A Bodeguita del Medio, ícone mundial por ser considerada o berço do mojito e um dos destinos preferidos dos visitantes estrangeiros no centro histórico de Havana, hoje com apenas alguns clientes, tornou-se um símbolo da queda do turismo em Cuba em meio ao bloqueio petroleiro, agora agravado pela retirada de várias cadeias hoteleiras de seus negócios com empresas da ilha.

“Há três meses começou-se a sentir de verdade a baixa do turismo. Já não está entrando turismo em Cuba. Nenhum, nenhum. Hoje dei sorte e um espanhol me comprou uma peça de madeira.
Temos passado dias inteiros sem vender nada”, disse à IPS Dunia Rodríguez, vendedora de artesanato em um local em frente ao restaurante-bar.
Rodríguez recebe 10% de comissão sobre o valor das vendas que realiza. Foi assim durante os 22 anos em que trabalha no mesmo negócio, que sempre havia sido rentável, mas nestes tempos ela chega a passar mais de uma semana sem ganhar um centavo.
“Este momento do turismo é o pior de todos os tempos”, sentenciou Rodríguez.
Segundo o Escritório Nacional de Estatística e Informação (Onei), entre janeiro e abril de 2026 chegaram a Cuba 328.608 visitantes internacionais, número equivalente a 44,2% do registrado no mesmo período do ano anterior.
Isso significa que cerca de 400 mil turistas deixaram de visitar esta nação caribenha, cuja economia depende da chamada indústria sem chaminés.
Para Carlos Gutiérrez, de 37 anos, que conduz turistas em um automóvel clássico estadunidense da década de 1950, a falta de clientes é um sintoma da crise, até pior do que a escassez de combustível.
“Com a quantidade de combustível que nos destinam pela empresa que nos representa, dá para trabalhar três dias por mês. Comprar combustível na rua é muito caro, mas o fato de não haver turismo é o que torna o negócio pouco rentável”, disse Gutiérrez à IPS.

Desde que o presidente estadunidense Donald Trump assinou uma ordem executiva, em 29 de janeiro, ameaçando impor tarifas aos países que fornecessem petróleo a Cuba, e o governo da ilha respondeu com uma racionalização extrema da venda de combustível, o preço da gasolina no mercado negro disparou até alcançar US$ 10 por litro. Hoje custa entre US$ 7 e US$ 8.
Uma das primeiras consequências da crise energética para o turismo ocorreu quando, em fevereiro, divulgou-se a notícia de que o combustível de aviação havia acabado nos principais aeroportos de Cuba, levando várias companhias aéreas a cancelar seus voos para a ilha.
No entanto, a queda livre da indústria turística cubana estava apenas começando.
Ultimato ao turismo
O mês de junho começou com a saída em debandada de empresas hoteleiras que estavam há anos operando em Cuba, apesar das restrições impostas pelas sanções estadunidenses.
Na segunda-feira, 1º, a canadense Blue Diamond retirou-se dos 15 empreendimentos que administrava na ilha.
Na terça-feira, 2, a cadeia espanhola Iberostar, presente em Cuba desde 1993, confirmou que abandonava 12 dos 18 estabelecimentos que dirigia até então, incluindo hotéis de luxo como o Grand Packard e o Selection La Habana, o edifício mais alto de Cuba.
A cadeia indonésia Archipelago International também deixou de administrar, no mesmo dia, seus seis hotéis. Já na quarta-feira, 3, a espanhola Meliá, a maior operadora estrangeira do país e presente em Cuba desde 1990, deixou de operar “de forma imediata” 15 de seus mais de 30 hotéis na nação caribenha.
Embora o parque hoteleiro da ilha — com mais de 80 mil quartos e 300 instalações — tenha encerrado 2025 com uma taxa de ocupação de apenas 18,9%, o motivo da atual fuga em massa está relacionado ao fato de que, nesta sexta-feira, 5, vence o prazo estabelecido pela ordem executiva 14404, assinada por Trump em 1º de maio.
A medida ameaça aplicar sanções a quase qualquer pessoa ou empresa não estadunidense que mantenha relações comerciais com a ilha, especialmente nos setores de energia, defesa, segurança e finanças.
Rússia lança ofensiva econômica em Cuba e desafia estratégia de isolamento dos EUA
Em 15 de maio, a mineradora canadense Sherritt International anunciou que dissolveria sua empresa conjunta com a estatal cubana General Nickel Company S.A., mas depois moderou a decisão após novas consultas com assessores e uma queda no valor de suas ações.
A partir do sábado, 6, os serviços financeiros internacionais Visa e Mastercard também deixaram de funcionar em Cuba para evitar sanções do governo dos Estados Unidos, informou, na quarta-feira, 3, o Banco Central de Cuba (BCC).
A instituição explicou em comunicado que o banco privado estrangeiro responsável pelas operações internacionais — sem identificá-lo — informou ao BCC que interromperia sua relação com a entidade financeira Fincimex, pertencente ao conglomerado empresarial militar Gaesa.
O BCC afirmou que “tal interrupção” relacionava-se diretamente com a ordem executiva de 1º de maio e que, devido a ela, “Cuba se vê impossibilitada de receber recursos como resultado da comercialização de bens e serviços por intermédio de Visa e Mastercard”.
Segundo o banco, os meios de pagamento em divisas que permanecem disponíveis na ilha são o dinheiro em espécie, cartões pré-pagos nacionais e os cartões internacionais Mir, da Rússia, e UnionPay, da China.
Todos os ovos em uma única cesta
Em virtude da ordem executiva 14404, os Estados Unidos sancionaram, em 7 de maio, o Grupo de Administração Empresarial S.A. (Gaesa), conglomerado militar cubano, assim como sua diretora, Ania Lastres Morera.
Segundo o Departamento de Estado, o Gaesa “constitui o coração do sistema comunista cleptocrático de Cuba”, ao controlar “cerca de 40% ou mais da economia da ilha”, em benefício das “elites corruptas”, enquanto o povo cubano sofre com “fome, enfermidades” e a falta de investimentos em infraestruturas críticas, como a rede elétrica.
Em resposta às acusações de Washington, o governo cubano publicou um comunicado incomum defendendo o Gaesa como “uma resposta articulada de comprovada eficiência frente ao cerco econômico” dos Estados Unidos.
Acrescentou ainda que o objetivo da organização, criada na década de 1990, “sempre foi agrupar empresas com capacidades na geração de divisas e recursos que o Estado requer para manter e desenvolver as conquistas sociais”, o que permitiu financiar centrais termelétricas, obras hidráulicas, hospitais e escolas.
Esse grupo estatal reúne sob seu controle empresas de diversos setores: grande parte do turismo, telecomunicações, empresas importadoras e distribuidoras, redes de serviços, bancos, portos, imobiliárias e transporte, entre outros.
“O Gaesa não é obra do secretismo, nem de elites e muito menos a via de enriquecimento de uns poucos”, enfatiza o comunicado.
Sua estrutura, contudo, também tem sido alvo de críticas pela falta de transparência e por não prestar contas ao Estado.
Em 2024, a então controladora-geral de Cuba, Gladys Bejerano, declarou à EFE que o Gaesa não estava sob sua supervisão porque a disciplina da organização era louvável e porque a Controladoria concentra suas “forças” onde faltam “avanços”.
Mas a política dos Estados Unidos não pretende concentrar-se apenas no Gaesa. Seu leque de sanções abrange múltiplos setores da institucionalidade cubana.
Na quinta-feira, 4, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) emitiu sanções contra o presidente cubano Miguel Díaz-Canel e alguns familiares próximos, assim como contra familiares do ex-presidente Raúl Castro.
Também sancionou cinco instituições e empresas cubanas: o Ministério das Forças Armadas, os Comitês de Defesa da Revolução, o Instituto Cubano de Amizade com os Povos (ICAP), a Amistur Cuba — agência de viagens do ICAP — e a Mineradora La Victoria.

Díaz-Canel criticou as novas sanções por meio de sua conta no X (ex-Twitter):
“Esta cegueira política se soma às medidas coercitivas aplicadas nas últimas semanas contra nosso país, medidas projetadas para prejudicar o povo cubano”, escreveu.
Nesse cenário de asfixia da economia cubana, o governo da ilha deverá perguntar-se o que fazer para evitar as sanções dos Estados Unidos e a queda livre do turismo, entre outros setores da economia.
“Levamos anos deixando que os altos cargos militares manejassem toda a indústria hoteleira e praticamente a economia do país. Não só é ruim para o país, como é ingênuo, ainda mais quando os Estados Unidos estão à espreita”, disse à IPS Cristóbal, um programador havaneiro de 31 anos que preferiu não revelar seu sobrenome.
Como Cristóbal, muitas pessoas se perguntam se, para salvar sua economia, Cuba não precisará reorganizar sua estrutura empresarial ou abrir mão de alguns dos arranjos que sustentam o modelo atual.
“Todos sabem que não se pode pôr todos os ovos em uma única cesta”, acrescentou o jovem programador.

