Aberavon, onde funciona uma importante siderúrgica da Tata, o resultado foi exatamente o mesmo.

A participação eleitoral cresceu em relação às eleições de 2015, mas avançou muito mais nas regiões favoráveis à saída — em média, 7,5 pontos percentuais. Isso corresponde a 2,8 milhões de pessoas que não haviam votado na eleição anterior, mas compareceram ao referendo.

“Esses 2,8 milhões de votos adicionais apoiaram Leave de forma esmagadora”, escreve Oliver. “Mais do que o suficiente para garantir a vitória.”

Muitas pessoas que não votavam havia décadas participaram do referendo. E participaram, segundo o autor, “para enviar uma mensagem”.

O livro de Oliver serviu de base, entre outras obras, para Brexit: The Uncivil War (Tony Haynes, 2019), filme centrado no papel desempenhado por Dominic Cummings durante a campanha e interpretado por Benedict Cumberbatch.

O projeto originalmente teria Cameron como personagem central, mas o roteirista James Graham decidiu concentrar-se em Cummings, figura muito mais interessante do ponto de vista dramático.

A reconstrução dos acontecimentos e o ritmo narrativo receberam elogios. Críticos apontaram, porém, que o filme apresenta o estrategista de “Leave” como um underdog (azarão) capaz de despertar simpatia no público.

Em comparação com Unleashing Demons, o filme enfatiza muito mais as transformações sociais que permitiram à campanha pela saída alcançar a vitória.

Em 1975, o Reino Unido votou pela permanência na Comunidade Econômica Europeia (CEE). Quarenta e um anos depois, um novo referendo decidiu pela saída.

Unleashing Demons termina com Oliver se dirigindo a seu antigo chefe:

“Espero que a história seja gentil com você.”

Poderá sê-lo?

Em sua última aparição pública, Cameron anunciou sua renúncia diante da residência oficial do primeiro-ministro britânico e, ao dar meia-volta para deixar o local, afastou-se cantarolando sem perceber que um microfone aberto registrava tudo (do-doo-dooo-do-do). Essa foi a última imagem dele gravada na memória de milhões de espectadores.

Quanto à direita eurocética, hoje representada pelo partido Reform, de Farage, as pesquisas de intenção de voto atribuem à legenda cerca de 25% das preferências.

Como adverte Cummings em um diálogo inteiramente fictício de The Uncivil War, enquanto toma uma cerveja em um pub com Oliver Craig, personagem interpretado por Rory Kinnear:

“It’s going to be a multidecade project.” (Será um projeto de várias décadas.)

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