Apesar dos avanços no combate ao analfabetismo absoluto, o Brasil convive com uma tragédia silenciosa: milhões de pessoas incapazes de compreender plenamente textos, números e informações do cotidiano
O Brasil continua carregando uma das mais graves dívidas sociais de sua história: o analfabetismo. E não se trata apenas daqueles que nunca aprenderam a ler e escrever. A face mais cruel do problema é o analfabetismo funcional, que atinge praticamente três em cada dez brasileiros entre 15 e 64 anos. Segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), 29% da população nessa faixa etária tem dificuldades para compreender, interpretar e utilizar informações escritas, numéricas e digitais nas situações mais simples da vida cotidiana.
O analfabetismo funcional é mais amplo do que a incapacidade de ler palavras. Ele mede a capacidade das pessoas de compreender textos, interpretar informações, realizar operações matemáticas básicas e utilizar ferramentas digitais para resolver problemas do dia a dia. Em uma sociedade cada vez mais dependente da informação e da tecnologia, estar nessa condição significa enfrentar enormes obstáculos para conseguir emprego, acessar serviços públicos, exercer plenamente a cidadania e participar da vida econômica e social do país.
É verdade que houve avanços. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de analfabetismo entre a população com 15 anos ou mais caiu para 5,3%. Ainda assim, são 9,1 milhões de brasileiros que não sabem ler nem escrever. Um número incompatível com a dimensão econômica do país e com as promessas de desenvolvimento repetidas ao longo das últimas décadas.
Os números revelam também que o analfabetismo tem cor, idade e endereço. Entre os brancos, a taxa é de 3,1%. Entre pretos e pardos, chega a 6,9%. Entre os idosos, a desigualdade é ainda mais chocante: 21,8% dos pretos e pardos com 60 anos ou mais são analfabetos, contra 8,1% dos idosos brancos. Regionalmente, o Nordeste apresenta a maior taxa de analfabetismo do país, seguido pelas regiões Norte, Centro-Oeste, Sudeste e Sul, mantendo um padrão histórico de desigualdade educacional entre as regiões brasileiras.

O problema está diretamente ligado à evasão escolar. Entre os jovens que abandonaram a escola ou nunca chegaram a frequentá-la, 59,3% são homens e 40,2% são mulheres. Os dados confirmam uma tendência observada há anos: as meninas permanecem mais tempo na escola e apresentam melhores índices de escolarização.
As razões para o abandono também revelam profundas desigualdades sociais. Para 43% dos jovens, o principal motivo é a necessidade de trabalhar. Em segundo lugar aparece a falta de interesse pelos estudos. Entre os homens, a necessidade de trabalhar responde por 54,2% dos casos, seguida pela falta de interesse, com 28%. Entre as mulheres, a necessidade de trabalhar cai para 26,2%, mas surgem fatores ligados à desigualdade de gênero: a gravidez, responsável por 24,7% dos abandonos, e os afazeres domésticos ou cuidados com outras pessoas, que representam 8,6%.
Além do analfabetismo: Educação abandonada, violência crescente
Outra face dramática da exclusão é a geração dos chamados “nem-nem”. São 8,1 milhões de jovens entre 15 e 29 anos que não estudam nem trabalham. Eles representam 17,5% da população dessa faixa etária, um contingente superior à população inteira do estado de Santa Catarina, que tem cerca de 7,6 milhões de habitantes. Entre as mulheres, a proporção chega a 22,8%, praticamente o dobro da observada entre os homens, 12,4%. Entre pretos e pardos, o índice alcança 19,8%, enquanto entre os jovens brancos fica em 14%.
Os números são dramáticos em todos os aspectos. Revelam que o analfabetismo, a evasão escolar e a exclusão da juventude não são problemas isolados, mas partes de uma mesma engrenagem de desigualdade que condena milhões de brasileiros à marginalização econômica e social. Nenhum projeto de desenvolvimento nacional será viável enquanto uma parcela tão expressiva da população permanecer excluída do conhecimento, da educação de qualidade e das oportunidades de trabalho.
Os números escancaram uma tragédia nacional. Um país que convive com 29% de analfabetos funcionais, 9,1 milhões de analfabetos e 8,1 milhões de jovens que não estudam nem trabalham está desperdiçando seu maior patrimônio: sua gente. Não haverá crescimento econômico sustentável, democracia plena ou desenvolvimento nacional enquanto a educação continuar sendo tratada como gasto, e não como investimento estratégico. O combate ao analfabetismo e à exclusão escolar precisa deixar de ser promessa de campanha para se tornar prioridade permanente do Estado brasileiro.

