Quando o governo Donald Trump decidiu incluir o Pix entre os alvos de sua investigação comercial contra o Brasil, muita gente se perguntou por que um sistema de pagamentos criado pelo Banco Central brasileiro despertaria tamanho interesse em Washington.
A resposta passa por dinheiro, tecnologia, poder e política.
Oficialmente, os Estados Unidos alegam que o Pix representa uma prática comercial desleal porque é um sistema desenvolvido e operado pelo Estado brasileiro. Na visão do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), o governo estaria promovendo um serviço público que competiria com empresas privadas do setor de pagamentos.
Mas especialistas ouvidos pela BBC e por diversos veículos internacionais afirmam que o verdadeiro problema é outro: o Pix se tornou uma das experiências mais bem-sucedidas do mundo em pagamentos digitais e passou a ameaçar modelos de negócios extremamente lucrativos dominados por empresas estadunidenses.
Lançado em 2020 pelo Banco Central, o Pix rapidamente se transformou no principal meio de pagamento do país. Hoje, mais de 160 milhões de brasileiros utilizam o sistema. Bilhões de transações são realizadas todos os meses sem cobrança de tarifas para pessoas físicas e com custos muito inferiores aos praticados por cartões de crédito, cartões de débito e intermediários financeiros tradicionais.
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O sucesso do Pix mudou radicalmente o mercado.
Antes dele, cada pagamento eletrônico dependia de uma cadeia de intermediários formada por bancos, bandeiras de cartão, adquirentes e empresas de processamento. Cada etapa gerava taxas e receitas.
O Pix reduziu drasticamente esse custo.
Na prática, ele demonstrou que é possível criar uma infraestrutura pública de pagamentos eficiente, instantânea e praticamente gratuita.
É justamente isso que incomoda.

Empresas estadunidenses como Apple Pay, Google Pay, PayPal e WhatsApp Pay operam modelos baseados na intermediação financeira. Embora continuem atuando livremente no Brasil, passaram a disputar espaço com um sistema estatal que oferece uma alternativa mais barata e acessível.
O Pix não proibiu a concorrência. Não expulsou empresas estrangeiras. Não criou reserva de mercado.
Mas mudou as regras do jogo.
Para especialistas em economia digital, o caso lembra o que ocorreu em outros setores quando governos criaram infraestruturas públicas capazes de competir com monopólios privados. O problema para essas empresas não é a existência do Pix. O problema é o sucesso do Pix.
A questão se torna ainda mais relevante porque o Banco Central pretende ampliar o sistema.
O chamado Pix Automático permitirá pagamentos recorrentes sem necessidade de cartão de crédito. Já o Pix por aproximação concorrerá diretamente com sistemas como Apple Pay e Google Pay.
Além disso, o Brasil avança em projetos ligados ao Open Finance e à digitalização do sistema financeiro, consolidando um modelo que reduz a dependência das grandes plataformas internacionais.
Para gigantes do Vale do Silício, o risco é que o exemplo brasileiro seja copiado por outros países.
Se governos passarem a desenvolver sistemas públicos de pagamento eficientes, baratos e interoperáveis, uma parcela importante das receitas hoje concentradas em empresas privadas poderá desaparecer.
A acusação formal fala em concorrência desleal.
A disputa real parece envolver a defesa dos interesses econômicos de empresas que perderam espaço diante de uma inovação pública brasileira.
Mas a ofensiva contra o Pix ocorre em um momento em que o grupo político de Flávio Bolsonaro intensificou sua aproximação com o governo Trump e passou a defender abertamente ações americanas contra o Brasil.
O senador Flávio Bolsonaro foi recebido na Casa Branca dias antes do anúncio de novas medidas de pressão contra o país.
Já Eduardo Bolsonaro tornou-se uma das principais vozes da campanha internacional contra as instituições brasileiras. Nos últimos meses, ele passou a defender sanções contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e a buscar apoio político junto ao governo republicano.
Em uma das declarações que mais repercutiram, Eduardo afirmou que estava disposto a fazer do Brasil “terra arrasada” caso isso contribuísse para atingir seus objetivos políticos.
É justamente por isso que a disputa em torno do Pix deixou de ser apenas uma discussão técnica sobre meios de pagamento. Ela passou a simbolizar um conflito maior.
De um lado, um governo estrangeiro que busca defender interesses geopolíticos e corporativos de empresas estadunidenses.
Do outro, um sistema brasileiro que se tornou referência mundial em inovação financeira.
E, no meio dessa batalha, uma família política que aposta na pressão de Washington contra o próprio país como instrumento de luta interna.

